Por Alexandre Matos | 30/07/2017 05:06

O excelente card se materializou num evento sensacional. No fim, Jon Jones completou seu retorno de modo triunfal. Ele encontrou muitos problemas contra Daniel Cormier, mas tomou de volta o cinturão com um nocaute no terceiro round da luta principal do UFC 214.

As contas entre os rivais foram acertadas desde o começo. Jones saiu em disparada e Cormier aceitou a troca de socos no dirty boxing. Superado o ímpeto inicial, o então campeão passou a caçar o desafiante e acertou os golpes mais pesados – um deles mandou longe o protetor bucal do desafiante. “Bones”, porém, imprimiu maior volume com chutes no joelho, joelhadas na linha de cintura e conseguiu inclusive derrubar, mas levou uma bela raspagem na sequência. O assalto foi bastante parelho, cabendo vantagem para qualquer lado. O MMA Brasil ficou com 10-9 a favor de Jones.

A segunda etapa foi mais clara a favor de Cormier, que mostrou ótimo trabalho com os punhos, acertando diversos socos contundentes. O campeão chegou a derrubar, mas não manteve o rival no solo. Por outro lado, Jon atacava a linha de cintura, explorando uma conhecida vulnerabilidade de Daniel.

Momentos diversos no round três. Jones parecia ter recuperado o senso de distância, mas logo Cormier acertou a movimentação, passou a criar ângulos e voltou à dianteira com ganchos e cruzados carimbando o rosto do desafiante. Foi quando Jones mostrou porque é um gênio. Ele fintou um chute baixo que fez Cormier envergar o tronco para frente a fim de bloquear o golpe. Porém, Jones mudou a trajetória e mandou a canela contra a cabeça do campeão. Abalado, Cormier recuou e bateu contra a grade. Ainda assustado, Daniel tentou sair de perto de Jonny, que avançava com fúria, e acabou trançando as pernas e caindo. Jones o acompanhou e largou uma selvagem bateria de socos e cotoveladas. O árbitro “Big” John McCarthy deixou Cormier levar uns cinco socos já apagado e interrompeu a contenda na marca de 3:01 do terceiro round.

O resultado colocou Jon Jones de volta ao topo da divisão dos meios-pesados e solidificou sua posição como o melhor lutador de todos os tempos. O nocaute ainda lhe rendeu um dos bônus de desempenho da noite.

Tyron Woodley mantém cinturão contra Demian Maia em luta previsível

A falta de diversidade ofensiva um dia custaria caro a Demian Maia. Foi acontecer logo no maior momento de sua carreira. A tentativa de tomar o cinturão de Tyron Woodley parou na intransponível defesa de quedas do americano, que conduziu as ações sem sustos.

O paulista tentou incríveis 25 quedas ao redor dos cinco assaltos e falhou em todas as tentativas. Sem a explosão de anos antes e incapaz de se aproximar para tentar derrubar do clinch, Demian viu seus mergulhos nas pernas pararem em sprawls do campeão.

Além de defender as entradas de quedas sem maiores dificuldades, Woodley pontuava com socos na longa distância que foram fechando os olhos de Maia desde o primeiro momento. O campeão em momento algum se preocupou em acelerar as ações e fez apenas o mínimo necessário para vencer um oponente que não apresentou outro recurso.

Houve quem pontuasse o primeiro assalto para Maia por ter pressionado na tentativa de derrubar. Como não conseguiu a queda, a pressão pode ter sido interpretada como agressividade, que só tem peso na pontuação se o domínio efetivo no striking ou no grappling fossem iguais. Como Woodley acertou mais socos e não cedeu uma queda, não houve igualdade no striking e o campeão levou a primeira etapa por 10-9, na visão do MMA Brasil.

Os 20 minutos restantes foram absolutamente iguais, com Demian errando as quedas e recebendo socos em pouco volume. O público reclamou nos dois assaltos finais gritando “Boring!” (chato, tedioso). No fim, dois juízes marcaram 49-46 e o outro anotou o mesmo 50-45 que o MMA Brasil pontuou, tudo a favor de Tyron Woodley.

Cris Cyborg enterra Tonya Evinger e conquista o sonhado cinturão no UFC

Demorou, mas finalmente chegou o dia que Cris Cyborg sonhava há tanto tempo. Ela não teve trabalho para nocautear a resistente Tonya Evinger no terceiro assalto e levar para casa o cinturão do peso pena, que estava vago desde que Germaine de Randamie abdicou dele.

O primeiro jab de Cyborg fez Evinger dobrar os joelhos. Naquele momento acabou qualquer esperança de zebra. O máximo de surpresa que a americana conseguiu foi resistir por dois rounds e meio. Cris manteve-se firme na estratégia de controlar a distância e acabar com a base da americana com chutes baixos. Incapaz de tentar uma queda, Tonya virou saco de pancadas.

