“Isso não funciona no MMA!” Será?

Se só existem três maneiras de socar - e o mesmo vale para os chutes -, como fazer para surpreender o adversário no MMA usando técnicas de striking? Como Lyoto Machida e Anthony Pettis, dentre outros, quebraram paradigmas?

Por Bruno Cabrera

Quantas vezes a gente já não escutou a frase do título? O cara de uma determinada arte marcial executa um golpe mais plástico, completamente não ortodoxo, e já se escuta o comentário: “Isso aí não funciona no MMA”.

O MMA é um esporte em evolução constante. A maneira que se lutava há 10 anos não é a mesma que se luta hoje em dia. E ainda bem que as coisas vão mudando, essa dinâmica faz o esporte ser mais apaixonante. Os especialistas em luta agarrada estão trazendo posições novas quase que diariamente, adaptando o jogo para um possivel contragolpe ou utilizando a grade. E quando um lutador tenta um novo ataque de perna ou de braço, soltam a pérola.

Eu gosto de comparar o grappling e o striking com duas brincadeiras de criança. O grappling é o jogo de perguntas e respostas: “Você conhece o Mário?” Quem não sabia a resposta era zoado pelos amigos; os mais malandros já vinham com a resposta: “Mudou de horário, agora só pega otário”. Isso até o dia que alguem inventou a tréplica: “Mudou de profissão, tá pegando adivinhão”. E por aí vai. Assim era criada a “malandragem da rua” na minha saudosa infância na Tijuca.

O striking, por sua vez, é como um jogo de “pique-pega”, “polícia e ladrão”. Sempre havia aquele moleque que quebrava para um lado, sacodia para o outro, fingia que ia, mas não ia; enfim, escapava do “inescapável” e salvava o time.

O striking não te dá espaços para criar nada novo. Só existem três maneiras de socar (traçando uma linha reta, traçando uma curva em plano horizontal, ou curva em plano vertical). O mesmo vale para os chutes. Aí você tem variações: com salto, sem salto, com uso dos joelhos, canelas ou cotovelos, aumentando o número de possibilidades, mas que não chega a, sei lá, 50 possibilidades. O que vai fazer diferença é no quanto você faz o adversário acreditar que vai fazer uma coisa e acontece outra. É a sacodida do menino no pique, que fazia todos os outros caírem no chão.

No entanto, como disse anteriormente, o MMA é um esporte novo. Quando dizem que algo não funciona, simplesmente porque não funciona para uma outra modalidade de luta, cria-se um paradigma que se quebra quando Lyoto Machida acertou o Randy Couture com um “Karate Kid Kick”, ou quando o Anthony Pettis levantou voo com o “Showtime Kick”, ou quando por diversas vezes vimos meia-luas de compasso (um movimento clássico da capoeira) estalando no MMA.

Há de se lembrar que qualquer técnica deve ser treinada e repetida inúmeras vezes para aperfeiçoá-la e, é claro, saber o timing de usá-la é importantíssimo, mas antes de dizer “isso não funciona no MMA”, lembre-se que, no meio do pique, o nosso amigo poderia ter parado de correr e, entre uma ginga e outra, perguntar em alto e bom som: “Você conhece o Loxa?”

Bruno Cabrera é faixa-preta segundo dan de caratê Shotokan, duas vezes campeão pan-americano e vice-campeão mundial, luva de prata de savate, faixa-roxa de jiu-jítsu, apaixonado por kendo.

  • Marcos Henrique Lira

    Alexandre fazendo uma contagem rápida. A maioria dos campeões ou ex campeões do ufc. Eram graplers ou strikers?

    • Juan

      Pergunta polêmica hein Marcos, haha. De uns cinco anos pra cá está complicado classificar uns lutadores em grappler/striker,

      • Patrick Silva

        Analisando hoje, o berço (arte de origem) de quase todos é no grappling: Werdun, Cormier (jones), Weidman, Lawler, R. dos Anjos, Aldo, Dillashaw (Cruz) e D. Johnson, + a Ronda. De fora só a Joanna que vem do Thay… Mas óbvio que eles evoluíram horrores na trocação, alguns até migraram o estilo de luta, poré, como já dito anteriormente, acredito ser mais efetivo, aprender a trocar em nível absurdo em pouco tempo que aprender jogo de chão na mesma circunstância.

        • Foi isso que o Bruno disse no texto, sobre a maior facilidade de evoluir no striking quando você já tem uma forte base de grappling.

