Kajan Johnson fala sobre carreira, lutas e Ali Act: “Objetivo é que lutadores sejam milionários”

Por Patrick Pereira | 24/07/2018 15:08

Um dos destaques do card preliminar do UFC On FOX 30 é o peso leve canadense Kajan Johnson. Ele enfrentará o russo Islam Makhachev no evento que acontecerá no sábado, em Calgary, no Canadá.

Com 34 anos de idade, Kajan vive a melhor fase pelo UFC com quatro vitórias em sequência, e um triunfo sobre o russo no sábado pode aproximar o canadense do top 15 da categoria. Em entrevista ao MMA Brasil, realizada em Montreal, Johnson contou sobre sua carreira e o combate do próximo sábado.

MMA Brasil: Kajan, atualmente você é um dos lutadores ativos do UFC com a carreira mais duradoura, tendo feito o seu primeiro combate profissional em 2002. Gostaria de começar perguntando sobre o início da sua trajetória aqui no Canadá e como foi a sua ascensão até o UFC.

“Bom, no início a minha carreira foi bem turbulenta, muitos altos e baixos. Eu comecei a treinar e a lutar em Prince George, British Columbia (BC), um lugar onde ninguém sabia nada sobre MMA na época. Naquela época o próprio conceito de artes marciais mistas era novo. No fim das contas, éramos um monte de caras duros que gostavam de luta. Aos poucos, comecei a me aventurar em diferentes artes marciais, treinar com diferentes parceiros de treino, diferentes treinadores e construir o meu estilo de luta. Em meus primeiros anos lutando, vivi um período onde não conseguia emplacar uma boa série de vitórias, até o momento em que venci cinco lutas seguidas e tive a oportunidade de disputar o cinturão do King of the Cage contra o Rory MacDonald. Infelizmente saí derrotado, mas essa luta foi o catalisador para que eu começasse a trabalhar na parte mental da luta e não apenas a parte física. Depois disso as coisas melhoraram, me mudei para Montreal em busca de melhores condições de treino, porém sofri algumas contusões que me atrapalharam muito. No período da minha contusão mais grave, fiquei parado por quase três anos até entrar no TUF Nations em 2014, o que deu início à minha carreira no UFC”.

MMA Brasil: E quais foram as principais diferenças que você sentiu entre o cenário local e o grande palco do UFC?

“Então, ambos têm pontos positivos e negativos. No cenário local, às vezes é fácil de conseguir lutas, como aconteceu nos meus primeiros anos de carreira, mas ao mesmo tempo é difícil se manter financeiramente porque esses eventos menores pagam muito pouco. A parte mais difícil de ser um atleta de MMA é isso, se sustentar financeiramente. Quando eu fui pro UFC achei que todos os meus problemas tinham sido resolvidos e que iria ficar rico (risos), mas esse não foi o caso. Em 2015, já no UFC, acabei machucando o meu ombro e precisei sair de Montreal porque não estava sendo capaz de manter o meu padrão de vida aqui, não estava sendo capaz de fazer dinheiro durante o período da lesão. Voltei para BC e abri a Tristar Vancouver, que é onde eu passo a maior parte do tempo agora e só saio para fazer os camps aqui em Montreal. Então, é como eu te falei, as coisas não mudaram tanto assim. Atualmente eu dirijo um negócio, comando uma equipe e dou aulas na academia, ao mesmo tempo em que preciso me preocupar em ter o melhor desempenho possível contra os melhores lutadores do mundo! Isso não costuma ser o ideal porque acaba dividindo muito o foco do atleta, mas felizmente eu consigo tirar muita força e motivação desses momentos. Concluindo, tive boas experiências desde que entrei no UFC, mas ainda é muito difícil ser um artista marcial hoje em dia. No entanto, acredito que tudo isso vai mudar em pouco tempo com o Project Spearhead.”

MMA Brasil: Você comentou sobre o aspecto mental da luta. Poderia comentar como isso influenciou na sua carreira?

“Bom, nas minhas primeiras lutas sob contrato com o UFC, sofri duas derrotas por nocaute em seguida. Em uma delas, quebrei a minha mandíbula. Esses resultados negativos foram muito difíceis de superar, mas eu decidi voltar para a minha terra, tentar colocar as coisas no lugar e entender que eu precisava encontrar um jeito de dar a volta por cima. Eu sentia que o Firas (Zahabi, head coach da Tristar Gym) não era capaz de me dar a resposta, meus técnicos em BC não eram capazes de me dar a resposta, então eu precisei refletir muito para buscar a melhor forma de aplicar os meus atributos físicos e técnicos no cage. Eu criei um estilo próprio de luta após esse período, estudei muito e comecei a testar isso nos meus treinos de sparring aqui na Tristar e nas minhas lutas. Depois disso, consegui emplacar uma sequência de quatro vitórias e sinto que essa próxima luta vai me dar a oportunidade de mostrar que estou aqui para valer e todos da divisão devem me respeitar”.

MMA Brasil: Poderia nos falar mais a respeito da mudança dos seus camps para Montreal e a estrutura que a Tristar proporcionou para que você pudesse evoluir como atleta?

