Por Alexandre Matos | 01/02/2017 23:29

A criação de seu Hall da Fama próprio foi uma iniciativa do UFC elogiada para relembrar e valorizar o passado da organização que moldou o MMA na forma que conhecemos. Porém, não havia praticamente nenhum critério até que, em 2015, alguns foram definidos, dando uma dimensão mais séria à honraria.

Apesar de ter melhorado, o hall do UFC ainda patina, a começar pelo fato de, ignorando todas as iniciativas semelhantes em outros esportes, ignorar o restante do MMA que não passou pelas asas da Zuffa e/ou WME-IMG. Por reconhecer a importância da medida do UFC e saber que nosso esporte vai além do octógono, resolvemos criar o Hall da Fama MMA Brasil, uma ideia que há muito permeia nossos pensamentos.

Usamos uma estrutura parecida com o atual hall do UFC, para que os fãs não fiquem perdidos. Porém, nossos critérios são mais claros. Dividimos em três seções: lutadores, colaboradores e lutas. Para se credenciar, um lutador deve estar aposentado há pelo menos cinco anos – neste ponto, retornos para freak shows não serão considerados. Isso significa que Fedor Emelianenko, que voltou em nível de competição decente, segue ativo, por exemplo. A regra dos cinco anos também vale para as lutas.

Na classe inaugural do Hall da Fama MMA Brasil, os integrantes do site indicaram cinco lutadores, dois colaboradores e duas lutas. A partir de 2018 e enquanto o site viver, mais três lutadores, um colaborador e duas lutas serão inseridos anualmente.

Conheça agora a classe inaugura do Hall da Fama MMA Brasil.

Lutador: Royce Gracie

Royce Gracie com o prêmio do UFC 1 (Foto: Markus Boesch)

Royce Gracie com o prêmio do UFC 1 (Foto: Markus Boesch)

Escolha unânime entre os dez integrantes da equipe, Royce Gracie era um nome óbvio para a classe inaugural do nosso Hall da Fama. O precursor venceu três dos quatro primeiros torneios do UFC superando oponentes gigantescos, muito mais pesados, provenientes das mais diversas artes de origem, baseado exclusivamente no jiu-jítsu que sua lendária família desenvolveu.

Royce até hoje é o recordista de vitórias seguidas por submissão na história do UFC, com 11, de Art Jimmerson a Dan Severn. Ele também ostenta o recorde de vitórias numa mesma noite (quatro), que jamais será quebrado, além de ter a terceira maior sequência de vitórias na história da organização. De quebra, disputou a luta mais longa da história do UFC (36 minutos contra Ken Shamrock) e do PRIDE (90 minutos contra Kazushi Sakuraba).

Com muita justiça, Royce inaugurou o Hall da Fama do UFC, em 12 de novembro de 2003, quando a organização completou 10 anos.

Lutador: Randy Couture

As vitórias de Couture sobre Belfort firmaram o americano como o primeiro mestre da estratégia no MMA

As vitórias de Couture sobre Belfort firmaram o americano como o primeiro mestre da estratégia no MMA

Outra unanimidade entre os lutadores foi o americano Randy Couture. Campeão dos pesados do UFC em três oportunidades, dos meios-pesados em duas e vencedor do torneio do UFC 13, Couture foi o primeiro a conquistar cinturão em duas categorias – até hoje, apenas três atingiram tal feito.

Couture gravou seu nome na história por vários motivos. Ele é o dono do maior número de reinados na história do UFC (cinco); é quem mais disputou lutas por cinturão no UFC (15); é o peso pesado que mais defendeu o cinturão com sucesso no total (três, empatado com Tim Sylvia) e consecutivamente (dois, empatado com Sylvia, Brock Lesnar, Cain Velasquez); é o lutador mais velho a ter vencido uma luta (47 anos), a ter conquistado um cinturão (43), colocado um título em jogo (44) e único com mais de 40 anos a ter vencido uma disputa de cinturão na história do UFC. Além disso tudo, é considerado o pioneiro no uso de táticas de luta no MMA.

