Jon Jones enfrenta Anthony Smith no UFC 235

Por Gustavo Lima | 08/01/2019 23:12

De acordo com uma declaração de Dana White ao site TMZ, assim como a confirmação por diversas fontes na imprensa especializada de MMA, Jon Jones está encaminhado para fazer a primeira defesa de título em seu novo reinado no meio-pesado contra Anthony Smith, no que seria o duelo principal do UFC 235.

O citado evento deve acontecer na T-Mobile Arena, em Las Vegas, no próximo dia 2 de março. Isso implica que Jones deverá acertar suas pendências junto à Comissão Atlética de Nevada (NSAC) – referente ao teste positivo para um metabólito de turinabol (anabolizante), encontrado em um exame datado do último dia 9 de dezembro. O resultado controverso mencionado culminou na suspensão da licença de Bones para lutar em Nevada, razão pela qual o UFC 232 acabou sendo movido para California com menos de 10 dias de antecedência.

Anthony Smith (31-13), por sua vez, foi uma das grandes surpresas na divisão dos meios-pesados no ano de 2018. Após protagonizar, e perder, um duelo eletrizante contra Thiago Marreta no mês de fevereiro pela categoria dos médios, Smith optou subir para a categoria até 92 quilos, trucidando os lendários Rashad Evans e Maurício Shogun em menos de 2 minutos combinados. O teste de fogo viria no duelo seguinte, ocasião em que o “Lionheart” fora aprovado com louvor ao finalizar o ex-desafiante Volkan Oezdemir, no UFN 138, para se colocar entre os grandes nomes da divisão em pouco menos de 5 meses após sua estreia.

Já Jon Jones (23-1, 1 NC), como sabemos, recuperou o título dos meios-pesados há menos de 10 dias, quando bateu o seu grande rival Alexander Gustafsson por finalização no terceiro round. Espantando as últimas dúvidas sobre alguma hipotética “ferrugem”, que poderia atrapalhá-lo, Jones mostrou um wrestling impecável, aliando técnica e força para fazer o sueco – bom grappler para os padrões do MMA – parecer um amador ao ser colocado com as costas no chão.

A rapidez com que este combate foi fechado corrobora com a estranheza que a primeira análise deste casamento provoca. É impossível ignorar a diferença abissal de qualidade técnica existente entre Jones, hoje tido por muitos como o melhor lutador a competir no MMA, e Smith, que até ano passado era um peso médio mediano cujo maior nome no cartel tratava-se um decrépito Hector Lombard. Veterano de Strikeforce, Bellator e atualmente em sua segunda passagem na companhia do UFC, o desafiante texano de 30 anos está prestes a fazer sua quadragésima quinta luta, credenciais não parecem ter causar muito impacto quando o colocamos frente a um oponente do atual campeão

Na última sexta-feira (4), Jones postou uma foto em sua conta do instagram assistindo a uma luta de Anthony Smith com a legenda: “Há muito a ser estudado. Isso será divertido”. Parecia impossível acreditar de fato que o UFC casaria esta luta, mesmo com o desafiante proposto sendo indubitavelmente o maior merecedor da chance na categoria atualmente (o que não é muito difícil, vide o estado pós-apocalíptico em que se encontra o meio-pesado).

O casamento é tão surreal, que o próprio Anthony Smith mostrou suas dúvidas a respeito deste duelo e de quais as reais intenções de Jones e do UFC. Em entrevista ao MMAJunkie, as palavras do (até o momento) desafiante, foram: “Mesmo sendo o grande idiota que é, ele [Jon] é muito inteligente. Então eu imagino que ao postar sobre mim e insinuar uma luta, é uma dessas duas coisas: ou ele está tentando procurar uma outra luta por mais dinheiro ou ele está tentando me encurralar.”

Em conversa com os amigos da redação hoje cedo, debatemos se essa não seria talvez a disputa de cinturão com maior disparidade técnica da história do UFC (retomando inclusive a improvável ascensão de Derrick Lewis ao posto de desafiante em outra terra de ninguém que é o peso pesado). Enquanto a resposta para esse questionamento é um bocado subjetiva, essa análise por si só levanta a diferença de chances e a ausência de competitividade que cercam essa luta. Smith não é nenhum barangão e a irregularidade do início da carreira não deu sinais de retorno desde a grande sequência de vitórias que o levou de volta a maior organização do mundo, mas é surreal imaginar um cenário no qual ela possa sair do octógono com o cinturão.

O provável desafiante é um striker agressivo e de mãos relativamente pesadas, mas que age muitas vezes de maneira imprudente e larga buracos grosseiros em seu sistema defensivo. Nunca tendo demonstrado algum tipo de veia estratégica contra adversários mais complexos, é muito difícil acreditar que em algum de seus fundamentos, o mesmo apresente perigo ao atual campeão.

Jones, por sua vez, possui 20 centímetros a mais de envergadura e não teria problemas pra manter Smith longe se quiser boxear na distância. O desafiante não tem velocidade ou jogo de pernas, necessários para tornar a situação minimamente arriscada para “Bones”. Dificilmente “Lionheart” conseguiria se aproximar do campeão sem engolir alguma cotovelada venenosa ou sem se embolar no clinch letal de JJ, fisicamente muito mais forte. Se falarmos puramente de wrestling, a disparidade soa ainda maior, fazendo parecer que Jones só aceitaria trocar pancadas com Anthony se quisesse um sparring de luxo, ou alguns minutos a mais de highlights para os videos  do UFC. Smith nem ao menos é um nocauteador temido ou possui cartas na manga pra jogar com as costas no chão.

Como se não fosse o bastante, enquanto o campeão não costuma demonstrar demasiado cansaço ou desgaste que afete tão drasticamente seu rendimento durante uma luta, Smith não é o lutador com o maior tanque de combustível do mundo. No terceiro e derradeiro round da luta contra Oezdemir, Anthony – que NUNCA fez uma luta que durasse mais de 15 minutos em sua carreira – já apontava sinais de desgaste intenso antes de finalizar o oponente.

Estaria Jon Jones meramente sedento pra voltar a lutar e recuperar o tempo perdido? É só um pagamento fácil? Quem sabe, uma vitrine – como foi a luta de boxe entre Canelo Alvarez vs. Chavez Jr., com o intuito de preparar o público para um grande anúncio na entrevista pós-luta?

Todos esses questionamentos e mais um punhado deles podem ser feitos graças ao simples fato do UFC ter casado o campeão com o lutador que é inegavelmente o contender de direito após a derrota recente de Alexander Gustafsson. A genialidade do Jones transforma o trivial em absurdo, visto que os desafios disponíveis em 205 libras já parecem fáceis demais.

A essa altura, a estreia de Jon Jones no peso pesado parece mera questão de tempo.