Manual ilustrado de como perder uma luta para um striker

Por Edição MMA Brasil | 16/11/2015 21:26

Por Bruno Cabrera

Após assistir o show de Holly Holm sobre a até então também invicta Ronda Rousey, na luta principal do UFC 193, pensei nos outros grandes clássicos do MMA onde tivemos um duelo entre grapplers vs. strikers e resolvi escrever um guia ilustrado sobre os principais erros de quem perde para um striker.

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1. JOGO MENTAL

Assim como em todos os outros embates, o fator psicológico afeta diretamente no desempenho – super confiança e menosprezo aos adversários podem ser erros fatais. Tudo começa lá na coletiva de imprensa, quando brincadeiras e provocações podem ser um fator para mudar o foco do atleta e transformar a luta em uma “briga pessoal”.

Daniel Cormier levou a confusão com Jon Jones para o lado pessoal e disse que isso influenciou em seu rendimento na luta

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2. CONTROLE DE DISTÂNCIA

Controlar a distância é a CHAVE para quem quer ganhar um duelo grappler vs striker. A fórmula é simples: quanto mais mantenho a luta na minha área de expertise, mais oportunidades terei de fazer o que “eu sei fazer”. Quando me refiro à distância não é somente não ser agarrado – Kazushi Sakuraba amargurou por ter entrado no clinch de Wanderlei Silva, nos áureos tempos do PRIDE. Refiro-me a manter a luta numa distância conveniente.

Ficar no clinch de Wanderlei Silva nunca foi muito saudável (Foto: Susumu Nagao)

Ficar no clinch de Wanderlei Silva nunca foi muito saudável (Foto: Susumu Nagao)

3. QUEM BATE PRIMEIRO, BATE POR ÚLTIMO

Uma máxima da briga de rua diz que, sempre no início da luta, há um período de estudo. No momento em que um toca o outro, sabe-se realmente se o nosso oponente tem pegada. No caso específico da luta de Holm contra Rousey, a primeira sequência da desafiante foi muito bem executada, finalizando com um cruzado no queixo, fazendo a então campeã “quebrar o pescocinho pro lado” no melhor estilo Molejão.

4. “YOU CAN´T TOUCH ME”

Relato épico de Forrest Griffin em uma rádio (ouça no vídeo abaixo): “Eu fiquei muito confuso, tentava socá-lo, mas ele tirava a cabeça e me olhava como se eu fosse um idiota, como se dissesse: ‘Por que você fez essa idiotice? Você realmente achou que poderia me tocar?’ Eu me senti envergonhado”. Esse tipo de sentimento frustra qualquer expectativa de ganhar a luta e obriga o atleta a tentar coisas novas, as quais muitas vezes não foram devidamente treinadas para isso. Dessa maneira, vão cometendo erros após erros.

5. “AGORA É MINHA VEZ” … “ACHO QUE NÃO” (COMEÇO DO FIM)

Quando um lutador finalmente consegue derrubar ou colocar o adversário na grade, mas não aproveita absolutamente nada, o embate é anulado. Este seria o momento em que, teoricamente, o grappler estaria no seu campo de atuação, onde deveria equilibrar as ações. Em alguns casos, porém, acaba sendo superado. Novamente como referência a luta entre Holm e Rousey, uma das inúmeras tentativas de Ronda derrubar (feito pelo qual ela é mundialmente conhecida), culminou em uma contraqueda aplicada por Holly.

Ronda por cima de Davis e por baixo de Holm (Foto: Quinn Rooney/Getty Images)

Ronda por cima de Davis e por baixo de Holm (Foto: Quinn Rooney/Getty Images)

6. VALE TUDO

Não me refiro aos primórdios do MMA, mas à total frustração do atleta, ao completo desligamento de seu córner ou qualquer estratégia que tenha sido previamente traçada por sua equipe. Esse momento é o último recurso, quando muitas vezes alguns lutadores obtêm sucesso com um nocaute ou uma finalização inesperada, mas, na esmagadora maioria, é apenas a confirmação da superioridade técnica do adversário. Loteria de técnicas sortidas sem objetivo qualquer, a não ser causar algum dano ao adversário, ao melhor estilo da música do saudoso Tim Maia, normalmente é o momento onde um lutador mais se expõe e fica sujeito a contra-ataques fulminantes.

Jamie Varner se empolgou e, quando estava perto de nocautear, foi mandado para a vala por Abel Trujillo

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7. O AMARGO SABOR DA DERROTA

Além do dano físico do castigo sofrido, vem a frustração não só de não ter obtido o resultado esperado, mas de ter sido completamente controlado e anulado. É o momento de repensar o camp, focar em aprimorar os erros e aprender ao máximo com a derrota. Muitas vezes essa reflexão acontece ainda durante a luta.

amargo-sabor-da-derrota

Como disse no artigo anterior, no striking não há “novidades”; o que existe é uma nova apresentação para os velhos truques, um condicionamento físico impecável e equilíbrio emocional. Afinal de contas, todo mundo tem um plano até levar o primeiro soco na cara, como já dizia Mike Tyson.

Bruno Cabrera é faixa-preta segundo dan de caratê Shotokan, duas vezes campeão pan-americano e vice-campeão mundial, luva de prata de savate, faixa-roxa de jiu-jítsu, apaixonado por kendo.