Por Thiago Kühl | 05/07/2018

Até bem pouco tempo atrás, sequer se falava sobre MMA feminino. Assim como em boa parte dos outros esportes, as mulheres estavam relegadas à sombra. Seja no futebol, basquete, natação, atletismo, tênis, boxe, etc., são raros os esportes em que exista um emparelhamento de reconhecimento entre sua versão masculina e feminina e isso nada mais é que um dos inúmeros reflexos da sociedade na qual vivemos, dominada por um tipo de reprodução social determinante deste efeito.

Houve na história, é verdade, algumas mulheres que romperam a incrível barreira do preconceito de gênero e chegaram ao estrelato, até podendo competir no mainstream com as estrelas do sexo oposto em seus respectivos esportes. Foram os casos de Serena Williams e Steffi Graf no tênis, Yelena Isinbayeva no salto com vara e Wu Mingxia no trampolim. A diferença é que todas estas foram grandes nos seus respectivos esportes, porém não foram, nem são, reconhecidas como as maiores deles – considerando masculino e feminino. Algumas nem alcaçaram a fama perante o tal do “público médio”.

Ronda Rousey conquistou bronze olímpico em 2008

Ronda Rousey conquistou bronze olímpico em 2008

Foi justamente no esporte mais masculinizado de todos, com uma carga de preconceitos gigante, quase que intrínseca à sua existência, que uma mulher alcançou um tamanho e famas inigualáveis. Não existe qualquer ser humano que pratique MMA com brilho maior que Ronda Rousey, indicada ao Hall da Fama do UFC nesta International Fight Week.

A história da americana é bastante conhecida. Natural da Califórnia, filha da primeira americana campeã mundial de judô, AnnMaria De Mars, seguiu a carreira da mãe no esporte, chegando à medalha de ouro pan-americana (Rio 2007), prata mundial (Rio 2007) e bronze olímpica (Pequim 2008). Após não chegar ao ouro em Pequim, caiu em depressão, desistiu da carreira de judoca e, conforme a própria conta em sua biografia, acabou morando em seu carro e trabalhando como garçonete em bares. Até o dia que viu Gina Carano lutar e decidiu que iria mudar a história do MMA para sempre.

Ronda estreou no MMA profissional em março de 2011. Vinte meses depois, em 10 de novembro de 2012, foi contratada pelo UFC. No mês seguinte, foi promovida a campeã inaugural do peso galo, para então, em 23 de fevereiro de 2013, fazer a sua primeira de seis defesas do cinturão do UFC. De suas 14 lutas profissionais, ela esteve na luta principal em oito oportunidades e na coprincipal em outras três, envolvida na venda de mais de seis milhões de pacotes de pay-per-view.

Após as duas derrotas em suas últimas incursões no octógono, Ronda abandonou o MMA e foi para o pro wrestling, mas a fama estava consolidada. Já fez cinco filmes, aparições em todos os programas de TV possíveis, dentro e fora do esporte, incluindo o fato de ser a primeira mulher apresentadora convidada do SportsCenter da ESPN.

Isso tudo só ilustra o quão grande Ronda se tornou. Ao meu ver, a maior atleta de MMA de todos os tempos. Tenho certeza que muitos dos meus colegas de equipe, bem como grande parte dos leitores do MMA Brasil, não concordarão, inclusive já tivemos textos sobre o futuro de Ronda, mas, de toda forma, vou expor os motivos (vai que convenço alguém).

Quando se fala de maior de todos os tempos, sempre dizemos que a técnica – ainda que muito importante – não é o fator determinante. De toda forma, começaremos por este aspecto.

Ronda Rousey conquistou cinturão no UFC 157 na primeira luta feminina da história da organização

Ronda Rousey conquistou cinturão no UFC 157 na primeira luta feminina da história da organização

Ronda venceu suas primeiras 12 lutas no MMA de forma extremamente dominante, com nove submissões por armlock e três nocautes, sem dar qualquer chance para suas adversárias. Houve inclusive vitórias constrangedoras (para as rivais), como contra Cat Zingano, Alexis Davis e Bethe Correia, cujo tempo de luta somado pouco passou de um minuto. É verdade que, quando as derrotas chegaram, foram acachapantes, mas é importante lembrar que Ronda já estava envolvida em diversas outras atividades que não treinos de MMA. Além disso, é sempre importante lembrar da qualidade bastante duvidosa da equipe em que treinou, notadamente do seu técnico Edmond Tarverdyan.

Além do aspecto técnico, sempre que falamos em maior, falamos em importância para o esporte: Ronda deu visibilidade para o MMA feminino. Não existiria categoria feminina no UFC sem sua existência – e esse discurso não é meu, é de Dana White. Além disso, a visibilidade de Ronda deu a possibilidade para que meninas começassem a treinar, vissem que o MMA é um meio de vida possível, que existe uma plataforma na qual elas podem ter sucesso, que não é um lugar só de homens. Tudo graças a Rousey.

Somente três lutadores venderam mais (no acumulado) que Ronda: Georges St. Pierre (ao longo de 12 anos), Brock Lesnar (que não iniciou sua fama no MMA) e Conor McGregor (que não foi um campeão dominante como Ronda). E eles nem foram tão mais bem sucedidos assim. Os três passaram de seis milhõres de pacotes vendidos, é verdade, mas não alcançaram muito mais de 7 milhões de pacotes.

Além disso, talvez o único dos três citados que tenha fama similar à de Ronda fora do público do MMA seja Lesnar, mas convenhamos, pouco disso tem a ver com o esporte e sim com sua carreira na WWE.

Por fim, e mais importante: o legado de Ronda Rousey. Pode ter existido lutadores que tiveram desempenho esportivo melhor que Ronda. Pode ter existido lutadores que venderam mais pacotes que Ronda. Pode ter existido lutadores mais dominantes em suas categorias que Ronda. A história escolhe seus personagens para ser contada e, se existe um personagem incontornável na história do MMA, é Ronda Rousey. Em 50 anos, você provavelmente poderá contar a história do esporte sem citar Anderson Silva, Jon Jones e até GSP. Porém, o lugar de Ronda Rousey estará lá, inexorável.

Se você chegou aqui discutindo com cada parágrafo do meu texto, ele teve seu objetivo cumprido. Maior de todos os tempos ou não, isso se resta apenas como uma discussão entre nós, fãs do esporte. O que importa é que Ronda Rousey quebrou barreiras maiores e mais sólidas que qualquer outro lutador para alcançar o topo e o fez de forma magistral. A mensagem que deve permanecer é: que a luta, dentro e fora do octógono, contra preconceitos, estereótipos e opressões permaneça e se multiplique, pois só assim teremos histórias de outras Rondas para contar, não só no MMA e no esporte, mas na sociedade como um todo.

Ronda Rousey: maior de todos os tempos.