Livro: Mike Tyson – A Verdade Nua e Crua

Em sua biografia, Mike Tyson fala dos seus demônios, família, religião, falência, Evander Holyfield e Desiree Washington. Uma ótima recomendação para os fãs de lutas, fãs de ótimas histórias de vidas e fãs de "Iron" Mike.

Pense em um boxeador! O primeiro que vier na sua cabeça! Rápido! Pensou?

Se você é brasileiro e não acompanha boxe, provavelmente pensou em Mike Tyson (mais ou menos uns 70% de chances) ou em Acelino “Popó” Freitas. E se você acompanha o boxe (“hardcoremente” ou não), deve também ter pensado em Mike Tyson. Eu devo ter acertado 50% dos palpites dos leitores. Saia por aí perguntando às pessoas qual o primeiro boxeador que vem à cabeça delas. Boa parte irá dizer Mike Tyson. Lembro que quando era criança, com meus 4 anos de idade, em 1998, eu tinha luvas de boxe de brinquedo e imaginava ser o Iron Mike.

"Iron" Mike Tyson é o boxeador mais lembrado pelas pessoas mesmo anos após sua aposentadoria

“Iron” Mike Tyson é o boxeador mais lembrado pelas pessoas mesmo anos após sua aposentadoria

Mike Tyson não é um dos dez melhores pesos pesados da história. Quiçá nem top 20. Mas Tyson é o boxeador mais famoso por algum motivos: seu incrível poder de nocaute, o recorde de campeão peso pesado mais jovem da história do boxe (que ainda não foi batido) e o boom da mídia.

Mas como foi o caminho do “Iron” Mike até o estrelato? A pergunta pode ser respondida através do livro e one-man show (uma espécie de stand-up biográfico) The Undisputed Truth, que em português virou Mike Tyson – A Verdade Nua e Crua. A autobiografia de Mike tem co-autoria do escritor Larry Sloman, que exerceu a mesma função na biografia de Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers, e Peter Criss, ex-baterista do KISS.

Mike Tyson nasceu quando sua mãe vivia um bom momento financeiro. O pequeno Mike morou em Bed-Stuy – o mesmo bairro de Chris Rock – até seus 10 anos de idade, quando o alcoolismo da matriarca levou a família à falência e eles tiveram que se mudar para Brownsville. Neste bairro, a personalidade violenta de Mike começou a ser moldada – e também sua fixação por corrida de pombos.

Mike Tyson quando criança. O sorriso esconde uma vida conturbada.

Mike Tyson quando criança. O sorriso esconde uma vida conturbada.

Antes de ler a biografia de Mike Tyson, eu achava que ele não era um cara malvado, um bandido, apenas cresceu no meio da maldade, que virou sua única referência, e que também era ingênuo. O mesmo acontece com milhões de jovens no mundo. Vivem uma única realidade e acham que assim é o mundo. Mike Tyson era um marginal. Marginal em relação ao mundo em que entrou após o seu título mundial, de absurda riqueza.

Foi em um dos reveses da vida que Iron Mike conheceu Cus d’Amato, treinador de boxe e empresário. D’Amato trabalhou com Floyd Patterson, que segurou o recorde de campeão peso pesado mais jovem da história até 22 de novembro de 1986, quando Mike conquistou o cinturão com 20 anos de idade, um a menos que Floyd. Tyson foi adotado por Cus e sua esposa Camille e largou os estudos. Com isso, o garoto teve tempo para se dedicar integralmente aos treinos e às lutas amadoras.

Muitos devem ter assistido às lutas de boxe de Mike, as lutas contra Evander Holyfield, contra James “Buster” Douglas e a luta contra o tribunal de Indianápolis. Sem dúvidas, a batalha mais difícil da carreira do lutador. O prefácio do livro é sobre a acusação de estupro (não é spoiler dizer que ele foi vitíma de uma armação) feita por Desiree Washington. A candidata a Miss América Negra acusou o lutador de tê-la estuprado no seu quarto do hotel. O caso atraiu todos os holofotes da mídia, pois Mike foi moldado na vida bandida e foi guiado por Cus d’Amato a ter uma personalidade forte como lutador, o que gerou seus trash talks e imagem de maníaco psicopata nos ringues, que era ajudada pelos nocautes violentos.

Mike-Tyson-a-verdade-nua-e-crua-livro

Como a maioria sabe, Mike Tyson ficou três anos na cadeia enquanto o mundo do boxe continuava sem ele. O que você talvez não saiba é como foi a vida dele lá dentro. Mesmo sem a prisão, esses três anos não fariam de Mike o maior peso pesado da história, mas talvez seus anos seguintes não fossem tão vergonhosos. Talvez Holyfield ainda tivesse sua orelha inteira.

Uma das partes mais emocionantes do livro se dá quando Mike fala de Exodus, sua filha que faleceu em 2009. A perda da garota transformou o pugilista. Só lendo para saber. Eu poderia contar todas as coisas que me maravilharam no livro, mas isso seria injusto com Mike e Larry, que fizeram um ótimo trabalho nesta biografia.

De Desiree Washington à participação de Mike Tyson na série de TV “How I Met Your Mother” (HIMYM), sendo Desiree a nota mínima e a participação a nota máxima, este livro merece duas participações em HIMYM. Após seu exemplar, você irá se segurar para não ler tudo em um só dia.

  • Saulo

    Eu tenho esse livro…INCRÍVEL.Parabéns pela resenha, Felipe.

    • Tyson é um dos maiores personagens do século XX independentemente da área de atuação.

  • Rafa Friall

    Vocês poderiam sugerir alguns livros sobre o mundo das lutas.

    • Esta é a intenção das críticas que fazemos aqui. Este foi o segundo livro, espero que a gente possa fazer mais.

  • Airton S

    Penso que a figura de Mike Tyson é tão fascinante porque sua vida é uma alegoria viva do quão alto e baixo a trajetória de um ser humano pode oscilar, servindo como um lembrete a todos nós de, não importa sua origem, os céus estão a nosso pleno alcance, mas igualmente suscetíveis a nos serem tirados, precipitando-nos às trevas. Tyson é a própria personificação do “Mito do Herói” (Monomito) esquematizado por Joseph Campbell: um problema (no caso do Iron Mike, inúmeros de ordem psicossocial) o tira do seu ambiente original; encontra um mentor; adentra o mundo mágico; obtém triunfos que lhe rendem aprendizado sobre as regras deste mundo que adentrou; sofre uma grave crise (prisão); enfrenta a morte; regresso catártico. Essa história se repete desde Gilgamesh na Mesopotâmia, passa por Jesus, Elvis etc e vai até, sei lá, o Neo em Matrix. Uma das últimas marcas que ficaram na minha memória quando comecei a acompanhar esportes de combate nos 90s foi sua melancólica luta contra o Lennox Lewis… Bom, tô com leitura pra caralho na fila, mas vou adquirir esse livro, valeu a dica.

    • Deu até vontade de chorar na luta dele contra o Lewis. De resto, muito maneiro seu comentário.

  • Wadson

    Terminei de ler este mês passado e fiquei impressionado com a história do cara. O mais legal do livro é o quanto o Tyson reconhece que foi escroto.

    • Verdade. E cai o mito que ele era um coitadinho fodido pela sociedade. O sujeito é um sociopata.