Lutadores discutem preocupação com segurança antes de UFC em Fortaleza

Por Thiago Kühl | 02/02/2019 15:03

Desde o início do mês de janeiro a cidade de Fortaleza tem passado por grandes problemas relacionados à segurança pública. Foram noticiados mais de 50 ataques à delegacias de polícia, ônibus, agências bancárias, dentre outros locais. Com a proximidade do UFC Fortaleza, chegou a se especular uma possível mudança do card para outro município e até seu cancelamento. Após garantias dos governos estadual e federal – que chegou a fazer intervenções com a Força Nacional na cidade – o UFC manteve a programação normal.

Durante a semana do evento, questionamos lutadores e técnicos sobre como viam a situação e as eventuais mudanças nas suas próprias programações, devido aos ataques que ocorreram nas semanas que antecipavam a fightweek. Dentre os entrevistados, haviam aqueles com preocupações, outros que se mantiveram com confiança no esquema de segurança do UFC e até mesmo quem desconhecesse a situação – principalmente por parte dos estrangeiros.

Os brasileiros Charles do Bronx e Raphael Assunção, chegaram a pensar em não trazer suas respectivas famílias para Fortaleza com receio de qualquer tipo de problema.

Charles do Bronx:

“A gente deixou para trazer a minha família só agora. Deixamos para comprar só em cima da semana. Acho que se o UFC realmente achasse que não seria o lugar certo para acontecer, não iria trazer a gente. Tenho uma filha de um ano e oito meses que é tudo para mim e fiquei com receio de trazer, mas parei e pensei. Na terça-feira eu cheguei e comprei as passagens. Se estivesse aquela loucura mesmo, o UFC não iria trazer a gente para cá. Minha família veio, está todo mundo aqui.”

Raphael Assunção:

“Isso foi algo decidido em cima da hora. Minha esposa veio com minha filha até Fortaleza e depois viajou para a cidade natal dos pais dela. Está bem tranquilo. A gente acompanha os jornais – nos Estados Unidos, onde eu moro – mas simplificando, quase que a gente cancela as passagens das meninas. Decidimos vir com cautela, cuidado, e tem tudo dado certo até agora. Elas estão na casa dos pais da minha esposa em outra cidade e voltam sábado. Infelizmente está acontecendo isso em Fortaleza, mas está tudo certo. Espero que melhore.”

Outros lutadores, como Sarah Frota e Renato Moicano, demonstraram preocupação maior com o restante da população da cidade, sabendo que o UFC – junto com as autoridades – garantiria segurança aos lutadores nas imediações do hotel e da arena.

Sarah Frota:

“Eu não fiquei muito preocupada com isso, foquei mais na luta. Violência – infelizmente no Brasil – a gente tem violência em qualquer lugar. Então eu sabia que para a gente a estrutura é muito foda. Eu fico muito mais preocupada com a população de Fortaleza que não tem essa estrutura, que não tem essa possibilidade de proteção. O que a gente espera é que os governantes tomem um pouco de vergonha na cara e comecem a cuidar melhor da população de Fortaleza que é atingida. A gente aqui não sofre nada, a gente só vê o noticiário e fica esperançoso para melhorar para eles.”

Renato Moicano:

“Como eu estava nos Estados Unidos, acabou que não acompanhei tanto. Às vezes, alguém vinha e me falava, principalmente os fãs. Muitos fãs me mandaram mensagem dizendo que tinham medo do card ser cancelado, mas em momento algum achei que seria, pois sabemos que o Brasil está em um momento de transição, com um novo governo, insatisfação da população. O que me parece aqui na cidade é uma coisa de crime, é mais de revolta. Estão queimando ônibus. Imaginei que isso fosse afetar a população, não os turistas aqui da praia. Cheguei preocupado, mas quando conversei com o pessoal aqui, me disseram que estava tranquilo. Quem sofre é a população. Conversando com as camareiras, o pessoal do hotel, eles dizem que está sendo muito ruim para quem mora nos grandes centros – onde os turistas não vão – que está sem condução, segurança. Os bandidos são espertos. Eles não vão mexer com turista porque se mexerem, a polícia vai entrar para resolver.”

Como o UFC não fez nenhum tipo de comunicação oficial aos lutadores, os estrangeiros acabaram não tomando ciência da situação. David Teymur e Lyman Good ficaram sabendo que havia algo de diferente acontecendo somente quando foram questionados pela reportagem do MMA Brasil, por exemplo. Justin Ledet, por outro lado, já tinha conhecimento da situação e disse ter ficado incomodado pelo UFC não ter avisado os lutadores.

