Lute como uma menina: Nós temos espaço no MMA?

Num mundo onde a discussão por igualdade de gênero tem ganhado força, a participação feminina nas mais diversas áreas do MMA está crescendo, mas ainda com muita dificuldade.

Periodicamente acende-se incansáveis debates sobre a participação da mulher no mundo dos esportes considerados tipicamente masculinos. É comum observarmos as dificuldades que atletas e profissionais mulheres têm que encarar para alcançar minimamente um lugar ao sol, mesmo que a caminhada seja igual à de muitos homens. Temos como exemplo recente a ex-treinadora da seleção brasileira de futebol feminino, Emily Lima, que, mesmo sem ter disputado nenhuma competição oficial e com somente dez meses de trabalho, foi demitida por não trazer resultados, uma atitude bem diferente do que aconteceu com seus antecessores – todos eles, diga-se de passagem, homens.

No MMA não seria diferente. São incontáveis argumentos que ouvimos por aí para justificar a ausência do sexo feminino, ou ainda referendar o machismo e preconceito velados por trás de um discurso conservador e zeloso. Num ambiente no qual a luta por igualdade de gêneros é cada vez mais importante, ainda esbarramos no mesmo obstáculo quando falamos de MMA: isso é coisa para homem!

Para as profissionais lutadoras, juízas, árbitras, cutwomen, jornalistas que se arriscam na profissão, o caminho é tortuoso, árduo. Eu mesma, em minha empreitada como juíza de MMA, sinto na pele essa constante luta. É um processo diário de desconstrução, que requer muita paciência.

Um exemplo para ilustrar: eu era um dos três profissionais designados como juiz lateral de um evento no estado de São Paulo. Uma das lutas terminou em decisão dividida. O técnico do lutador derrotado ficou muito irritado com o resultado e não pensou duas vezes antes de despejar sua fúria. Ele veio em minha direção esbravejando que eu não sabia julgar. Em sua cabeça, eu tinha sido a responsável pela derrota de seu pupilo “por não saber julgar”. Só teve um detalhe curioso: eu julguei a luta a favor do lutador dele.

Já perceberam que, até quando falamos de lazer, o MMA também está restritamente ligado ao masculino? É igualmente bastante comum quando falamos do esporte numa mesa de bar, após um olhar de surpresa, logo recebermos uma saraivada de questionamentos. É quase instantâneo que nos cobrem o nome de todos os campeões do UFC, lutas do PRIDE ou regras do MMA.

Gostar não necessariamente te faz uma especialista pós-graduada em decorar cards.
Aparentemente, mulher precisa provar que é merecedora e realmente entende da coisa ou então que retorne à sua caixinha para que voltemos à programação normal.

Se fizermos a pergunta: “Quantos dos seus amigos homens precisam explanar ou explicar o motivo de gostar de MMA ou futebol?”, por exemplo, posso apostar que a resposta é: nenhum.

Existe uma inconsciente classificação em termos de lazer do que seria tipicamente masculino ou feminino e várias constantes que acompanham nosso dia a dia, perpetuando a dificuldade de inclusão no esporte.

Podemos afirmar, que anos após a declaração polêmica de Dana White, dizendo que as mulheres nunca lutariam no UFC, algumas coisas mudaram: novas categorias de peso femininas chegando, mulheres encabeçando cards importantes, jornalistas mulheres fazendo cobertura de eventos renomados, mulheres comandando cages, nos córneres, pontuando lutas. E essa lista, mesmo que ainda pequena e de crescimento lento, tende a aumentar cada vez mais.

Em um mundo onde ainda precisamos falar deste assunto à exaustão, é sempre bom pontuar que não existe uma disputa. Não é uma competição na qual quem souber mais ganha e o outro perde.

O MMA é, sim, um espaço que pode também ser ocupado por mulheres. Nós podemos gostar sem termos que provar o porquê. Nós podemos trabalhar em igualdade sem termos que nos submeter a situações constrangedoras. E o mais interessante de tudo isso, pasme!, o mundo continuará girando.

Ah, esqueci de me apresentar. Isabella Kida, muito prazer! Meu primeiro texto no site não podia ser diferente. Sou fã dos irmãos Diaz, juíza de MMA e, não, não tenho decoradas todas as lutas do PRIDE.

  • Leandro Fiamoncini

    Ótimo texto.

    • Isabella Kida

      Obrigada Leandro!

  • Ju

    Você está entre as mulheres que eu mais admiro e se um dia eu puder ser só um pouquinho do que você é, já estarei completa. Parabéns pelo texto, que venham os próximos. Amo vc.

    • Isabella Kida

      Ahhh, que fofa! Você já é S2

  • Bruno Coelho

    Excelente texto, Isabela! Parabéns e, por favor, continue escrevendo para o site! ;)

    O MMA é um dos poucos esportes em que as mulheres têm tanto destaque quanto os homens. Não digo que há 100% de paridade, mas já presenciamos uma Ronda ganhando milhões de dólares enquanto vários “machões da luta” não conseguiam fazer nem 500 mil e há lutas femininas que são tão empolgantes quanto a dos homens (vide o recente UFC 217). Contudo, como a Isabela bem pontuou, tem muita coisa a ser feita. Machismo existe sim e deve ser combatido. O problema é que muitas vezes pensamos num machismo truculento e boçal a la Bolsonaro, mas o mais perigoso, a meu ver, é o tácito e/ou inconsciente, como acontece quando , por exemplo, usa-se a sigla “WMMA” e quando dizem que o Brasil não tem mais campeões.

