Por Alexandre Matos | 12/03/2017 05:07

Nenhuma surpresa na luta principal do UFC Fight Night 106. No Centro de Formação Olímpica, em Fortaleza, diante de 14.069 torcedores, Kelvin Gastelum sequer precisou explorar o leque ofensivo para nocautear Vitor Belfort no primeiro round.

Há de se lembrar a frase que diz que a última coisa que abandona um homem é seu soco. No começo do combate, Belfort tentou assustar o jovem americano, mas em momento algum Gastelum pareceu abalado com os golpes do veterano, nem mesmo quando Vitor tentou surpreender com chute alto. Muito mais rápido e mais forte, Kelvin precisou apenas do boxe para paulatinamente desmantelar o ex-campeão.

Numa tentativa de avanço, Belfort foi pego por um direto de esquerda de encontro e foi a knockdown pela primeira vez na noite. Mesmo depois de um bom trabalho de ground and pound de Gastelum, Vitor se levantou, mas não voltou mais para o combate. Gastelum parecia um bully lançando soco após soco quando duas combinações de jab-direto mandaram Vitor para a lona de modo definitivo na marca de 3:52 de luta.

Visivelmente emocionado em sua entrevista no octógono, Belfort disse que ainda tem mais uma luta no contrato e que gostaria de fazê-la no Rio de Janeiro. Com o UFC 212 marcado para 3 de junho, seria um justo momento para o astro se aposentar.

Por outro lado, Gastelum, que puxou um “Parabéns pra você” em português junto com a torcida, para sua mãe, pediu para enfrentar Anderson Silva. Ainda nutro esperança de ver uma revanche entre o “Spider” e o “Fenômeno”, e o UFC 212 seria uma excelente oportunidade. Já Kelvin deveria olhar para a parte de cima da tabela e mirar desafios que lhe agreguem mais do que nomes ao cartel.

Maurício Shogun nocauteia Gian Villante com flashes dos velhos tempos

O Maurício Shogun implacável dos tempos de PRIDE nunca mais vai aparecer, mas alguns vestígios ainda podem ser vistos por aí. O público de Fortaleza presenciou lapsos do passado quando o curitibano nocauteou o americano Gian Villante.

Nem sempre o combate foi fácil para Shogun, que lutou de sunga branca, como ficou famoso nos ringues japoneses. Villante, de mentalidade totalmente ofensiva, fez o que dele se esperava e trocou socos com o rival como se buscasse arrancar a cabeça de Shogun fora. Depois de bater e ser atingido, Maurício ajustou a movimentação de cabeça no fim da primeira etapa, compensando a movimentação mais lenta do que antigamente.

O boxe defensivo de Shogun caiu de nível no segundo assalto, o que permitiu que os jabs de Villante entrassem sem pedir licença. O round ficou animado pela ausência de senso defensivo dos dois lados, um por ignorar esse fundamento (Villante) e outro por parecer fisicamente pouco capaz (Rua). Pois então, no terceiro, Shogun relembrou seus ataques executados em movimentação, balançou Villante com dois socos potentes, um no queixo e outro na linha de cintura, acertou um chute alto e encerrou a contenda com uma barragem de socos que mandaram americano a nocaute aos 59 segundos do terceiro round.

Edson Barboza escapa de dificuldade com nocaute sensacional

Se tem alguém que entende de nocautes espetaculares, este é Edson Barboza. O friburguense, que não vinha em uma noite tranquila, mandou Beneil Dariush em colapso ao tablado.

O iraniano não respeitou a maior fluência do brasileiro no muay thai e, ao contrário do que o senso comum apontava, evitou usar a luta agarrada. Dariush procurou se posicionar num ponto médio que dificultava os chutes de Barboza. Obrigado a boxear, Edson teve problemas com a agressividade do oponente, mostrando a antiga dificuldade de proteger o queixo.

