Por Rodrigo Rojas | 02/05/2020 19:59

Nosso esporte é marcado por grandes rivalidades. Não à toa, todos os principais eventos em vendas de pay-per-view da história do MMA foram capitaneados por pares de grandes rivais: Brock Lesnar vs. Frank Mir, Conor McGregor vs. Nate Diaz, Conor McGregor vs. Khabib Nurmagomedov, para citar as campeãs de vendas.

Pode-se dizer que a gênese do MMA como conhecemos hoje é uma grande rivalidade entre artes marciais: jiu-jítsu x luta livre, que se expandiu para confrontos com o muay thai. Por isso, hoje vamos relembrar algumas das rixas mais marcantes, desde conflitos entre dois lutadores e entre academias, até mesmo uma academia inteira contra apenas um lutador.

Vamos nessa?

Conor McGregor contra o mundo

Para não me estender por aqui, vou aglomerar as rivalidades criadas por Conor McGregor em apenas um item.

O irlandês, com seu estilo falastrão e marqueteiro, coleciona fãs e haters ao redor do mundo com a mesma facilidade. Como uma maneira de promover suas lutas e, de quebra, intimidar os adversários, McGregor provoca-os, xinga-os, faz piadas, ameaça-os, etc. com habilidade incomparável.

O grande diferencial do ex-campeão do UFC está na inteligência e criatividade nas provocações – vide seu monólogo para cima de Khabib Nurmagomedov, em que atacou o pai do russo, sua religião, seu empresário, sua esposa e até relembrando uma rivalidade histórica entre etnias do leste europeu.

Com esse estilo, o primeiro champ-champ do UFC conseguiu a proeza de vender 1.200.000 pacotes de pay-per-view contra o pouco midiático José Aldo, antes de tirar o brasileiro de seu próprio elemento quando chegaram às vias de fato dentro do octógono. A rivalidade com Aldo durou quase dois anos e contou com uma turnê mundial de mídia e uma conquista de cinturão interino contra Chad Mendes.

Mais recentemente, suas provocações contra o invicto Nurmagomedov renderam o recorde de vendas na história do esporte, com 2.400.000 de pacotes comercializados, contando com ataque contra um ônibus de atletas, prisão do irlandês, multas para ambos os lados e uma briga generalizada ainda dentro do octógono depois da luta mais assistida da história.

Contudo, sua rivalidade mais marcante foi contra Nate Diaz. A improvável luta com o bad boy de Stockton contou com uma providencial ajuda do americano na promoção. As provocações dos dois lados renderam um par de lutas, com uma vitória para cada, acumulando quase 3 milhões de pacotes vendidos.

Chael Sonnen contra Anderson Silva

Se McGregor levou a personalidade de falastrão a um patamar diferenciado, podemos dizer que Chael Sonnen construiu as bases do caminho que viria a ser percorrido pelo irlandês.

O americano, que nunca passou de um lutador nota 7, conquistou o feito de ser o único a dividir o octógono com três dos maiores de todos os tempos: Jon Jones, Fedor Emelianenko e Anderson Silva. Foi com este último a sua rivalidade mais marcante.

Por mais dominante que tenha sido, Anderson não costumava ser um grande vendedor de pay per views, até que apareceu Chael Sonnen, que recebeu a primeira chance pelo título depois de uma trinca de vitórias na rasa categoria dos médios da segunda metade da década de 2000. Naquele duelo, Sonnen espancou o imbatível “Spider” por quase cinco rounds, até que foi finalizado no apagar das luzes.

Anderson Silva vira a luta de modo memorável contra Chael Sonnen no UFC 117

As provocações antes, durante e, principalmente, depois da primeira luta foram a faísca de uma das rivalidades mais marcantes da história do esporte, que criou muitos fãs no MMA brasileiro, incluindo este que vos fala. Buscando se promover e conquistar a oportunidade de uma revanche, Chael foi além. Ele xingou o Brasil, falou que daria um tapa na bunda da mulher de Silva e, mais celebremente, vociferou: “Anderson Silva, you absolutely suck” depois de vencer Brian Stann. O “Spider” tentou não entrar na pilha, mas Chael foi tão efusivo em suas provocações que angariou legiões de odiadores querendo vê-lo perder. O desfecho da rivalidade – a revanche – vendeu quase um milhão de pacotes, a segunda maior marca de Anderson, sendo batida apenas pela revanche contra Chris Weidman.

Chuck Liddell contra Tito Ortiz

Tito Ortiz teve sua carreira marcada por grandes rivalidades. O “Bad Boy de Huntigton Beach” ainda é conhecido por sua rixa com os irmãos Ken e Frank Shamrock e com o super campeão Randy Couture. Porém, a mais marcante rivalidade de Ortiz foi contra o ex-amigo Chuck Liddell.

Os dois chegaram a treinar juntos e tinham o mesmo empresário: o atual presidente do UFC, Dana White. A rixa começou enquanto Ortiz era o campeão e Chuck subia rapidamente no ranking, até que tornou-se o desafiante indiscutível ao trono do rival. Então, Tito se recusou a enfrentá-lo, alegando que eram amigos. O que se sucedeu foi uma série de provações de Liddell, que afirmava que Tito corria dele pois sempre saía perdendo quando treinavam juntos.

