Há 47 anos morria o ‘Gigante Gentil’ Gholamreza Takhti, maior wrestler iraniano de todos os tempos

Por Alexandre Matos | 07/01/2015 23:27

O colapso de Jon Jones é o assunto dominante dos meios de MMA nos últimos dias, como não poderia ser diferente. No entanto, sempre é bom de vez em quando abrir espaço para o passado e homenagear grandes lendas que transcenderam seus esportes.

No último dia 7 de janeiro completou mais um aniversário de morte de Gholamreza Takhti (ou Ḡolām-Reżā Taḵti), o maior wrestler iraniano de todos os tempos, principal atleta do país no século XX e primeiro desta importante potência da luta olímpica a conquistar títulos internacionais de primeira grandeza – ainda que outros wrestlers iranianos tenham conquistado mais títulos que Takhti.

Takhti foi campeão olímpico em 1956, nos Jogos de Melbourne, prata em Helsinki-1952 e em Roma-1960. Em Campeonatos Mundiais, ele subiu ao degrau mais alto do pódio em 1959, quando seu país hospedou o torneio, e em 1961, na japonesa Yokohama, além de ter sido vice-campeão em Helsinki-1951 e em Toledo-1962. O atleta faz parte do Hall da Fama Internacional da United World Wrestling (antiga FILA) desde 2007.

Forjado no varzesh-e bastany, tradicional sistema persa pré-islâmico de treinamento, que a UNESCO considera uma das mais antigas formas de treinamento da humanidade, Takhti era um atleta natural. Oriundo de família pobre do Teerã, ele só pôde estudar até o primeiro ano do Ensino Médio e começou no wrestling aos 15 anos. Aos 20, estreou na seleção iraniana adulta e conquistou seu primeiro título nacional. No ano seguinte, tornou-se vice-campeão mundial pela primeira vez. Neste intervalo entre 15 e 20 anos, Takhti não conseguiu se dedicar integralmente ao esporte, pois teve que cumprir serviço militar e trabalhou em extração de petróleo e na empresa nacional de ferrovias.

O astro, apelidado de “Jahān Pahlevān” (Campeão Mundial) competiu em três categorias de peso (79kg, 87kg e 97kg). Por dois anos consecutivos, em 1958 e 59, Takhti foi aclamado o homem mais poderoso do Irã. Ele se aposentou aos 36 anos, logo após o Campeonato Mundial de 1966, disputado novamente em Toledo, Ohio, nos Estados Unidos. Milhares de fãs foram ao aeroporto vê-lo partir. Takhti teve má atuação no torneio – muitos alegam que o governo nacional criava dificuldades para seu treinamento e o astro competiu em má forma física e técnica – e anunciou sua retirada em seguida. Cinco meses depois, ele se casou com Shahla Tavakoli, com quem teve Babak Takhti, filho que nasceu em setembro de 1967, quatro meses antes de sua morte.

O Gigante Gentil

Apenas o que conquistou nos tapetes da luta pelo mundo já garantiria a Takhti um lugar especial no panteão dos grandes heróis iranianos. Porém, ele é idolatrado até hoje, quase 50 anos após sua morte, pelo comportamento cavalheiresco, espírito esportivo, humildade, honestidade, gentileza e amor ao próximo.

Uma das grandes histórias de sua carreira aconteceu quando disputou a final do Mundial de 1962 contra o soviético Aleksandr Medved, considerado o maior freestyler da história ao lado do compatriota Buvaisar Saitiev. Medved sofria com um problema no joelho direito. Quando Takhti percebeu a lesão, evitou tocar na perna direita do rival e concentrou seus ataques na esquerda. O comportamento lhe rendeu a derrota e a admiração dos fãs da luta olímpica. Uma medalha de ouro não era mais importante que sua honra.

Gholamreza Takhti recebe uma das inúmeras medalhas de sua carreira (Foto: Galeria Iraniana de Fotografias Históricas)

Gholamreza Takhti recebe uma das inúmeras medalhas de sua carreira das mãos do governo que ele tanto combateu (Foto: Galeria Iraniana de Fotografias Históricas)

Seu espírito esportivo ia além. Frequentemente Takhti se desculpava com adversários após vencê-los. Numa ocasião, bateu um soviético e viu a mãe dele triste ao lado da área de competição. Takhti caminhou na direção da senhora e disse: “Me desculpe pelo resultado. Seu filho é um grande wrestler“. Ela sorriu e deu um beijo no rosto do iraniano. Em competições internacionais, era comum Takhti oferecer presentes aos adversários gringos como forma de ser lembrado por eles.

