Hall da Fama MMA Brasil: Classe de 2018

Por Alexandre Matos | 08/03/2018 19:22

No começo do ano passado, tiramos do papel uma ideia antiga do MMA Brasil: a criação do nosso próprio Hall da Fama. A ideia era cobrir um buraco na história do MMA, pois a única iniciativa parecida não olha o esporte como um todo. Nossa intenção também era de ajudar os leitores mais recentes a entender melhor a história do nosso tão amado MMA.

A Classe de 2018 do Hall da Fama MMA Brasil assume a quantidade de indicados que será o padrão daqui para a frente, com três lutadores, um colaborador e duas lutas. No ano passado, essas quantidades foram cinco, dois e dois, respectivamente. Ampliamos também a banca de votação: no ano passado, apenas os dez analistas do site votaram na classe inaugural.

A partir de 2018, abrimos as escolhas também para nossa nova equipe de redação, que foi criada após a definição da classe de 2017. Como tudo no MMA Brasil, o Hall da Fama também é democrático: baseado numa pré-lista de concorrentes, a equipe votou nos preferidos e os mais votados entraram na Classe de 2018. Por este motivo, antes de falar que faltou alguém ou algo, lembre-se que são poucas vagas e que seus preferidos certamente aparecerão nas classes subsequentes.

Seguimos com os mesmos critérios de seleção. Os lutadores indicados devem estar aposentados há pelo menos cinco anos. Isso significa que, para a Classe de 2018, só foram considerados lutadores que atuaram pela última vez em 2012. Retornos para lutas freak não são considerados desistência de aposentadoria. Por este motivo, Fedor Emelianenko ainda não é um candidato, pois o russo voltou para lutas competitivas. O critério de cinco anos também valem para as lutas.

Sobre a categoria dos colaboradores, será normal em anos futuros a presença de pessoas que também sejam candidatas na categoria dos lutadores, gente que deixou sua marca tanto dentro quanto fora dos ringues e cages.

Relembremos os indicados da Classe Inaugural de 2017 do Hall da Fama MMA Brasil:

Lutadores: Royce Gracie, Randy Couture, Chuck Liddell, Marco Ruas e Kazushi Sakuraba

Colaboradores: Rorion Gracie e Dana White

Lutas: Forrest Griffin vs. Stephan Bonnar I, Fedor Emelianenko vs. Mirko Cro Cop

Agora apresentamos a classe de 2018.

Lutador: Dan Severn

No começo dos tempos, ainda na época em que o MMA era chamado de vale tudo, o jiu-jítsu era tido como a arte suprema, quando Royce Gracie, que inaugurou o nosso Hall da Fama, finalizou gente à vontade na conquista de três dos quatro primeiros torneios da história do UFC. Parecia que a arte suave não tinha rivais à altura – pelo menos até a final do UFC 4.

Dan Severn posa com seus cinturões do UFC (Foto: Anil Melwani/MMA.us)

Um americano apavorou a concorrência naquele 16 de dezembro de 1994. Dan Severn, o primeiro representante legítimo do wrestling a lutar no UFC, distribuiu quedas poderosas, aplicou um par de suplês em Anthony Macias e finalizou dois adversários até encontrar Royce na decisão. “A Fera” jogou o brasileiro no solo e passou 15 minutos batendo por cima da guarda do oponente, quando foi pego por um triângulo que sacramentou uma virada antológica – e nenhum telespectador assistiu ao vivo porque o tempo do aluguel do satélite acabou alguns minutos antes, derrubando a transmissão.

Severn retornou no ano seguinte para vencer o torneio do UFC 5, o do Ultimate Ultimate 95 e bateu Ken Shamrock na super luta do UFC 9. Em seguida, ele foi convocado para disputar o cinturão inaugural do UFC no peso pesado contra Mark Coleman, no UFC 12, quando Severn foi finalizado com um neck crank.

O sucesso inicial de Severn abriu caminho para a chegada de outros wrestlers de nível internacional, como o próprio Coleman, Mark Kerr, Randy Couture, o pupilo Don Frye, que mudaram o panorama da disputa, levando o MMA, pelo menos o disputado em cages, ao cenário atual de domínio dos wrestlers. Severn foi três vezes All-American pela forte Arizona State University e foi o membro original da prodigiosa equipe Sunkist Kids. Ele se aposentou do MMA em 2012, com cartel de 101-19-7.