    Eu odeio a expressão WMMA e não a uso de jeito maneira, pois dá a entender que o MMA da Rose Namajunas e da Joanna é uma subcategoria do MMA, quando na verdade é o puro e simples MMA só que lutado por mulheres. Quanto ao segundo exemplo, já li e ouvi muitos “cidadãos de bem”, inclusive profissionais, fazendo discursos apocalípticos sobre a falta de campeões brasileiros… e essa gente faz isso sem nem citar o fato de que temos dois cinturões, um com a Amanda e outro com a Cyborg. É como se cinta mesmo só valesse na mão de homens. Enfim.

    Há também o fato, igualmente pontuado pela Isabela, de as mulheres terem que sempre se provar. Um caso recente que me marcou muito foi o da Adelaide Byrd quando da luta Canelo x GGG. Li muito, mas muito comentário na net de nêgo dizendo “isso que dá colocar mulher pra arbitrar luta!” e outras barbaridades, no entanto, quando um homem erra ninguém relaciona o erro com o fato de o juiz ser portador de um pênis e dois testículos.

    • Isabella Kida

      OI Bruno, exato. O Machismo mais sutil é muito prejudicial também, é aquele que a gente levanta no dia a dia sem perceber e que alimenta uma normalidade em diversos pontos que precisamos mudar.
      Eu sempre tento refletir diversas atitudes minhas e acredito que já mudei muitas delas que hoje enxergo que eram prejudiciais. O importante é reconhecer e partir para a mudança.
      A questão do se provar é uma grande vilã ao meu ver no meio profissional, a pressão em saber tudo, em nunca poder errar e acrescentando aí as dificuldades rotineiras faz com que muitas mulheres pereçam.

  • Rodrigo Garcia Salles Camargo

    Parabéns meninas e sigam em frente para ter mais espaço e melhores condições.. . BOA SORTE

    • Isabella Kida

      Obrigada Rodrigo!

  • Amanda Araújo

    Parabens, excelente texto! Infelizmente para nós mulheres as coisas são um pouco mais complicadas, mas com garra aos poucos vamos conquistando nosso espaço! Boa sorte :)

    • Isabella Kida

      Obrigada Amanda! Isso aí, mesmo com maiores dificuldades vamos caminhando!

  • Olavo Melo

    Infelizmente ainda o extremo de colocar homens e mulheres em lados diferentes, quando na verdade a igualdade só trás benefício a todos, não é diferente no meio esportivo.
    Mas graças a pessoas fortes, seguem firme no esforço diário de abrir os olhos de pessoas machistas e preconceituosas que ainda acredito que um dia isso vai ter um fim, todos serão tratados de forma igual.
    Isabella Kida, parabéns pelo artigo, e pela força que demonstra. Tenho certeza que será vitoriosa em mais essa empreitada.

    • Isabella Kida

      OI Olavo, é exatamente isso! Igualdade só trará benefícios a todos! Obrigada!

  • Fábio Unger

    Parabéns pelo texto!!! Igualdade, sempre!!!

  • Yara Amorim

    Isso nos faz refletir o quanto a sociedade alimenta uma desigualdade entre homens e mulheres de forma desnecessária. Precisamos reconhecer estes acontecimentos para reformularmos a ideia de que somente o homem tem sucesso no meio esportivo, mulher também é capaz de brilhar e mostrar até onde pode chegar quando se tem determinação e um sonho a ser alcançado. Ótimo texto, parabéns!

    • Isabella Kida

      Alimenta demais Yara, o tempo todo direcionando o que deve ser para homem e o que deve ser pra mulher.

  • William Oliveira

    Ótimo texto mas com todo respeito me permita discordar ao menos parcialmente. A participação feminina está crescendo rapidamente, são 4 main events seguidos na Fightweek e no evento de fim de ano e mais 2 novas categorias também.

    Aprofundando um pouco mais, vejo a participação feminina principalmente no MMA de duas formas diferentes, ao mesmo tempo que o machismo é bastante presente e dificulta a vida de mulheres como você que de forma alguma duvido que tenha talento, seja profissional e merecedora das funções que almeja, também não posso deixar de notar casos onde mulheres pouco informadas sobre o assunto ganham cargos ou trabalhos somente por serem mulheres (uma questão de inserção no mercado), quando essa função poderia estar sendo melhor desempenhada por um rapaz mais bem qualificado e com maior gabarito histórico no que diz respeito a MMA.

