Por Alexandre Matos | 23/09/2015

A maior organização do MMA mundial volta ao berço das artes marciais no próximo sábado, com a oitava edição do UFC no Japão, a quarta sob o comando da Zuffa.

Desde a primeira viagem ao outro lado do planeta, mesmo antes da solidificação do PRIDE como líder de mercado, o UFC viveu grandes momentos. Disputas de cinturão importantes ocorreram lá, astros deram início a grandes carreiras e um ídolo teve seu último momento histórico.

Vou listar aqui, em ordem cronológica, seis dos principais momentos vividos pelo UFC no Japão. Três deles aconteceram logo na primeira vez.

Ultimate Japan, 21/12/1997: Três ícones conquistando títulos

O primeiro evento realizado pelo UFC no Japão já seria histórico por isso. Também foi a primeira vez que Mike Goldberg assumiu a narração da transmissão americana e que a organização usou músicas individuais de entrada para os lutadores. Porém, quando três dos mais icônicos lutadores da história conquistam títulos na mesma noite, é um momento para ficar na memória.

Para atrair a atenção da torcida local, o UFC precisava de um nome de impacto. O matchmaker John Perretti convocou então Kazushi Sakuraba, uma das estrelas do pro wrestling local. O lutador, que se tornaria o maior ídolo da história do MMA japonês, disputou um torneio de quatro homens em uma noite com muita confusão. Na estreia, Sakuraba estava entrando no cacete contra Marcos “Conan” Silveira quando mergulhou num single-leg. “Big” John McCarthy entendeu que o brasileiro havia nocauteado o nipônico e encerrou a luta. Depois de muitos protestos, o árbitro decretou a luta sem resultado (no contest). Na outra semifinal, David “Tank” Abbott venceu, mas quebrou a mão. Na impossibilidade de o americano prosseguir, o UFC refez Sakuraba-Conan, desta vez valendo o título do torneio. Foi a primeira vitória de Sakuraba no MMA.

Frank Shamrock exibe o cinturão do UFC

Frank Shamrock exibe o cinturão do UFC

Outro nome histórico do MMA estreou no UFC naquela noite. Ao contrário de Sakuraba, Frank Shamrock já era um nome estabelecido no esporte, com mais de 20 lutas disputadas no Pancrase. Por este motivo ele já chegou disputando cinturão. E chegou causando. Em apenas 16 segundos, Frank finalizou o campeão olímpico de wrestling Kevin Jackson e se tornou o primeiro campeão dos meios-pesados da história do UFC (a categoria se chamava na época de peso médio, mas o limite era de 93kg). Shamrock defendeu o cinturão quatro vezes, um recorde que só foi batido por Tito Ortiz, em 2003, exatamente a última vítima de Frank. Após as cinco vitórias, Shamrock abandonou o UFC dizendo que o chamassem de volta quando tivessem algum desafio de verdade. Ele nunca mais voltou ao octógono.

A tríade de mitos do Ultimate Japan fez a luta principal. Randy Couture conquistou um cinturão do UFC pela primeira vez naquele dia ao destronar Maurice Smith por decisão. Este foi o primeiro passo de uma trajetória que coroou o primeiro campeão em duas categorias na história do UFC e um dos mais importantes nomes da história do esporte.

UFC 29, 16/12/2000: O recorde de Shamrock é igualado pela “Sensação Croata”

Frank Shamrock se manteve como recordista de defesas consecutivas de cinturão por três anos. Porém, um lutador igualou sua marca já no ano seguinte.

O UFC 29 marcou a última visita do octógono à Terra do Sol Nascente até a Zuffa voltar em 2012. O evento, que foi liderado pela primeira das cinco defesas consecutivas de Tito Ortiz, teve como luta coprincipal a quarta vez que Pat Miletich colocou seu título em jogo. A “Sensação Croata” que já havia batido Jorge Patino “Macaco” e André Pederneiras em outras defesas, finalizou o ex-pro wrestler Kenichi Yamamoto no segundo round com a única guilhotina que lhe rendeu vitória na carreira – Miletich era um ás das finalizações, especialista em mata-leão, mas nunca tinha pego uma guilhotina nas 18 finalizações que anotou na carreira.