Justin Ledet:

“Existem muitas preocupações. Honestamente, foi falta de profissionalismo do UFC não nos informar sobre estes problemas que estão acontecendo aqui em Fortaleza. E sinto que o UFC decidiu simplesmente nos deixar de fora desta situação. Com isso dito, estou aqui para lutar. Eles fizeram um bom esquema de segurança, então se eu pude vir ao Brasil, poderei fazer minha luta e voltar para casa.”

Enquanto isso, Demian Maia e Conan Silveira entenderam que a segurança cabia ao UFC e que dificilmente isso os afetaria. Demian, inclusive, externou que a maior preocupação deveria ser dos lutadores estrangeiros, por não estarem acostumados com a violência do Brasil.

Demian Maia:

“Na verdade, não tive medo, pois sou de São Paulo. A gente passou por esse tipo de coisa a vida inteira. Já tivemos esse tipo de ataque em São Paulo, então a gente está acostumado. O pessoal gringo vai se preocupar mais porque nunca viu isso na vida. É óbvio que é um negócio que precisamos tomar cuidado, mas o UFC é bem cuidadoso com isso, ao extremo até. Por ser uma empresa norte-americana, sempre botam muita segurança, muita gente para tomar conta. Família eu nunca trago mesmo, nunca trouxe e é uma coisa a menos para se preocupar. Basicamente, na semana da luta a gente acaba ficando muito em hotel, acaba não saindo muito por conta dos treinos, perda de peso, não temos tempo para fazer muitas outras coisas. Ficamos no hotel o tempo inteiro.”

Conan Silveira:

“Na verdade a segurança do atleta, como dos treinadores e do próprio evento, cabe ao evento, cabe ao UFC coordenar isso tudo. Preocupação a gente sempre fica, porém eu acredito que eles não trariam a gente para cá se não tivesse segurança, se não tivesse um esquema de segurança pronto, se algo fosse afetar o show. Então, na verdade, não é uma preocupação da gente.”

Por fim, Livinha Souza – ao ver os entornos do hotel tranquilos – atribuiu as preocupações com segurança muito mais a um sensacionalismo da própria imprensa, que estaria aumentando a situação.

Livinha Souza:

“Está tranquilo. A galera do UFC sempre proporciona uma segurança maravilhosa, trata a gente da melhor forma, a praia é tranquila. Pelo menos, a vizinhança é bem tranquila. Acho que a imprensa, principalmente a sensacionalista e a antipresidencialista, aumenta muito essas bostas, falam muita merda. Está bem tranquilo e não prevejo problemas, está tudo nos trinques.”

Desde a chegada da equipe do MMA Brasil em Fortaleza, é bastante óbvio o forte esquema de segurança que rodeia os principais pontos de interesse do evento na cidade. Quarta-feira, no aeroporto, foram avistadas diversas viaturas policiais e da própria Força Nacional. No entorno do hotel da organização do evento se repetiu a mesma situação, inclusive foram vistas algumas blitz policiais acontecendo na Avenida Beira Mar. A quantidade de seguranças particulares que circulavam na arena durante a pesagem cerimonial – e no hotel dos lutadores – também é muito maior que em eventos anteriores do UFC no Brasil.

O UFC Fortaleza será realizado no dia 02 de fevereiro no Centro de Formação Olímpica do Nordeste em Fortaleza, Ceará. Confira o card da edição:

UFC Fortaleza

Peso galo: Raphael Assunção vs. Marlon Moraes
Peso pena: José Aldo vs. Renato Moicano
Peso meio-médio: Demian Maia vs. Lyman Good
Peso leve: Charles do Bronx vs. David Teymur
Peso pesado: Justin Ledet vs. Johnny Walker
Peso palha: Livinha Souza vs. Sarah Frota

Peso médio: Markus Maluko vs. Anthony Hernandez
Peso mosca: Mara Romero Borella vs. Taila Santos
Peso meio-médio: Thiago Alves vs. Max Griffin
Peso pesado: Júnior Albini vs. Jairzinho Rozenstruik
Peso galo: Geraldo de Freitas vs. Felipe Cabocão
Peso galo: Ricardo Carcacinha vs. Said Nurmagomedov
Peso mosca: Magomed Bibulatov vs. Rogério Bontorin