O segundo assalto parecia que iria pelo mesmo caminho. Porém, uma diferença se mostrou fundamental: Edson percebeu que, ao jogar um jab, Dariush dava um passo para frente, fosse para pressionar no boxe ou para entrar numa queda. Quando optou pela segunda saída, Dariush se abaixou e foi vitimado por uma joelhada voadora brutal que explodiu contra seu queixo. Beneil desabou estático no chão, fazendo com que o árbitro mergulhasse para evitar desnecessários conferes no nocauteado lutador.

Ray Borg tem sólida atuação na vitória sobre Jussier Formiga

Ainda carregando a marca de prospecto, Ray Borg precisava de uma vitória contra um oponente bem classificado para se firmar como realidade. Número três do ranking do peso mosca, Jussier Formiga era a chance do americano.

A tática de Borg ficou clara logo na primeira etapa. Com uma sólida defesa de quedas, ele forçou Jussier a lutar de pé, ainda que o potiguar tenha conseguido alguns momentos de pressão no clinch. O curioso neste desdobramento foi que Formiga, que não é conhecido pela capacidade no striking, aceitou este confronto sem medo. Perdeu os dois primeiros rounds por curta margem, mas ganhou respeito.

A situação melhorou para Formiga quando ele finalmente colocou a luta agarrada para jogo no terceiro assalto. O representante da Kimura Nova União conseguiu montar, depois pegou as costas e conseguiu fechar os cadeados no corpo de Borg. Parecia que o mata-leão era questão de tempo, mas o americano se defendeu e ainda conseguiu reverter a posição, girando no próprio eixo para acabar por cima de Formiga. Dali, Borg foi implacável no ground and pound para virar o round e garantir a vitória. Os juízes Fabio Alves, Sal D’Amato e Tony Weeks marcaram 29-28 para Borg. O MMA Brasil concedeu os três rounds para o jovem americano.

Bethe Correia e Marion Reneau ficam num empate controverso

Em duelo movimentado e com reviravoltas, Bethe Correia e Marion Reneau chegam a empate que teve sabor de sobrevivência para a brasileira.

Bethe foi agressiva nos dois primeiros assaltos, especialmente no dirty boxing no clinch. Porém, deixou brechas para os contragolpes de Reneau. Em dois assaltos bastante equilibrados, o MMA Brasil marcou um para cada lado.

O cenário mudou radicalmente no terceiro round. Um chute alto de Reneau foi a senha para uma sessão de espancamento. Em sinal de alerta, Correia tentou uma queda, mas a rival defendeu o ataque e acabou por cima. A situação da paraibana só fez piorar, levando socos do crucifixo, da montada, da posição de cem-quilos. Com o rosto muito inchado, Bethe mostrou bravura pouco comum e sobreviveu até a última buzina. O 10-8 estava claro, mas os dois primeiros assaltos podiam revelar alguma surpresa.

O MMA Brasil e o juiz Marco Aurelio Borges pontuaram a luta em 29-27 Reneau, mas os outros dois juízes, Guilherme Bravo e Tony Weeks, marcaram os dois primeiros rounds para a brasileira e definiram a luta em 28-28, rendendo o empate majoritário. Na hora que Joe Martinez anunciou o resultado, a árbitra Camila Albuquerque pareceu não ter entendido, assim como Bethe, que comemorou o empate com uma dancinha no octógono.

Alex Cowboy domina e finaliza Tim Means

O primeiro duelo entre os meios-médios Alex Cowboy e Tim Means terminou sem resultado, mas não foi totalmente inútil, pelo menos para o brasileiro, que entendeu o caminho para a revanche.

Cowboy trouxe a lição de usar o clinch e a luta agarrada para diminuir a agressividade de Means. O entrerriense usou a tática muito bem, aproveitando para aplicar diversas quedas, com direito até a rascunho de german suplex. O americano ainda conseguiu acabar por cima em uma das viagens ao solo, mas não infligiu maiores danos no rival.

O mesmo plano seguiu no assalto seguinte, mas desta vez Cowboy não perdeu a viagem. Quando conseguiu levar a luta para o chão, o lutador da TFT pegou as costas de Means e atacou com um mata-leão. Means batucou na marca de 2:38.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.