A resistência da campeã do peso galo do Invicta durou até 1:56 do terceiro round, quando o árbitro Mike Beltran interrompeu a luta depois de uma saraivada de joelhadas e socos de Cyborg contra a grade.

Robbie Lawler vence guerra contra Donald Cerrone

Para surpresa de ninguém, Robbie Lawler e Donald Cerrone travaram uma batalha intensa. Melhor para o ex-campeão, que voltou a vencer depois de um ano parado.

Lawler não perdeu um segundo para justificar o apelido de “Implacável”. Ele já imprimiu pressão na curta distância mandando fogo pesado com ambos os punhos, cotovelos e com joelhadas. Parecia que mais uma vez o “Cowboy” sucumbiria a um oponente pressionador, mas Cerrone surpreendeu. Ele conseguiu derrubar e cair por cima da meia guarda borboleta de Lawler no centro do octógono. Cerrone passou a guarda, chegou à norte-sul, mas deu espaço para Lawler se levantar. Apesar da pressão no chão, Robbie saiu na frente com 10-9.

Cerrone melhorou muito na segunda etapa. A movimentação ficou mais consistente, o que levou a um melhor controle da distância. Lawler tentava se defender com uma guarda fechada enquanto procurava brechas para os contragolpes, mas Cerrone manteve-se firme até o final do assalto e empatou a luta.

A situação ficou ruim para o “Cowboy” logo no começo do último assalto quando ele levou um chute na cabeça e engoliu uma joelhada quando tentou derrubar. No entanto, Cerrone voltou a equilibrar as ações e os lutadores trocaram violentos golpes no curso do round. Por uma margem pequena, mas clara, Lawler levou a parcial por 10-9 e a luta por 29-28, mesmo placar anotado por todos os juízes oficiais.

Volkan Oezdemir aumenta rastro de destruição com nocaute sobre Jimi Manuwa

O meio-pesado Volkan Oezdemir segue iluminado no UFC. Neste sábado, ele disputou sua terceira luta na organização, todas contra integrantes do top 10. Desta vez, o suíço nocauteou Jimi Manuwa em pouco mais de 40 segundos.

Foi Manuwa quem tomou a iniciativa de travar a luta no clinch. A decisão lhe custou caro. Oezdemir acertou um violento gancho na têmpora. O nigeriano naturalizado britânico balançou e recebeu mais dois cruzados poderosos. Oezdemir seguiu avançando e empurrou o oponente para o solo. Jimi bateu a cabeça no chão e recebeu mais um soco no ground and pound antes de apagar.

Sem parar de surpreender, Oezdemir provavelmente está atrás apenas de Alexander Gustafsson na disputa pelo posto de desafiante da divisão. Ele ganhou o outro bônus de desempenho da noite.

Preliminares do UFC 214

Vários momentos sensacionais se deram nas lutas preliminares do UFC 214. Na principal delas, Ricardo Lamas mostrou que ainda é um porteiro rigoroso da elite do peso pena. Contra Jason Knight, o ex-desafiante precisou defender uma chave de joelho no primeiro minuto. Após este momento, Lamas pisou no acelerador e espancou o prospecto até Mike Beltran parar na marca de 4:34 de luta.

Antes deles, Aljamain Sterling conseguiu a maior vitória de sua carreira. Mostrando sua enorme habilidade na luta agarrada, o americano furou a até então impenetrável defesa de quedas de Renan Barão. O potiguar começou bem, mas caiu muito de rendimento com o passar da luta. Sterling dominou inteiramente o segundo round com uma queda e trabalho implacável no ground and pound e nas transições, garantindo o 10-8. No terceiro, Aljo foi melhor até no striking, finalmente relembrando os tempos passados em que enchia os olhos com golpes criativos e potentes. Os três juízes concederam a vitória a Sterling, um por 29-27 (mesmo placar do MMA Brasil), um por 29-28 e o terceiro por 30-26.

A melhor luta do evento foi travada entre Brian Ortega e Renato Moicano. O americano começou melhor e deixou o nariz do brasileiro sangrando. Moicano conseguiu se recuperar, fez os ajustes necessários na distância e passou a acertar um maior número de golpes, principalmente nos contra-ataques, além de anotar uma queda providencial no segundo round. No terceiro, porém, Carneiro tentou derrubar e acabou dentro de uma guilhotina. Ortega apertou o estrangulamento e fez o brasiliense batucar na marca de 2:59.

Nos demais combates, o estreante Calvin Kattar conseguiu uma boa vitória diante de Andre Fili. Kattar misturou quedas com trabalho de jab-direto para vencer com um triplo 30-27. Antes, a russa Alexandra Albu venceu Kailin Curran; Jarred Brooks estreou no UFC vencendo o ex-TUF 24 Eric Shelton e Drew Dober anotou um violento nocaute sobre Josh Burkman.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.