Manual ilustrado de como perder uma luta para um striker

Manual ilustrado de como perder uma luta para um striker
MMA

Nosso colunista-carateca aproveitou os inúmeros erros cometidos por Ronda Rousey diante de Holly Holm, no UFC, 193, para criar um guia que dá o caminho para entregar uma luta a um striker.

Por Bruno Cabrera

Após assistir o show de Holly Holm sobre a até então também invicta Ronda Rousey, na luta principal do UFC 193, pensei nos outros grandes clássicos do MMA onde tivemos um duelo entre grapplers vs. strikers e resolvi escrever um guia ilustrado sobre os principais erros de quem perde para um striker.

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1. JOGO MENTAL

Assim como em todos os outros embates, o fator psicológico afeta diretamente no desempenho – super confiança e menosprezo aos adversários podem ser erros fatais. Tudo começa lá na coletiva de imprensa, quando brincadeiras e provocações podem ser um fator para mudar o foco do atleta e transformar a luta em uma “briga pessoal”.

Daniel Cormier levou a confusão com Jon Jones para o lado pessoal e disse que isso influenciou em seu rendimento na luta

Daniel Cormier levou a confusão com Jon Jones para o lado pessoal e disse que isso influenciou em seu rendimento na luta

2. CONTROLE DE DISTÂNCIA

Controlar a distância é a CHAVE para quem quer ganhar um duelo grappler vs striker. A fórmula é simples: quanto mais mantenho a luta na minha área de expertise, mais oportunidades terei de fazer o que “eu sei fazer”. Quando me refiro à distância não é somente não ser agarrado – Kazushi Sakuraba amargurou por ter entrado no clinch de Wanderlei Silva, nos áureos tempos do PRIDE. Refiro-me a manter a luta numa distância conveniente.

Ficar no clinch de Wanderlei Silva nunca foi muito saudável (Foto: Susumu Nagao)

Ficar no clinch de Wanderlei Silva nunca foi muito saudável (Foto: Susumu Nagao)

3. QUEM BATE PRIMEIRO, BATE POR ÚLTIMO

Uma máxima da briga de rua diz que, sempre no início da luta, há um período de estudo. No momento em que um toca o outro, sabe-se realmente se o nosso oponente tem pegada. No caso específico da luta de Holm contra Rousey, a primeira sequência da desafiante foi muito bem executada, finalizando com um cruzado no queixo, fazendo a então campeã “quebrar o pescocinho pro lado” no melhor estilo Molejão.

4. “YOU CAN´T TOUCH ME”

Relato épico de Forrest Griffin em uma rádio (ouça no vídeo abaixo): “Eu fiquei muito confuso, tentava socá-lo, mas ele tirava a cabeça e me olhava como se eu fosse um idiota, como se dissesse: ‘Por que você fez essa idiotice? Você realmente achou que poderia me tocar?’ Eu me senti envergonhado”. Esse tipo de sentimento frustra qualquer expectativa de ganhar a luta e obriga o atleta a tentar coisas novas, as quais muitas vezes não foram devidamente treinadas para isso. Dessa maneira, vão cometendo erros após erros.

5. “AGORA É MINHA VEZ” … “ACHO QUE NÃO” (COMEÇO DO FIM)

Quando um lutador finalmente consegue derrubar ou colocar o adversário na grade, mas não aproveita absolutamente nada, o embate é anulado. Este seria o momento em que, teoricamente, o grappler estaria no seu campo de atuação, onde deveria equilibrar as ações. Em alguns casos, porém, acaba sendo superado. Novamente como referência a luta entre Holm e Rousey, uma das inúmeras tentativas de Ronda derrubar (feito pelo qual ela é mundialmente conhecida), culminou em uma contraqueda aplicada por Holly.