“O Firas criou um ambiente muito bom para o nosso desenvolvimento aqui na Tristar. Ele nos permite tentar e trabalhar coisas novas na academia, todo o meu novo estilo de luta foi criado porque ele me deu liberdade e confiou que eu sabia o que estava fazendo. Isso não é algo que você costuma ver em um treinador, muitos são muito restritivos e tentam controlar os atletas para fazer só o que eles acreditam ser o certo. Eu sinto que estou em uma universidade aqui, onde estamos todos escrevendo os nossos trabalhos de conclusão de curso e temos um excelente orientador para nos auxiliar”.

MMA Brasil: Você é o atual vice-presidente do Project Spearhead, uma associação que luta pelos direitos dos lutadores de MMA. No final de 2016, foi criada a Associação de Atletas de Artes Marciais Mistas (The MMAAA), grupo que também tentou reunir esforços em prol de melhores recompensas financeiras para os atletas. O que é o Project Spearhead e quais são os seus objetivos?

“O nosso objetivo é que, dentro de 10 anos, artistas marciais sejam milionários. Não apenas um ou dois, mas a maioria dos artistas marciais. É o que acontece com os lutadores de boxe hoje em dia e o motivo disso acontecer é o Ali Act, que só não nos inclui porque diz “boxeadores” em seu regulamento e não “atletas de esportes de combate”. O MMA nem era considerado um esporte quando a lei foi criada. O Ali Act será introduzido ao MMA em breve, também temos um processo antitruste em aberto que vai analisar como o UFC conduz os seus negócios e como eles pagam os lutadores. Nós já fomos em Washington DC lutar pelos nossos direitos e agora faltam poucas etapas para conseguir a assinatura final, apesar de todo o lobby que o UFC está fazendo contra o nosso movimento. Atualmente, nossa meta é associar 51% do plantel do UFC e isso tem sido muito difícil porque todo mundo está com medo do que pode acontecer, especialmente após o caso da Leslie Smith alguns meses atrás. Até pouco tempo, a meta era ter 30% de associados para ter o Comitê Nacional de Relações Trabalhistas dos Estados Unidos (NLRB) investigando as relações trabalhistas do UFC, mas depois do que aconteceu com a Leslie, um ato ilegal, eles já começaram a investigar. Após o parecer do NLRB e o alcance da meta de associados, eles terão que nos ouvir, queiram eles ou não”.

MMA Brasil: Você enfrentará o daguestani Islam Makhachev na sua próxima luta, atleta que vem de uma sequência de três vitórias após uma derrota por nocaute para o brasileiro Adriano Martins, que você venceu em seu penúltimo combate. Como você está construindo a sua estratégia para esta luta, levando em consideração as últimas atuações do seu adversário?

“Então, acredito que o Adriano foi inteligente ao capitalizar em uma fraqueza que o Islam tem. Após analisar as suas últimas lutas, vi que essa fraqueza ainda existe. Apesar de estar lutando mais cautelosamente agora, sem aquela sensação de ser invencível que alguns lutadores têm quando ainda não tiveram a primeira derrota, a falha técnica ainda se mostra presente e eu quero explorá-la. De qualquer forma, estou me preparando para diferentes situações. Irei explorar tudo o que ele não faz bem e certamente manterei distância de tudo o que ele faz bem, na medida do possível”.

MMA Brasil: A divisão de peso em que você atua é atualmente a mais embolada da organização. Como você enxerga o seu lugar nos rankings e o topo da divisão nesse momento?

“Olha, acredito que o cinturão irá rodar bastante nos próximos anos. Basta olhar para o top 30 da divisão, tem tantos lutadores talentosos que muita gente não dá o devido valor para eles. O Islam, o Adriano Martins, o Oli (Olivier Aubin-Mercier) são excelentes lutadores. Muitas pessoas não entendem a essência das artes marciais mistas, eles só querem saber de quem está provocando mais ou quem o UFC tem colocado os holofotes. Eu acredito que tenho a habilidade para vencer todos esses caras, eu tenho armas que nenhum deles tem. No final das contas, estilos fazem lutas. Acho que o Khabib tem o estilo para vencer o Alvarez e o Poirier, enquanto o Ferguson tem o estilo para vencer o Khabib e eu tenho o estilo para vencer o Ferguson. O Conor também pode voltar a qualquer momento, não sabemos. Ele é outro que eu adoraria lutar, seria uma luta fácil para mim. Ele é um sniper com aquela mão direita, mas se eu mantiver a distância necessária isso não será um problema e eu sei o que devo fazer para evitá-la. Enfim, concluindo, acho que não veremos um reinado nessa categoria tão cedo”.

MMA Brasil: Qual será o seu próximo passo após a luta do dia 28?

“Eu adoraria entrar no top 15 e seguir na minha corrida rumo ao cinturão, mas acho bem difícil de acontecer. Normalmente você precisa vencer algum integrante do top 15 para entrar e acho que as minhas críticas contra o UFC não vão me ajudar a disputar o cinturão tão cedo. Tenho que entrar metendo o pé na porta, para eles não terem outra opção que não seja me dar um lutador ranqueado. Se tivesse que chutar um número, diria que estou a quatro vitórias de uma disputa pelo cinturão”.