A luta só ocorreu depois que Ortiz perdeu o cinturão para Couture. Ficou provado o que Chuck dizia: o ex-campeão foi dominado e acabou nocauteado no segundo round. Dois anos depois, após Tito completar sua trilogia contra Ken Shamrock e com Liddell como campeão, os dois protagonizaram uma revanche que, na época, bateu recorde de pay-per-view, beirando o milhão de vendas em uma época em que os maiores eventos não passavam de 400 ou 500 mil. A rivalidade rendeu até uma lamentável terceira luta em 2018, com os dois decrépitos e com Chuck aposentado. Dessa vez, Ortiz teve sua vingança contra um rival totalmente podre.

BTT contra Chute Boxe

Mudando um pouco o tom para citar uma rivalidade mais ampla, entre duas academias, eu não poderia esquecer da grande rixa entre as equipes Brazilian Top Team e Chute Boxe na época do PRIDE. Aqui temos um caso que remonta às origens, aos anos 80 e 90, ainda antes do UFC, quando as rivalidades eram alimentadas pelos praticantes querendo defender suas artes marciais.

Mais antiga, a Chute Boxe, fundada por Rudimar Fedrigo, em Curitiba, apostava em um estilo baseado no muay thai extremamente agressivo. A academia contava com lutadores como José “Pelé” Landi, Rafael Cordeiro e os irmãos Murilo Ninja e Maurício Shogun, mas tinha como seu maior representante o “Cachorro Louco” Wanderlei Silva, também famoso por sua rivalidade com “Rampage” Jackson.

Do outro lado, a BTT, fundada no Rio de Janeiro por Murilo Bustamante, Ricardo Libório e Zé Mario Sperry tinha como base o jiu-jítsu. Além do ex-campeão do UFC Bustamante, a BTT era representada por Vitor Belfort, Paulão Filho, os irmãos Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro e Ricardo Arona.

Wanderlei Silva e Ricardo Arona personificaram a rivalidade entre Chute Boxe e BTT no PRIDE (Foto: Tomokazu Tazawa/WireImage)

Wanderlei Silva e Ricardo Arona personificaram a rivalidade entre Chute Boxe e BTT no PRIDE (Foto: Tomokazu Tazawa/WireImage)

Apesar de as academias terem se enfrentado diversas vezes ao longo dos anos, o ápice da rivalidade aconteceu no PRIDE Final Conflict 2005. No evento, o grande favorito e então campeão Wanderlei Silva, da Chute Boxe, foi derrotado na segunda luta da noite por Ricardo Arona, da BTT, em confronto válido pela semifinal do torneio dos médios (equivalente aos meios-pesados nas Regras Unificadas do MMA). Então, Arona pegou o sucessor de Wanderlei na final do torneio, o jovem Shogun Rua, que havia nocauteado Alistair Overeem na outra chave. Shogun acabou nocauteando Arona brutalmente no primeiro round, fechando este capítulo da rivalidade com a equipe curitibana saindo por cima.

Dominick Cruz contra Team Alpha Male

Sim, um lutador contra uma equipe inteira.

Fundada em 2004 por Urijah Faber, o Team Alpha Male sempre foi conhecido por reunir lutadores de ponta das categorias mais leves do esporte, catapultada pela fama de Faber, que foi o precursor das divisões mais leves. O estilo da equipe, que combina uma base forte de wrestling com muita movimentação na luta em pé e fortes estrangulamentos – especialmente a guilhotina – atraiu muitos baixinhos.

A academia californiana encontrou um rival no sujeito que veio a se tornar o rei dos galos, Dominick Cruz. Tudo começou quando Cruz, ainda muito cru, lutou pelo título dos penas do WEC contra Faber – era a estreia de Dominick na organização, enquanto Urijah estava em sua quarta defesa. Cruz foi menosprezado antes do duelo e, no cage, acabou finalizado com facilidade.

Ao longo do tempo, Dominick desenvolveu seu jogo de movimentação em pé brilhante, que se provou a criptonita para os lutadores da Alpha Male. Sua primeira vítima foi Joseph Benavidez, que foi derrotado duas vezes, sendo a segunda na primeira defesa do cinturão dos galos conquistado por Cruz.

Depois que o UFC incorporou o WEC, vimos o capítulo mais marcante dessa história: a revanche entre Faber e Cruz, dessa vez vencida por Dominick. Depois de uma série de lesões, Cruz teve seu cinturão tomado e, em seu lugar, TJ Dillashaw tornou-se campeão dos galos – o primeiro Alpha Male a conseguir o feito no UFC. Em seu retorno, Cruz desafiou o título de TJ e, mais uma vez, venceu um representante da equipe rival. Porém, na última etapa da rixa, vimos uma reviravolta inesperada, quando o jovem Cody Garbrandt, outro pupilo de Faber, tomou o cinturão de Cruz em uma luta memorável, em 2016, vingando seus companheiros de treino e fechando esse capítulo anotando um ponto para sua equipe.

E aí, o que achou da nossa lista, caro leitor? Não tem como citar todas as rivalidades do nosso esporte, então tivemos que deixar de lado algumas como Lesnar vs. Mir, Bisping vs. Henderson, GSP vs. Hughes e Jones vs. Cormier e da Alpha Male contra a Nova União.

Nos conte aqui nos comentários quais são as rivalidades mais marcantes para você e siga o debate!