Couture foi introduzido no Hall da Fama do UFC em 24 de junho de 2006. Ele é o único dos integrantes a ter conquistado um título após sua introdução e venceu a única luta disputada entre dois integrantes já introduzidos (contra Mark Coleman).

Lutador: Marco Ruas

Provavelmente a ausência mais sentida no Hall da Fama do UFC encontrou seu merecido espaço na nossa classe inaugural. Marco Ruas não tem tantas conquistas e feitos notáveis no esporte além do título do torneio do UFC 7, mas ele entrou para a história ao iniciar o conceito de misturar artes marciais antes de o vale tudo ser batizado de artes marciais mistas.

Como ele próprio dizia, “se vier me agarrar, eu vou socar e chutar; se vier me socar e chutar, eu vou agarrar”. Isso porque, numa época em que os lutadores eram versados apenas em suas especialidades e sabiam pouco ou nada das demais, Ruas era especialista em luta livre esportiva e em muay thai, além de ter bases também no judô, no jiu-jítsu e na capoeira. Na foto ao lado, Ruas enche as pernas do gigante Paul Varelans de bicas na decisão do UFC 7, o primeiro evento da organização no estado de Nova York.

Lutador: Chuck Liddell

Wanderlei Silva e Chuck Liddell travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Chuck Liddell e Wanderlei Silva travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Dois brasileiros e dois americanos na classe inaugural para mostrar o domínio das duas principais nações do MMA. Chuck Liddell foi campeão dos meios-pesados do UFC com quatro defesas bem sucedidas do cinturão e é apontado, ao lado de Couture, como responsável por introduzir o MMA no mainstream nos Estados Unidos.

Liddell fez fama usando uma mistura que não era comum na escola americana, juntando o wrestling com o kickboxing e o kempo. Ele é recordista de nocautes na história dos meios-pesados do UFC (10) e de vitórias na categoria (16). Em 2003, foi enviado por Dana White para representar o UFC no torneio do PRIDE, quando acabou eliminado na semifinal por Rampage Jackson. Por muito tempo, o combo defesa de quedas com contragolpes do “Iceman” foram considerados no estado da arte. Sua vitória sobre Wanderlei Silva é considerada uma das melhores lutas da história do UFC.

Lutador: Kazushi Sakuraba

Kazushi Sakuraba venceu vários integrantes da família Gracie

Kazushi Sakuraba venceu vários integrantes da família Gracie

Fechando a classe inaugural do Hall da Fama MMA Brasil, o primeiro anti-herói da torcida brasileira. Conhecido como “Gracie Hunter”, Kazushi Sakuraba acabou com a aura da família número um do MMA ao enfileirar Royler Gracie, Renzo Gracie, Ryan Gracie e Royce Gracie, este na memorável disputa de 90 minutos no PRIDE Grand Prix de 2000, a primeira derrota de Royce no MMA – Sakuraba foi o primeiro japonês a ter vencido um Gracie desde que Masahiko Kimura venceu Helio Gracie, em 1951.

Além de ter batido Gracies em profusão, Sakuraba venceu quatro campeões do UFC (Vitor Belfort, Rampage Jackson, Kevin Randleman, Carlos Newton) e três vencedores de torneios (Royce, Ken Shamrock e Guy Mezger). Apesar de nunca ter conquistado um cinturão ou torneio no PRIDE, organização que lhe deu fama, Sakuraba venceu o torneio do Ultimate Japan e divide com Rodrigo Minotauro o recorde de submissões no PRIDE (11). O japonês é considerado um dos mais corajosos lutadores da história, tendo atuado do peso meio-médio até o pesado contra estrelas diversas.

Colaborador: Rorion Gracie

Talvez nós não estivéssemos aqui hoje se não fosse por Rorion Gracie. O irmão mais velho de Royce desbravou os Estados Unidos nos anos 1980, levando a arte de sua família até para os estúdios de Hollywood. Em 1993, inspirado pelos Desafios Gracie, iniciados pelo tio Carlos, Rorion teve a ideia que mudou o mundo das lutas para sempre.