Fora dos tapetes, Takhti teve importância no terremoto que devastou Boʾin Zahrā, no oeste do Irã, e matou 45 mil pessoas. No papel de maior ídolo do país, o lutador foi às principais avenidas de Teerã para organizar uma operação de socorro para as vítimas, coletando doações. Sua atitude motivou outros campeões a fazerem o mesmo e aumentou ainda mais sua popularidade no país.

Os mistérios por trás de sua morte

Takhti era simpatizante político de Mohammed Mossadegh, primeiro-ministro e herói nacional iraniano que levou um golpe de estado e acabou preso. O lutador se filiou ao Alto Conselho da Segunda Frente Nacional, movimento de seguidores de Mossadegh, e acabou entrando em conflito com o governo repressor do xá Mohammad Reza Pahlavi e com a Federação Iraniana de Luta. Apesar de rivais políticos, Mossadegh e Pahlavi governavam o país ao mesmo tempo (no sistema monarquista em questão, o xá iraniano tinha mais autonomia do que a rainha britânica, por exemplo).

Com medo de sua popularidade e de sua oposição, as autoridades lhe ofereceram a presidência da federação e o convidaram a buscar a prefeitura de Teerã. Takhti nunca aceitou.

No dia 7 de janeiro de 1968, aos 38 anos, Takhti foi encontrado morto num quarto do Atlantic Hotel, em Teerã. A versão oficial do governo foi que o astro cometera suicídio, mas poucos compraram essa história. O funeral do lutador virou palco de manifestação política e vários seguidores de Mossadegh acabaram presos. Ao menos sete pessoas cometeram suicídio, um deles deixando a seguinte mensagem: “Um mundo sem o Campeão Mundial não é um mundo para se viver”. Outra pessoa em especial teve que fugir para os Estados Unidos.

Hossein Khosrow Ali Vaziri, competidor do estilo greco-romano, era um dos melhores amigos de Takhti. Com os problemas decorrentes da morte do ídolo, Vaziri se exilou na América, onde ficou famoso como The Iron Sheik, um dos grandes vilões da história do telecatch e integrante do Hall da Fama da WWE. Ele defende a tese que Takhti foi executado por sua visão democrática e contrária ao governo.

“Ele era muito popular no Irã. Era como o Michael Jordan, todo mundo o amava. E eu era o número dois. Pensei que, se o pegaram, eles provavelmente viriam atrás de mim também. Eu sabia que tinha que partir.”

Existe, porém, uma corrente que defende o suicídio de Takhti. Ele sofria de depressão, tinha problemas com a esposa (que vinha de família rica, o que gerava conflitos em casa) e fora duramente afetado pela morte de Mossadegh, em 1967.

Após a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou Pahlavi e colocou o aiatolá Ruhollah Khomeini em seu lugar, o país transformou Takhti em símbolo na luta islâmica contra o regime dos xás. O nome do lutador batiza estádios, centros esportivos e ruas no país. Estátuas foram erguidas em sua homenagem. Anualmente, milhares de fãs e personalidades como o ministro dos esportes e o presidente do comitê olímpico local lembram de sua morte a cada 7 de janeiro. Aleksandr Medved, que se tornou amigo de Takhti, também é visto frequentemente na tumba da lenda para prestar homenagens à sua memória.

Gholamreza Takhti:

“O troféu mais importante que eu recebi não foi uma medalha de ouro ou de prata. O coração de uma pessoa vale milhares de medalhas de ouro, e eu sei que milhares de meus compatriotas têm dedicado uma pequena parte de seus corações bondosos para mim.”

A tumba de Takhti, em Ray, onde são celebrados os aniversários de morte do maior atleta iraniano do século XX

A tumba de Takhti no Cemitério Ebn-e Babooyeh, em Ray, onde são celebrados os aniversários de morte do maior atleta iraniano do século XX