      • Isso. De 5 anos pra cá só vira campeão do UFC quem é muito bom nas duas áreas.

    • Cara, hoje em dia só é campeão quem domina as duas áreas. A maioria esmagadora dos campeões do UFC atualmente têm origem na luta agarrada, mas vários deles nem mais atuam assim como base, nem mesmo o Werdum. Até o Cormier saiu na mão nas duas das últimas três lutas dele.

  • Kadu Rampazzo

    Belo texto.

  • Marcos E

    É verdade. Acho essa uma das características mais apaixonantes do MMA e espero que isso nunca mude. Pega um Lyoto e compara com o José Aldo. São dois excelentes strikers, mas de escolas completamente diferentes. Estão no MMA, mas lutam de maneiras totalmente distintas. Um cara que manda para o chão como o Demiam Maia é diferente da Ronda Rousey. O perfil dos lutadores são desenvolvidos de acordo com seus biotipos, de acordo com suas formações de base e também em como evoluem para um esporte de técnicas mistas. Um cara muito bom no chão pode dar foco na luta em pé e depois quase não usar mais o recurso no solo. Os caras aproveitam seus tipos físicos para explorar uma técnica inusitada. Como o Jon Jones, que viu que pode dar cotoveladas como quem dá jabs. Fez o Lyoto dormir em pé. O Conor McGregor que explora chutes frontais no corpo, chutes rodados, socos na linha de cintura que quase ninguém consegue usar da mesma forma porque não têm a mesma envergadura e velocidade. Tomara que esse esporte não pare de mudar e tomara que atletas de diferentes modalidades de lutas continuem surpreendendo.

  • David Oliveira

    Rapaz, e eu quase caiu na pegadinha do Loxa.
    Belo texto, bela estreia como colunista, Bruno!

  • Pedro Souza

    Que Loxa?….kkkkkk belo texto Brunão

  • Deivisson Teixeira

    “Mudou de profissão, tá pegando adivinhão”. rapaz, ri pra caralho, parabéns cara, post foda.

  • Luiz Henrique

    Excelente texto!!!

  • kg

    Ótimo texto!!!!

  • Bruno Cabrera

    Valeu galera! Espero que tenham gostado do texto! Vamos tentar manter essa pegada e se tiver alguma coisa que a gente possa debater junto aí!!! Espero poder contribuir de alguma forma com meus devaneios e alucinações pra galera tentar enxergar outside de box

    • A ideia é essa. Com o tempo, os próprios leitores vão sugerindo temas para suas colunas.

  • Lero

    Sabem de alguém (Por favor não mencionar o Roy Nelson) que seja um mestre de Shaolin Kung-Fu ou aplique coisas do Kung Fu no MMA?

    • Malk Suruhito

      Lero, pensei que morando ai ele fosse mais famoso nestas bandas que por aqui.
      Yi Long
      https://www.youtube.com/watch?v=W05GodStTd8

    • Malk Suruhito

      Cara, agora só to achando os videos dele de K1, mas já vi de MMa
      https://www.youtube.com/watch?v=WVy14QsIqDs

      • Lero

        Valeu, vou pesquisar

        • Beto Magnun

          O Adrian Pang tem como base wushu. Pode ver que a postura dele não é muito ortodoxa. https://www.youtube.com/watch?v=T_w1NkQ9FFo

          • Willian Matos

            Postura muito estática, não funciona contra atletas TOP.

    • Tinha um do TUF China (não me pergunte quem era, aí já é demais). Tem alguns do sanshou, que não é exatamente kung fu. Acho que a popularização do MMA na China (se um dia acontecer) vai mudar esse cenário.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Eu observo que hoje o MMA tem tido muito mais técnicas não ortodoxas do que antigamente. No Pride onde valia tiro de meta e pisão voador, acredito que isso tornava as lutas menos técnicas e acomodava o pessoal nos golpes mais básicos.
    O MMA evoluiu e junto com ele igualmente os lutadores. Não tínhamos na era PRIDE lutadores tão elusivos e técnicos como Anderson e Lyoto. O próprio ringue também modificava a movimentação na luta.
    E realmente parece ser mais simples se tornar melhor no striking do que no grapling. A curva de aprendizado acaba sendo maior, embora tenhamos casos como o do Demian que por mais que tenha treinado striking, ainda é sofrível nessa parte.

    • É isso, essa parada que você falou faz parte da evolução técnica do MMA. E acho que ainda estamos engatinhando neste processo.

  • marinho

    Nao entendi a analogia