Ronda por cima de Davis e por baixo de Holm (Foto: Quinn Rooney/Getty Images)

Ronda por cima de Davis e por baixo de Holm (Foto: Quinn Rooney/Getty Images)

6. VALE TUDO

Não me refiro aos primórdios do MMA, mas à total frustração do atleta, ao completo desligamento de seu córner ou qualquer estratégia que tenha sido previamente traçada por sua equipe. Esse momento é o último recurso, quando muitas vezes alguns lutadores obtêm sucesso com um nocaute ou uma finalização inesperada, mas, na esmagadora maioria, é apenas a confirmação da superioridade técnica do adversário. Loteria de técnicas sortidas sem objetivo qualquer, a não ser causar algum dano ao adversário, ao melhor estilo da música do saudoso Tim Maia, normalmente é o momento onde um lutador mais se expõe e fica sujeito a contra-ataques fulminantes.

Jamie Varner se empolgou e, quando estava perto de nocautear, foi mandado para a vala por Abel Trujillo

Jamie Varner se empolgou e, quando estava perto de nocautear, foi mandado para a vala por Abel Trujillo

7. O AMARGO SABOR DA DERROTA

Além do dano físico do castigo sofrido, vem a frustração não só de não ter obtido o resultado esperado, mas de ter sido completamente controlado e anulado. É o momento de repensar o camp, focar em aprimorar os erros e aprender ao máximo com a derrota. Muitas vezes essa reflexão acontece ainda durante a luta.

amargo-sabor-da-derrota

Como disse no artigo anterior, no striking não há “novidades”; o que existe é uma nova apresentação para os velhos truques, um condicionamento físico impecável e equilíbrio emocional. Afinal de contas, todo mundo tem um plano até levar o primeiro soco na cara, como já dizia Mike Tyson.

Bruno Cabrera é faixa-preta segundo dan de caratê Shotokan, duas vezes campeão pan-americano e vice-campeão mundial, luva de prata de savate, faixa-roxa de jiu-jítsu, apaixonado por kendo.

  • Hudson Paulo Dias

    Otimo topico!!!

  • Marcos Henrique Lira

    Muito bom. Então numa revanche se a honda não conseguir implantar seu jogo e a Holly tiver tão bem preparada quanto sábado. Dificilmente a judoca conseguirá recuperar o título. Creio eu que Holly vai se preparar ainda mais pra anular o jogo da Ronda. Tornando esse duelo muito difícil de acertar um vencedor.

    • Ronda vai ter que se reinventar e aparecer com alguma surpresa.

  • Leo Corrêa

    A cara do Sonnen é a melhor. :D

    • hahaha vdd

    • Malk Suruhito

      “Please, leave away he from me!”

  • Carlos Felix

    Excelente texto. Parabéns.

    Sem querer defender a Ronda ou a equipe dela. Acho que não tinha como evitar o ego da Ronda ter crescido tanto e ela ter virado essa estrela mimada e super protegida. A guria estava passando o carro geral, ganhando de todas as outras garotas de forma avassaladora. Ganhou em poucos meses espaço na mídia (e contratos publicitários milionários) que atletas de elite levam anos para conseguir. Havia transcendido o status de lutadora de mma e virou uma estrela de hollywood. Iria me admirar se ela conseguisse continuar ficar focada nos treinos e humilde com toda essa exposição.

    Depois que ela perde fica fácil apontar os defeitos e criticar.

    E parabéns a Holly, que atuação maravilhosa. Essa luta mostrou que o mma feminino chegou a outro nível técnico.

  • Bruno Fares

    Belo texto!

  • Cláudio Guimarães

    Bom dia pessoal, sem querer apontar erros, concordo plenamente com o Carlos Felix, parecia mesmo dificil a Ronda continuar tão focada nos treinos com a agenda que tinha, e isso ela mostrou quando disse que ia tirar umas ferias, ela ontem afirmou que vai dar um tempo mas que vai voltar.
    So não se pronunciou em uma possivel revanche.

