Por Alexandre Matos | 25/11/2018 16:24

Aproveitando a brecha que o UFC deu no calendário com um evento exibido na manhã de sábado para os Estados Unidos, o promotor e ex-superastro do boxe Oscar de la Hoya voltou ao MMA, agora com um evento próprio. A Golden Boy Promotions montou um card ontem liderado pelos quarentões Chuck Liddell (quase cinquentão, na verdade) e Tito Ortiz, num evento denominado Liddell vs. Ortiz 3.

A ideia do “Golden Boy” não foi juntar gente no Forum de Inglewood, antiga casa do Los Angeles Lakers, para assistir aos tapes das duas históricas lutas protagonizadas pelo “Iceman” e o “Bad Boy de Huntington Beach” na década passada. A ideia de De La Hoya foi fazê-los lutar de novo. Não tinha como dar certo.

Saudosismo esportivo é um troço complicado. Eu vivo pegando DVDs ou vídeos no YouTube para relembrar momentos do Zico com a camisa do Flamengo. Isso vale também para o Magic Johnson puxando os contra-ataques no Showtime do Lakers dos anos 80; para as campanhas do Pete Sampras em Wimbledon nos 90s; para o Alexander Popov enfileirando os 50 e 100 metros em Barcelona-92. No entanto, eu não pagaria para assistir ao Galinho de Quintino entrar em campo aos 65 anos, gordo e sem joelho. Também não quero ver Sampras contra Andre Agassi, a rivalidade mais legal da história do tênis, com ambos se movimentando como bonecões de Olinda, em 2018. Prefiro relembrá-los em seus auges do que lamentar os efeitos nocivos do tempo.

No MMA (ou em qualquer esporte de combate) é pior ainda. Dana White disse uma vez que este é um esporte para jovens. E ele está certo. Por mais que a medicina e a educação física tenham evoluído a ponto de estender carreiras esportivas profissionais, há um limite. Mesmo os que estendem a carreira se aposentam passando vergonha em sua maioria. Liddell mesmo é um exemplo. Se ele já estava passando vergonha em 2009-2010, imagine oito anos depois de total inatividade.

Liddell vs. Ortiz 3: a luta principal

O espetáculo de ontem foi dantesco – nem tinha como ser diferente. A atuação de Liddell foi tão vergonhosa que a de Ortiz meio que passou batida pelo referencial. Porém, Tito também tem condição alguma depois de tantas batalhas, tantas cirurgias. Como bem disse o Matheus Costa, no nosso grupo de colaboradores no WhatsApp, é até um milagre vê-lo tentar fazer movimentação de cabeça, mesmo que todo duro, depois de tantas intervenções cirúrgicas. Teve uma hora que Ortiz deu um chute alto que eu pensei que tinha dado problema no vídeo e entrado em super slow motion sem querer. Mas não, era somente Tito a dois quadros por segundo.

O ponto aqui é Chuck Liddell. Ele justificou o apelido: parecia congelado. Todo duro, sem a menor noção de distância e jogando socos como se fosse um amador. Um rascunho de um dos maiores contragolpeadores que o MMA já viu. Quem quer ver uma merda dessa? Pior, quem quer ver uma merda dessa de alguém que, no auge, foi um dos maiores de todos os tempos? Isso pra mim é masoquismo, não só do ex-lutador, mas também do fã.

E que fã é este? Só aqui na nossa equipe, que reúne algumas das melhores mentes do MMA no Brasil, vários nunca assistiram ao Liddell ao vivo. João Gabriel Gelli, Rafael Oreiro, Idonaldo Filho, Matheus Costa, Gabriel Carvalho (sdds) entendem mais de MMA que, sei lá, pelo menos uns 99% da minha geração, que viu desde o começo. Nenhum deles viu o Liddell lutar ao vivo. E todos eles viram o Liddell lutar. Como? Indo atrás de vídeos, de reprises, do acervo do Combate Play, de torrents, de links amigos do Fight Pass. Foram assistir na fonte, quando Chuck era um lutador de verdade, não a múmia que entrou no hexágono ontem.

Quem viu Liddell e Ortiz no auge, quem viu as duas lutas originais, não são uma parcela significativa entre os fãs de MMA. Eu já disse várias vezes que o MMA, se dependesse da minha geração, já teria falido há tempos. Quem faz a roda do esporte girar não viu esses caras ao vivo e não tem a sanha saudosista de vê-los, porque sabem que o espetáculo seria dantesco, como foi. Para vocês terem uma ideia, a Golden Boy Promotions começou comercializando o pay-per-view para este circo dos horrores a 40 dólares o pacote. Terminou a 11,90 e duvido que tenha vendido 80 mil, até mesmo porque o resto do card era de baixo nível inclusive para reunir audiência na TV aberta.

Eu tinha um pensamento sobre lutas de veteranos aposentados. Sempre disse que pararia para vê-los, não importando a idade ou a condição. Não tenho mais coragem de falar isso. Eles seguem livres para fazer o que quiserem de suas vidas. Podem se submeter a tomar soco na cara e ter o cérebro chacoalhando no crânio com quase 50 anos. Problema é deles, são adultos independentes. Mas eu não vou mais ficar assistindo a essas coisas. É um espetáculo feio, pode dar merda um dia e só vai me deixar triste de comprovar os efeitos nocivos do tempo num esporte que já é suficientemente nocivo ao corpo humano.

Alguém ainda quer ver a Liga das Lendas que o Vitor Belfort um dia propôs?

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.