Lutador: Mark Coleman

Vencedor dos torneios do UFC 10 e UFC 11. Vencedor do PRIDE GP Openweight 2000. Um dos dois únicos a conquistar torneios no PRIDE e no UFC. Primeiro detentor do cinturão dos pesados na história do UFC. Primeiro a utilizar o ground and pound com fins estratégicos. Integrante do Hall da Fama do UFC e agora do Hall da Fama do MMA Brasil. Não foram poucos os feitos do “Martelo” Mark Coleman.

Em seu apogeu, Coleman era uma figura intimidadora, uma montanha de músculos capaz de imprimir potência elevada tanto nos socos quanto nas quedas. Ele fez uso dessas características na maior vitória da carreira, o nocaute técnico sobre o violento kickboxer Igor Vovchanchyn, na época considerado o maior nocauteador do esporte. Azarão por larga margem, depois de amargar quatro derrotas seguidas na passagem do UFC para o PRIDE, Coleman surpreendeu o favorito ucraniano com quedas e ground and pound para ficar com o título.

Além de merecer o apelido de “The Godfather of Ground and Pound”, algo como o Padrinho do Ground and Pound, Coleman estendeu a percepção do domínio dos wrestlers iniciado por Severn. Mark foi campeão da NCAA pela Ohio State University, tricampeão pan-americano, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1991 e prata no Mundial do mesmo ano.

Lutador: Matt Hughes

Seguindo com uma classe dominada por wrestlers, Matt Hughes teve menos sucesso no esporte de base que os dois anteriores, mas chegou mais longe no MMA. Maior peso meio-médio da história até o estabelecimento de Georges St. Pierre, Hughes foi provavelmente o primeiro número um peso por peso durante seu pico de domínio, entre 2001 e 2003, e o melhor lutador do UFC na primeira metade da década passada.

Matt Hughes no dia que foi indicado ao Hall da Fama do UFC

Hughes diversificou o uso do wrestling no MMA em relação aos seus predecessores. O double leg era sua marca registrada, mas ele não se limitava a isso. Cansou de jogar gente no chão, imortalizando dois momentos sensacionais. No primeiro, ergueu Carlos Newton dentro de um triângulo e o nocauteou cravando o adversário com um slam. No segundo, colocou Frank Trigg nos ombros, atravessou o octógono carregando o rival e o plantou violentamente no chão, abrindo caminho para uma das viradas mais espetaculares da história do MMA.

Além das quedas, Hughes fez uma bela adaptação do submission ao MMA – foram 19 vitórias por finalização, uma delas sobre o faixa-preta Ricardo Cachorrão, apagado com um headlock frontal clássico imortalizado pelo inesquecível Dave Schultz.

Colaborador: Bruce Buffer

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiit’s tiiiiiiiiiiiime!

Não importa desde quando você acompanha MMA em geral, UFC especificamente. A voz que está mais atrelada ao esporte é a do announcer Bruce Buffer.

A primeira aparição de Buffer no octógono mais famoso do mundo data da época em que nem famoso o octógono era. O UFC 10, que marcou a primeira conquista de Coleman na organização, em junho de 1996, foi também a primeira vez de Buffer anunciando as lutas, em substituição ao “G-Man” Rich Goins. De lá para cá são quase 22 anos de Buffer levantando ginásios e empolgando lutadores ao redor do mundo.

Meio-irmão de Michael Buffer, o announcer mais importante da história do boxe, Bruce mudou o estilo de anunciar lutas, imprimindo mais vigor, ajudando a tornar ainda mais elétrica a atmosfera. Várias de suas frases são repetidas pelos fãs, como “this is the main event of the evening” (esta é a luta principal da noite), “we are live” (estamos ao vivo) ou o mais clássico de todos, o “it’s time” para avisar que chegou a hora da luta principal. Esta frase é tão marcante que foi escolhida pelos leitores do MMA Brasil como o nome do nosso podcast.