    Acredito eu que a questão da “representatividade” seja um pouco supervalorizada e desnecessária, o que deveria interessar mesmo é somente o respaldo profissional dos dois indivíduos disputando algo, seja uma vaga como árbitro de MMA ou apresentadora por exemplo, para exemplificar, esses dias mesmo eu estava vendo um quadro do Combate super nada ver, e conduzido obviamente por uma mulher, que eu arriscaria dizer que nunca assistiu MMA na vida, a não ser para fazer aqueles vídeos devera toscos. Posso estar errado e sendo injusto nesse pré julgamento raso que faço, é claro, mas foi a imagem que me ficou.

    Mais uma vez, parabéns, excelente gancho e embora seja um assunto não muito fácil de debater, acho que há pontos interessantes com espaço para tal, boa sorte com futuras matérias!

    • Isabella Kida

      OI Willian, tudo bem?
      Pontos de vista diferentes são sempre bem vindos, abrem precedentes para debates enriquecedores e nos fazem refletir sempre o outro lado da moeda.
      O crescimento vem acontecendo sim, isso é inegável mas os passos para a igualdade de gênero nos esportes são muito lentos, para ter uma ideia:
      – Em 1941 às mulheres não se permitia (Brasil) a prática de desportos incompatíveis com as “condições de sua natureza”, vigorando até aproximadamente a década de 70.
      – 1965 foi aprovada uma nova lei que determinava: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo (Bem mais específicaque a primeira)
      – As mulheres só passaram a ter direito de participar de todas as modalidades olímpicas em 2012.
      Porra Kida, chata pra caralho com esse blá blá blá uauhahuauh, mas te explico : ao meu ver, esses são alguns dos pontos importantes que precisamos avaliar. As datas acima são relativamente próximas e por todo este tempo o esporte masculino foi soberano e foi se desenvolvendo, então penso que os passos continuam lentos se compararmos.
      É importante entendermos também que não existe uma competição ou uma busca para anular o outro, mas sim a igualdade de oportunidades, não precisa ser um OU outro.
      A representatividade é importante pois colabora com o processo de construção de identidade pessoal, a mídia é a grande disseminadora de informação atingindo um grande número de pessoas e acaba criando um senso comum.Quando uma minoria é representada de forma plural, começa a compreender também o seu lugar no mundo e logo começa a alterar o senso comum errôneo que foi perpetuado por muito tempo, fazendo assim com que muita coisa mude para melhor.
      Concordo contigo que as pessoas precisam estar também qualificadas para desempenhar um papel, seja homem ou mulher. O ponto que levantei no texto justamente quis mostrar a diferença entre os sexos quando a situação é a mesma, que as cobranças são diferentes. (e não acho que seja só com a mulher que isso acontece, muitas vezes os homens são cobrados de gostar de esportes ditos de macho, não podem chorar pq homem não chora e por ai vai)
      Mas tb to longe de ser a dona da verdade, é só uma visão minha e é bom ouvir de uma maneira sensata uma opinião diferente
      Muito Obrigada pelo boa sorte e aguardo seus comentários nos próximos textos! bjs

  • Daniel Moraes

    Mandou bem Isa! Sucesso!

    • Isabella Kida

      Obrigada Dani, saudades dos tatames e de vocês!!!

  • Marcos Luca Valentim

    Sensacional, Kida! Sempre bom ler alguém falando sobre algo com tanta propriedade, autoridade e coerência. Parabéns pelo seu trabalho e, acima de tudo, por compartilhar seu posicionamento conosco.
    Obrigado.

    • Isabella Kida

      Obrigada Marcos! :)

  • Juliana Clorado

    Sensacional Isas! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

  • Carlos André

    Bem-vinda. Muito bom seu texto. Que mais homens comprem esse bom barulho que é tê-las atuando, devidamente reconhecidas, em todas as áreas deste esporte e de todos os esportes de luta.

    • Isabella Kida

      Amém! rs

  • Sergio Alves

    Parabéns Isabela pelo excelente trabalho….. Sucesso em sua nova jornada de trabalho!! Força…. Garra e Determinaçao!!!

  • Vinicius Maia

    Concordo com tudo, ainda mais com o fim do escanteio curto!! PQP. Ninguém merece kkk

    • Gabriel Carvalho

      Filha da puta cobra o lateral na área, zaga afasta pra linha de fundo e batem o escanteio curto.

      • Vinicius Maia

        Lateral na área é coisa de time que não sabe criar jogada pqp. Coisa mais escrota do mundo.
        Ver meu time jogar ta cada dia mais sofrido kkkk.

    • Isabella Kida

      UHuhauhauhuha puta coisa chata do caramba.

  • Anderson Cachapuz

    Até que enfim a Kida decidiu parar de vampetar e começar a escrever!!

    Eu sempre preferi não só as lutas entre mulheres, mas volei feminino, basquete feminino e tudo mais (menos futebol… não pelas mulheres, mas por achar que elas ainda precisam evoluir tecnicamente).
    Acho que as mulheres fazem praticamente tudo melhores que os homens! :D

    Tanto é que todos os TUFs femininos fiz questão de cobrir e me amarrei em todos!

    Seja bem vinda, Kida! Belo texto, parabéns!
    Viva as mulheres!

    • Isabella Kida

      UHuhahuauhauhahu Poxa, demorei mas fiz né!
      Muito Obrigada Cacha!