Por Priscila Coellen | 30/07/2012 15:07

Arbitragem – Tempo de Reflexão

O terceiro dia de competições do judô em Londres prometia ser mais um dia histórico para o esporte nacional, já que eram grandes as chances da carioca Rafaela Silva, 4ª no ranking mundial e 3ª no ranking olímpico da categoria até 52 quilos, e do santista Bruno Mendonça, considerado uma grata surpresa da categoria até 73 quilos.

A judoca de apenas 20 anos, que foi descoberta e lapidada no projeto social Instituto Reação, do também judoca Flavio Canto, começou muito bem sua caminhada em busca da medalha contra a alemã Miryam Roper. Rafaela impôs seu jogo e não respeitou a experiência da alemã de 30 anos, vencendo a luta por dois yukos. Tudo parecia conspirar a favor da brasileira, pois na outra chave a número três do ranking mundial, a portuguesa Telma Monteiro, foi eliminada na sua primeira luta.

A segunda luta de Rafaela foi contra húngara Hedvig Karakas, que teve muita dificuldade para se defender dos ataques da brasileira. Rafaela dominava a luta com certa facilidade quando, aos 2min51s, aplicou um kata-otoshi e conseguiu um wazari. Imediatamente após uma sinalização dos árbitros laterais e da mesa técnica, a pontuação foi retirada e o árbitro aplicou um hasoku-make, desclassificando a atleta.

Rafaela Silva foi eliminada por Hedvig Karakas por causa de um golpe ilegal

Para que possamos ser justos com o que aconteceu, vale a pena esclarecer que desde o dia 1º de janeiro de 2010 a Federação Internacional de Judô (FIJ) criou novas regras de arbitragem a fim de diminuir as catadas de perna, preservar os princípios do judô e evitar apenas o uso da força em detrimento da técnica. Desde então, todas as catadas de perna de forma DIRETA estão proibidas, exceto o Ko-Uchi-Makikomi. Se o atleta usar alguma outra técnica para desequilibrar ou derrubar adversário e, na sequência, completar com uma catada, o golpe é considerado legal.

O que causou muita discussão por parte de vários atletas e comentaristas de judô foi o fato de alguns entenderem que, quando a brasileira puxou a manga da húngara, houve um desequilibro e o kata-otoshi foi realizado para complementar o golpe inicial (combinação de técnicas). Ou seja, a catada não teria sido de forma direta. Confesso que já vi a luta algumas vezes e a linha que separa o proibido do permitido é muito tênue. Na dúvida, acho que o mais sensato seja que as coisas se resolvam dentro do tatame e não fora dele.

Não podemos deixar de lembrar que todos os atletas de judô estão cientes das proibições e punições que as novas regras impõem, e que não vale à pena correr o risco de ser desclassificado com a execução de uma técnica ilegal. Essas regras serão validas até 31 de dezembro de 2012. Após essa data, a FIJ se reunirá para decidir se as mesmas continuarão valendo ou se necessitarão de alguma adequação.

Como se não bastasse toda a confusão da desclassificação da brasileira Rafaela Silva, que deixou o tatame aos prantos e inconformada, ainda tivemos um segundo hasoku-make (desclassificação) na disputa da medalha de ouro entre a japonesa Kaori Matsumoto e a romena Corina Caprioriu. Dessa vez, a luta já estava no Golden Score quando Caprioriu aplicou um golpe por trás parecido com um osoto-gari por dentro das pernas, colocando em risco o joelho da japonesa. Sem contestar e com muito fair play, Corina Caprioriu reconheceu seu erro e ficou com a medalha de prata.

O representante masculino do dia foi Bruno Mendonça. Com seu estilo muito técnico, fez a primeira luta contra Fred Yannick Uwase, de Ruanda, e conseguiu a vitória por ippon com um belíssimo estrangulamento aos 53 segundos de luta.

A segunda luta foi contra Dex Elmont, da Holanda, que usou a estratégia do anti-jogo para parar o brasileiro. O holandês passou a luta toda segurando primeiro no quimono do brasileiro e fazendo entrada de golpes sem nenhuma efetividade, apenas para não ser punido. Bruno Mendonça perdeu a luta por dois yukos e acabou de vez com a esperança brasileira de mais uma medalha.

RESULTADO FINAL DO TERCEIRO DIA DE COMPETIÇÕES

Categoria até 73 quilos (Masculino)

1º Mansur Isaev – RÚSSIA
2º Riki Nakaya – JAPÃO
3º Ugo Legrand – FRANÇA
3º Nyam Ochir–Sainjargal – MONGÓLIA

Categoria até 52 quilos (Feminino)

1ª Kaori Matsumoto – JAPÃO
2ª Corina Caprioriu – ROMÊNIA
3ª Marti Mallory – ESTADOS UNIDOS
3ª Automne Pavia – FRANÇA

Agora é levantar mais uma vez a cabeça e torcer por um dia melhor com Mariana Silva e Leandro Guilheiro.

Faixa-preta de judô, professora de Educação Física, especialista em gestão de esportes e autora do livro "Judô, o Caminho da Suavidade".