Em parceria com o produtor americano Art Davie, Rorion criou o Ultimate Fighting Championship, com o intuito de mostrar ao mundo qual arte marcial era a mais poderosa num combate que só tinha duas regras: não valia enfiar o dedo no olho nem morder. Para representar o Gracie Jiu-Jitsu, Rorion escalou Royce, lutador que não era um tanque como Rickson, mas também não tão pequeno quanto Royler, para mostrar que um cidadão de porte comum pode dar conta de homens com 30 quilos ou mais de superioridade.

Rorion vendeu sua parcela na sociedade no UFC 5, descontente com os rumos que o vale tudo estava tomando. Ele nunca aceitou a adoção de regras que controlam o esporte e até hoje é meio reticente com a sua criação. Porém, nada tira dele a importância de ter criado o UFC.

Colaborador: Dana White

Se Rorion merece a vaga no Hall da Fama MMA Brasil por ter dado o pontapé inicial, Dana White merece por ter conduzido o UFC a patamar que está hoje – a venda da organização, em 2016, é a maior da história de todos os esportes.

Conduzindo o UFC com mão de ferro, com medidas muitas vezes controversa, acusado de estabelecer monopólio, White viu a empresa que presidia sair de estado falimentar para se tornar o gigante que pisa e absorve os concorrentes, como aconteceu com o PRIDE, o Strikeforce e o WEC. Ele começou como empresário de Liddell e Tito Ortiz quando o UFC ainda era da SEG, empresa que adquiriu a promoção de Rorion. Quando a SEG deu sinais de fraqueza, Dana chamou o amigo de infância Lorenzo Fertitta, bilionário do ramo de cassinos em Las Vegas, para comprar o UFC. Eles quase faliram, mas foram salvos pelo próximo indicado.

Luta: Forrest Griffin vs. Stephan Bonnar I

Em 2005, o UFC vivia era de trevas, vendo o PRIDE reinar como o principal centro do MMA mundial, com as maiores estrelas do esporte. Amargando milhões de dólares de prejuízo, os irmãos Fertitta deram um ultimato: ou revertemos o cenário ou vamos encerrar o UFC.

O UFC então fez uma parceria com o canal a cabo Spike TV para lançar o reality show The Ultimate Fighter. O resto é história, com o sucesso do programa alavancando definitivamente a popularidade do MMA em território americano a ponto de não somente reverter o quadro de falência, mas transformar o UFC numa megaempresa.

O responsável pela virada foi a final do programa na categoria dos meios-pesados. Forrest Griffin e Stephan Bonnar travaram uma batalha para as eras, deixando tudo o que tinham e que não tinham no octógono em busca do contrato com o UFC. O quebra-pau foi tão intenso que as pessoas que assistiam passaram a telefonar para amigos pedindo para sintonizarem na Spike TV, triplicando a audiência em pleno voo. No fim, Griffin foi anunciado vencedor, mas Dana White resolveu premiar ambos com um contrato com o UFC e uma vaga no Hall da Fama da organização.

Luta: Fedor Emelianenko vs. Mirko Cro Cop

Do outro lado do mundo, quatro meses depois, outro combate entrava para a história do MMA. Em sua segunda defesa do cinturão dos pesados do PRIDE, Fedor Emelianenko, considerado o melhor e maior lutador da história da categoria, encarou Mirko Cro Cop, então o número dois do mundo.

Confrontar dois lutadores tão talentosos em seus ápices técnicos e físicos só poderia dar no que deu. Fedor e Mirko travaram uma batalha histórica, com drama e técnica refinadas. Filipović começou bem o duelo, quebrando o nariz do russo e disparando coices na linha de cintura, fazendo com que Emelianenko buscasse as quedas. Conforme o tempo passou, Fedor mostrou porque era um gigante e dominou o combate inclusive no ponto forte do rival. Ao fim de 20 minutos, o “Último Imperador” foi decretado vencedor da luta que é largamente considerada como a melhor da história do MMA.