    • Carlos Felix

      O ritmo dela esse ano foi insano, Cláudio. Ela lutou 3 vezes esse ano, filmou 2 filmes, participou de tudo que é programa esportivo, entrevista, campanhas publicitárias… loucura cara. Não havia como ela se manter treinando em Alto nível.
      Não sou fã da Ronda, nem desmereço o trabalho da Holm. Mas considero que isso influenciou muito o resultado.
      Se lembrarmos que ela lutou com a Bethe 3 meses atrás, apareceu em uma penca de programas televisivos e esteve envolvida com negociações em Hollywood… cara, eu só consigo concluir que ela não treinou para a Holm.
      Para Kim essa luta foi como Mendes vs. McGregor.

      • Bruno Fares

        Ele falou no podcast!

        • Carlos Felix

          Valeu. Vou baixar.

  • Anderson Cachapuz

    Éééééé amigos.. não existem mais bobos no MMA!! /Galvão off

  • Danilo Oliveira

    A atuação da Holly foi magnifica, usou de todos os artifícios de uma ex boxeadora e de um faixa preta de taekwondo. Mas sinceramente não desmerecendo as outras adversarias que disputaram o cinturão com a Ronda, mas todas eram lutadoras unidimensionais, e entravam já com um pé atrás contra a Ronda, com receio de serem derrubadas e se perdiam na proposta feita pelo corner, falaram da trocação da Ronda, mais contra a Holly vimos que a Ronda também é uma lutadora unidimensional, e com dito no texto vai precisar se reinventar se quiser ser campeã novamente.

    • Vai precisar se reinventar mesmo. E eu acho até que a Ronda não é unidimensional, mas pareceu assim contra a Holm (e não contra as demais) quando seu plano A não deu certo e ela ficou sem saber o que fazer.

  • Tef Schäfer

    Pergunto para os que entendem alguma coisa da nobre arte: um jogo de esquivas e aproximação agressiva (ao estilo Iron Mike), apostando na velocidade, poderia ser uma arma eficiente contra o poderoso jogo de movimentação e golpes na longa distância de Holy Holm?

    • Pedro Lins

      Sim e não. No MMA existem mais variações como os chutes, joelhadas e por ai vai.. além disso, a Holm tem experiencia e técnica pra lidar com esse tipo de tática de aproximar rapidamente.O próprio Tyson quando encontrou boxeadores que sabiam manter bem a distância, foi derrotado. Acho que essa estratégia seria mais eficiente se fosse somada as quedas, faria com que ela não ficasse previsível nas tentativas de quedar e já vimos que a Ronda tem punch pra lutar na curta distância.

    • Golpes no corpo e nas pernas são boas pedidas para quebrar movimentações no MMA. Tentar antecipar a movimentação para pegar a Holm na passada é outra (Weidman fez isso com o Lyoto).

  • Lero

    Esse quinto ponto foi o que o Gustafsson fez no JJ, e o que o mesmo Jones fez no Cormier.
    Mesmo no começo da luta, surpreender a o rival no que supostamente ele é melhor (Uma queda no caso) aí depois da para ver como as expressões faciais do JJ e do Cormier mudam completamente, e tiram o foco deles. O foda do Jones é ter encontrado o jeito de virar o negocio quando já estava todo quase perdido.
    O Weidman aguentando a Blitz do pai da Holly Holm também teve o mesmo efeito: O Vitor ficou tipo “puta merda, esse fdp deveria estar desacordado no chão, e agora?”
    Bruno, agora tem um monte de gente falando que o treinador da Ronda é um merda é só teve sorte de ter encontrado ela no momento justo. Concorda?

    • Malk Suruhito

      “Pai da Holly Holm”
      HUAHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAH

    • Malk Suruhito

      Quanto ao Edmond, não achava ele um merda, mas não achava nada demais, não achava ele um Ludwig ou Dedé Pederneiras.
      Mas depois da declaração dele de que “Ela não estava perdendo a luta em pé e seguiu o planejamento corretamente” sim, agora eu considero ele um merda.
      Vai para a Escola Murilo Ninja de melhores Córners de MMA.

