Por Alexandre Matos | 14/11/2010 15:06

Com tantos eventos exibidos nesta semana que passou, somente no último consegui ficar acordado durante todo o tempo. E logo no mais tarde deles. Dormi na penúltima luta do WEC 52, na quinta-feira. Peguei no sono no início da noite de ontem, quando Amir Sadollah entrava no octógono alemão na terceira luta do chatíssimo UFC 122. Mas não me arrependo de ter perdido nada. Com uma atuação espetacular, o filipino Manny Pacquiao venceu o mexicano Antonio Margarito e segue fazendo história no boxe. E esta eu acompanhei toda.

Manny Pacquiao (FIL) venceu Antonio Margarito (MEX) por decisão unânime (120-109, 118-110, 119-109)

A data de 13 de novembro de 2010 estava reservada para o épico confronto do deputado filipino contra Floyd Mayweather Jr, antigo dono do posto de melhor peso por peso do mundo. Mas as controvérsias envolvendo controle antidoping fizeram com que a superluta fosse adiada (ou até cancelada definitivamente).

Num Cowboys Stadium lotado de mexicanos alucinados (41.734 espectadores pagaram ingressos), Paquiao mostrou que caminha a passos largos para deixar seu nome na lista dos melhores da história. Com 13cm a mais de altura, 15cm de vantagem na envergadura e 8kg mais pesado, Margarito era considerado perigosíssimo por causa da maior potência. O filipino sequer conseguiu bater o peso mínimo da categoria, que é de 66,7kg. Muitos ainda diziam que os trabalhos como deputado nas Filipinas, que fez com que Manny treinasse apenas de noite por boa parte do camp e só tivesse dedicação integral nos 25 dias finais, atrapalhariam o rendimento do filipino. Na hora do “vamos ver”, nada disso se consolidou em momento algum do combate.

Atuando na velocidade turbo que lhe é peculiar, Pac-Man simplesmente massacrou o oponente. Movimentando-se por todos os cantos do ringue, disparando sequências que chegavam a 10 golpes, apresentando variação técnica e precisão incríveis, o filipino deu uma verdadeira aula de boxe, sendo poucas vezes alvo dos potentes golpes do pilantra(*) mexicano. Com uma atuação tão brilhante quanto brutal, Manny simplesmente não deixou Antonio controlar a distância hora nenhuma. Durante a luta, Pacquiao disparou assombrosos 474 golpes potentes, acertanto o alvo em também assustadores 57% das oportunidades. Mesmo com uma guarda alta e bem fechada, Margarito não conseguia impedir que os golpes de Manny entrassem como uma perfuradora.

O sexto assalto foi o único grande momento do mexicano, que chegou a abalar o oponente com golpes pesados, principalmente no tronco. Mas ainda assim não fez o suficiente para vencer o round, na minha opinião.

O massacre foi tamanho que, por algumas vezes, tanto o árbitro Laurence Cole quanto o médico fizeram testes para saber se Antonio enxergava somente com seu olho esquerdo, profundamente danificado. Pac-Man chegou a olhar para o árbitro durante um round e falar: “Veja os olhos dele! Veja estes cortes!”. Inacreditável e ridiculamente, o combate não foi parado. Na minha contagem, o filipino venceu todos os assaltos, sendo que o décimo foi faturado por 10-8 (mesmo sem um knockdown!), o que culminou em um massacrante 120-107. Vítima de sua própria coragem, Margarito pode sofrer consequências graves no futuro. Após a luta, o campeão falou:

“Sinto pelo meu oponente, seus olhos e rosto ensanguentado. Eu queria que o árbitro visse aquilo. No 12º round eu não estava procurando um nocaute. Eu não queria machucá-lo permanentemente, o boxe não é para isso. Levei com tranquilidade porque meu treinador me disse para pegar leve e apenas ter cuidado. Foi realmente uma luta dura, a mais difícil de toda a minha carreira. Ele é forte. Eu senti isso. Nunca esperava que ele fosse tão forte como mostrou ser. E é um lutador muito duro. Não consigo acreditar que ele absorveu todos aqueles socos. E é difícil de acreditar que venci um adversário com este tamanho e esta força.”

Logo que a luta terminou, Margarito foi levado ao hospital. Depois de fazer piadas com o mal de Parkinson de Freddie Roach, treinador de Pacquiao, Antonio deve estar arrependido e preocupado com futuro semelhante. Vamos rezar para que daqui a 30 anos, o árbitro ou o médico não precisem dar explicações à família do mexicano. Roach declarou depois da luta:

“Ele teve o pior córner. Eu queria que tivessem parado a luta. Eles provavelmente arruinaram a carreira de Margarito ao não interromper a luta… Talvez Antonio nunca mais lute de novo. Ele recebeu muitos socos desnecessários.”

A vitória valeu a Pac-Man o título mundial pela oitava categoria
diferente. Isto é um feito sem precedentes na história dos esportes de combate. Se contarmos apenas os títulos das entidades mais relevantes, apenas Oscar de la Hoya conquistara seis cinturões em categorias de peso distintas. Se juntarmos cinturão de qualquer entidade de fundo de quintal, o portorriquenho Héctor “Macho” Camacho conseguiu em sete divisões. Manny abocanhou o oitavo apenas considerando as principais organizações.

O filipino conquistou seu primeiro cinturão como peso mosca em 1998. Papou na sequência os títulos dos supergalos (2001), penas (2003), superpenas (2005), leves (2008) e superleves (2009). Quando todos acharam que o limite chegara, eis que Pacquiao assombra o mundo e fatura a coroa dos meio-médios, também no ano passado. Para quem começou a carreira como minimosca (até 108lbs/49kg), já foi assustador vê-lo triunfar numa divisão até 140lbs/63,5kg. Ontem a luta valeu pela divisão dos médio-ligeiros (até 154lbs/69,9kg), incríveis 20kg acima da marca do começo da carreira. E se levarmos em consideração que Pac-Man não mede os 2,01m de Vitali Klitschko, por exemplo, subir de peso assim é algo realmente notável.

Se antes fazia sentido a implicância de Mayweather, depois da luta de ontem sua postura passa a tomar ares de precaução. Ainda que o “Pretty Boy” americano apresente o melhor sistema defensivo do boxe mundial na atualidade (o melhor que eu já vi e talvez um dos melhores de todos os tempos) e seja o desafio técnico mais sensacional que Pacquiao possa ter, enfrentar o filipino nas atuais circunstâncias é taréfa hercúlea até mesmo para Floyd. Quanto a isso, Freddie Roach foi duro:

“Após este ótimo desempenho, Mayweather deve se posicionar ou se calar, ou então sair do país. Encare, Manny está acima dele neste momento. Eu me lembro quando [Mayweather] esculhambou Margarito. Se ele não lutar contra Manny agora, nós sabemos que esse cara deveria se aposentar.

Torcida filipina de olho no herói nacional

Mas eu não quero saber de nada disso. E acho que Pac-Man também não quer. Ou Bob Arum e Oscar de la Hoya dão um jeito de juntar Pacquiao e Mayweather logo, ou corremos o risco de ver o filipino se aposentar por falta de oposição qualificada, para se dedicar apenas à carreira política. Senão daqui a pouco começarei a fazer propaganda pra Pacquiao enfrentar logo Wladimir Klitschko…

(*) Refiro-me ao caso da luta contra Shane Mosley, quando foi provado que Margarito atuou com uma bandagem de gesso, que endurecia conforme suava. A safadeza lhe custou um ano de suspensão, cumprida a partir de fevereiro de 2009. E dizem à boca miúda que ele já usara de tão vil procedimento contra Miguel Cotto.