Luta: Maurício Shogun vs. Rogério Minotouro I

Na classe inaugural do nosso Hall da Fama, indicamos a luta considerada como a melhor da história do PRIDE. Para a classe de 2018, introduzimos o combate apontado como o segundo melhor da icônica organização japonesa.

Maurício Shogun e Rogério Minotouro se enfrentaram no PRIDE GP 2005 dos pesos médios (meios-pesados nas Regras Unificadas do MMA), torneio mais aclamado da história do MMA, com a participação de várias das maiores estrelas da época.

Shogun e Minotouro se enfrentaram em combate apontado como o segundo melhor da história do PRIDE

O curitibano Shogun ainda era um jovem prospecto, azarão no torneio, que vivia ainda à sombra de Wanderlei Silva, principal astro da Chute Boxe e do PRIDE em geral. Já Minotouro lutava para ser reconhecido como ele próprio, e não como o irmão gêmeo de Rodrigo Minotauro, ex-campeão dos pesados da organização. Porém, ambos chegaram na segunda fase com o respeito adquirido pelo brutal nocaute aplicado por Maurício em Rampage Jackson e pela finalização de Rogério sobre Dan Henderson.

Minotouro tinha o jiu-jítsu da Brazilian Top Team como arma principal. Shogun carregava o muay thai da Chute Boxe, arquirrival da BTT. Na hora da verdade, a porrada estancou séria e o paranaense se viu obrigado a derrubar e trabalhar o ground and pound devido à pressão que o baiano aplicava na troca de golpes em pé. No final de 15 empolgantes minutos, num duelo que se mostrou atemporal, Shogun foi decretado vencedor por decisão unânime e seguiu com moral para a conquista do torneio.

Luta: Anderson Silva vs. Vitor Belfort

No ano passado, o primeiro duelo Griffin-Bonnar, que indiretamente salvou o UFC da falência, adentrou nosso Hall da Fama pela importância histórica. Na classe de 2018, introduzimos o confronto que teve impacto semelhante, mas no cenário brasileiro de MMA.

Anderson Silva aplicou um nocaute histórico em Vitor Belfort

Em dezembro de 2010, o UFC promoveu uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro para não só anunciar que a organização voltaria a realizar um evento em território nacional depois de 12 anos, mas também para oficializar que o desafiante seguinte de Anderson Silva seria Vitor Belfort. Eles se enfrentariam em fevereiro, no UFC 126, na véspera do Super Bowl.

Este combate mudou o MMA para sempre no Brasil. Anderson já era um super campeão, considerado por muitos especialistas o número um peso por peso, mas ainda era desconhecido do grande público em seu próprio país. Situação oposta vivia Vitor, o primeiro astro brasileiro do MMA, super conhecido inclusive entre os que mal sabiam que MMA existia, graças à participação no reality show Casa dos Artistas, ao relacionamento com Joana Prado, sex symbol à época, e, infelizmente, ao desaparecimento de sua irmã, que ocupou o noticiário nacional em 2004.

O grande chamariz popular para o combate era o “Fenômeno”. Ele atraiu a atenção do mainstream pela oportunidade de se tornar novamente campeão do UFC. Porém, quem tirou proveito de todos os olhares populares foi o “Spider”. Com um chutaço na boca, que gerou uma das imagens mais espetaculares da história do MMA, Anderson nocauteou Vitor, manteve seu cinturão e tomou do rival o posto de lutador mais popular do Brasil.

A partir de então, o esporte viveu um boom no Brasil. Em agosto do mesmo ano, Anderson liderou o retorno do UFC ao país, no UFC 134, eternizado como UFC Rio. O evento foi um sucesso retumbante e as vitórias acachapantes dos principais astros brasileiros completaram o serviço de popularização que Anderson iniciara em fevereiro. Na sequência, a Rede Globo comprou os direitos de transmissão do UFC em TV aberta no Brasil e deu início ao TUF Brasil, reality que alcançou índices de audiência imensos, inclusive apontando as maiores quantidade de acessos da história do MMA Brasil. Com quatro campeões simultâneos no país, o MMA parecia rumar para o posto de segundo esporte mais popular do Brasil. Tudo graças àquele monumental chute.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.