Pat Miletich anotou sua quarta defesa consecutiva no UFC 29, no Japão (Foto: Susumu Nagao)

Pat Miletich anotou sua quarta defesa consecutiva no UFC 29, no Japão (Foto: Susumu Nagao)

Miletich perdeu o cinturão e a chance de quebrar o recorde de Shamrock na luta seguinte, quando foi finalizado pelo canadense Carlos Newton. Pat fez mais duas lutas no UFC e se aposentou em 2002, retornando quatro anos depois para dois combates na extinta IFL. Miletich foi introduzido no Hall da Fama do UFC em julho do ano passado.

UFC 144, 26/02/2012: Frankie Edgar é deposto do trono

Ninguém levou fé que o pequenino Frankie Edgar desbancou BJ Penn, o melhor peso leve de todos os tempos. Passados dois anos da grande zebra, com uma vitória dominante na revanche contra BJ e depois de duas batalhas de proporções bíblicas com Gray Maynard, Frankie parecia um campeão indestrutível. Até que um forasteiro apareceu em seu caminho.

Ben Henderson chegou ao UFC com a imagem desgastada. Ele perdera o cinturão do WEC para Anthony Pettis por causa do Showtime Kick. Marcado na história como antagonista de um dos momentos mais espetaculares que o MMA já viu, Henderson foi comendo pelas beiradas e, depois de três boas vitórias, teve sua chance contra Edgar. Azarão pagando 2.2 nas casas de apostas, o “Smooth” usou sua vantagem física e uma sólida dieta de chutes baixos para quebrar o ritmo do campeão e vencer na decisão dos juízes.

Ben Henderson desbancou Frankie Edgar no Japão (Foto: Al Bello/Zuffa LLC)

Ben Henderson desbancou Frankie Edgar no Japão (Foto: Al Bello/Zuffa LLC)

O UFC 144 foi a primeira vez da Zuffa no Japão e primeiro evento da organização no país desde o UFC 29. Naquela mesma noite de 2012, Pettis teria conquistado seu posto de desafiante, mas novamente uma revanche adiou os planos – antes, a trilogia de Edgar com Maynard jogou Pettis para frente e agora foi a vez da revanche entre Henderson e Edgar.

UFC On FUEL TV 8, 03/03/2013: O canto do cisne do maior ídolo do Japão

Alguns parágrafos acima eu cunhei que Sakuraba foi o maior ídolo do MMA japonês. Mas provavelmente ele não foi o maior dentre os que fizeram fama no país. Esta posição cabe a Wanderlei Silva, lutador que mais venceu lutas e anotou nocautes na história do PRIDE.

A última luta da carreira de Wand, pelo menos enquanto o imbrólio com a Comissão Atlética de Nevada não acaba, aconteceu no país que o consagrou. Na gangorra de resultados, o curitibano foi convocado para enfrentar o heroi de guerra americano Brian Stann. Eles trocaram porradas por selvagens nove minutos e oito segundos, com direito a knockdowns de lado a lado, e o “Cachorro Louco” voltou a inflamar a Saitama Super Arena depois de quase sete anos.

A pancadaria rendeu o bônus de luta da noite a ambos e o de nocaute ao brasileiro, este dividido com Mark Hunt, que quebrou o maxilar de Stefan Struve. O evento marcou ainda a maior audiência da história do canal americano FUEL TV, hoje FOX Sports 2.

Wanderlei Silva e Brian Stann protagonizaram pancadaria épica na Saitama Super Arena (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Wanderlei Silva e Brian Stann protagonizaram pancadaria épica na Saitama Super Arena (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)