      • Lero

        É… não estava perdendo a luta em pé, por isso a Ronda deu um nocaute na Holm e ainda é campeã

      • Airton S

        Amigos, esqueçamos tudo, estamos todos errados, vimos outra luta. Palavras do Tarverdyan: “Eu não diria que ela estava melhor do que a Ronda na trocação, mas eu tenho que ver novamente. Sabemos que não foi uma luta de trocação.”

    • A Holm também fez isso ao bloquear uma queda e botar a Ronda de costas pro chão.

  • Airton S

    O segundo ponto, a Ronda não fez direito? Na luta de sábado, não vi erro técnico (mas pode ter sido leitura de leigo); vi mais mérito da Holm em superar com um legwork ainda mais bem-feito.

    • Airton S

      Opa, já respondido nos comments da matéria da luta em si. Thanks, Alexandre.

  • Arthur Malaspina

    Grande post!

  • Jefferson França

    A Holm não apenas deu uma aula técnica e tática como também uma verdadeira lição de flair play. Ela foi super humilde e agiu com extrema classe. Já a Ronda além de ter xingado a Holly no instagram dizendo que “a filha do pastor era vadia dela”, nem sequer quis tocar as luvas no início do combate. Muito arrogante! Perdeu muitos fãs ali. Já a Holly Hom caiu nas graças do público. Vida longa a nova campeã!

    • Luiz Henrique

      Foi o que eu disse lá no Sexto Round, Holm foi fina do início ao fim, ao contrário de Ronda. Foram dois extremos.

    • A Ronda levou na boa e no respeito durante todo o camp, cansou de elogiar a Holm em várias entrevistas. Acho que ela deu de louca no fim pra ajudar nas vendas de PPV.

    • Paulo Josué Lemos Alves

      Não tocar luvas no início pra mim é o de menos. Anderson não tocou contra o Hendo e inúmeros outros casos ocorreram. O que não pode é o que fez o Mark Hominick contra o zumbi coreano, de fingir que vai tocar e emendar um soco. Ainda bem que ele teve o castigo devido.

  • André Matsumoto

    Na minha opnião de que acompanha mma deis da época do vale tudo, não sou especialista ou muito menos praticante, mas na minhão opnião no quesito trocação a Ronda ainda é uma amadora (alguns podem discordar), ela ataca e nem se preocupa com contra ataque da adversária como na luta contra Beth, o rosto dela mais inchado do que o da Beth mesmo tendo ganhado. Ela realmente tem a mão pesada e um bom queixo, mas vai pra cima sem técnica, sem frieza, soltando os golpes de qualquer jeito (como visto na luta contra Holly), ela não chuta, ela não usa/não treina wrestling, não usa clinch do muay thai, não estuda o adversário na luta, etc. Pra mim de todos lutadores do ufc tanto masculino e feminino, ela é umas das que menos evoluiu (de novo discordancia), se for comparar questões de lutadores completos como a cyborg (não tem como não associar kkk) que tem 3x mais tempo lutando mma do Ronda é sacanagem, que luta mma, muay thay, jiu jitsu, wrestling (lutou em curitiba), mas se for comparar com Chris Weidman que iniciou um ano antes que Ronda a evolução é gritante. O lutador que veio do Wrestling, que aprendeu jiu jitsu ao ponto de dar uma quilhotina em pé, tem a mão pra nocautear o Uriah Hall e o Anderson e ganhar na trocação contra Lyoto, que te um queixo bom e tem a paciência de levar os golpes e esperar o Victor cansar para atacar. A Ronda tinha a mesma vantagem que os lutadores nos primordios tinha quando os adversários não conhecia muito bem a modalidade, como foi c/ jiu jitsu ou muay thay por exemplo.
    Eu acho que para Ronda vencer teria que mudar de técnico e tirar o foco do judo e focar em outras áreas como fez o Rafael dos Anjos e Werdum. Senão….

    Melhor eu parar, o texto ta maior que a matéria kkkk..

    • André Matsumoto

      Olha que gosto da Ronda….