Germaine de Randamie enterra uma divisão que sequer deveria ter nascido

Por Alexandre Matos | 31/05/2017 10:30

No ano passado, talvez sob efeito de mais uma vitória avassaladora de Cristiane Cyborg, nosso colunista Diego Tintin publicou aqui no MMA Brasil um texto muito interessante defendendo que, depois de tantas agruras, a brasileira merecia que o UFC criasse um prêmio para ela, ou seja, um cinturão na maior organização do MMA mundial.

Nossos leitores sabem da profunda admiração e amizade que eu tenho pelo Tintin, um dos maiores motivos de sucesso que esse site já conseguiu. Porém, não pude deixar de discordar do meu amigo – o que é algo que acontece bem pouco, é bom ressaltar. Não que eu discordasse dos méritos da Cris, notada e comprovadamente a melhor peso pena do MMA feminino. Meu problema era: por que o UFC abriria uma categoria de nível técnico lamentável, pior até que o peso pesado masculino, só para agraciar uma atleta que, por mais talentosa que seja, lida com tantos problemas perante os torcedores e a opinião pública?

É bom deixar clara mais uma coisa: eu não tenho nada contra a pessoa Cristiane Cyborg. Pelo contrário. Tive a felicidade de conhecê-la pessoalmente durante o UFC 198, quando ela finalmente estreou no octógono mais famoso do mundo, e constatei que se trata de uma pessoa adorável, totalmente diferente da impressão feroz que ela deixa quando está em ação – e também da confusão com Angela Magaña, que falaremos adiante. Educada, tranquila, sorridente, carinhosa, Cris é daquelas pessoas que você é capaz de passar horas batendo papo.

Isto posto, meu ponto aqui é estritamente técnico. O UFC é a promoção em que encontramos (ou esperamos encontrar) os(as) maiores lutadores(as) de MMA do mundo. O problema que eu levantei na época, e sigo insistindo, é que não há 10 atletas no mundo na divisão peso pena feminino com nível para formar uma divisão no UFC. Confiram os principais rankings femininos no MMA Rising, no Tapology ou no Fight Matrix e vejam que, mesmo se o UFC contratar todas as lutadoras da categoria do Bellator, ainda assim formaria a pior divisão de seu plantel.

Do grupo das mais bem ranqueadas que não estão no Bellator, Helena Kolesnyk (de vermelho) até tem bons punhos, mas, das seis lutas que disputou, apenas uma adversária tinha vitória registrada no Sherdog (cartel de 1-6).

Do grupo das mais bem ranqueadas que não estão no Bellator, Helena Kolesnyk (de vermelho) até tem bons punhos, mas, das seis lutas que disputou, apenas uma adversária tinha vitória registrada no Sherdog (cartel de 1-6).

O UFC deu o passo além e criou a divisão, apesar disso tudo. Esta foi a primeira de uma série de lambanças. A segunda veio a reboque: Cyborg não estava envolvida na disputa do cinturão inaugural.

Aqui cabe mais um parêntese. O peso pena feminino é tão fraco de material humano que o UFC criou a categoria diretamente pela disputa do cinturão sem ter mais nenhum combate paralelo em vista. De todas as divisões abertas pelo UFC após a consolidação das Regras Unificadas do MMA, apenas o peso galo feminino começou com uma disputa de cinturão. O motivo era óbvio e atendia por Ronda Rousey. Pelo menos no caso do peso galo, já havia outras lutadoras contratadas quando Rousey enfrentou Liz Carmouche. Havia talento, havia competição, havia popularidade. Fecha parêntese.

A contratação de Cyborg era justificada por uma eventual superluta contra Ronda, caso a ex-campeã do peso galo tivesse vencido Holly Holm. “Rowdy” não venceu e Cyborg quase bateu as botas para chegar a 63 quilos e fazer duas lutas que valiam nada no octógono mais famoso do mundo. Na verdade, valeram muito. Valeram para que ela não se aposentasse sem lutar no UFC.

Não era suficiente. Um cinturão era preciso. O presidente do UFC, Dana White, ofereceu três vezes a Cris uma oportunidade de disputar o primeiro título da nova categoria e, segundo o próprio dirigente, Cyborg recusou todas. Como se sabe, ela primeiro disse que não conseguiria bater o peso da sua própria divisão em oito semanas. Em seguida, quando se levantou a hipótese de uma terapia pós-ciclo para ficar apta a lutar nos Estados Unidos, sob a chancela de comissões menos permissivas, Cyborg foi flagrada num antidoping pela USADA. Quando a categoria peso pena estava perto de morrer, a curitibana se safou provando para a agência antidopagem que o doping tinha sido causado por um tratamento médico legítimo.

A categoria nasceu e o UFC escalou Holm, que vinha de duas derrotas seguidas e nunca mais venceu desde a zebra sobre Ronda, contra Germaine de Randamie na luta inicial. Já valia o título. A holandesa venceu, sob protestos de muitos – Holm foi declarada vitoriosa por 14 veículos no MMA Decisions, contra oito que julgaram a favor da europeia. Para piorar, a luta foi criticada pelos baixos níveis técnico e de entretenimento.

Germaine de Randamie levou vantagem na curta distância contra Holly Holm (Foto: Anthony Geathers / Getty Images)

Germaine de Randamie e Holly Holm não fizeram a luta mais animada do ano (Foto: Anthony Geathers / Getty Images)

Bom, deixemos tudo isso de lado e vamos logo para De Randamie contra Cyborg, a única luta possível – literalmente, porque a única peso pena de verdade contratada é a brasileira. Foi quando a campeã aplicou um mim acher no mundo do MMA. Germaine simplesmente sumiu do mapa, nem seus técnicos sabiam dela. Isso depois de dizer, logo após conquistar o bizarro cinturão, que não poderia enfrentar Cyborg porque tinha que curar uma lesão na mão que perdurava há pelo menos 15 meses.

Acha que o circo acabou? Questionada por ter lutado duas vezes sem reparar a lesão, De Randamie desconversou e disse que achava mais justo conceder revanche para Holm do que defender a conquista contra Cyborg. É claro que os fãs caíram em cima da holandesa, acusando-a de estar fugindo de uma luta a qual teria poucas chances de vencer. Eu odeio quando usam a expressão “arregão” num esporte tão duro como o MMA, mas Germaine começa a dar razão aos críticos. Através de seu empresário Brian Butler, em comunicado ao MMAjunkie, saiu-se com a seguinte pérola:

Brian Butler, empresário de Germaine de Randamie:

“Germaine e seu time conversaram e a posição é que ela não vai lutar com Cyborg porque Cyborg é uma conhecida e comprovada trapaceira. Mesmo depois de tantos exames cercando Cyborg, ela ainda conseguiu usar alguma coisa e sempre será uma pessoa suspeita que está tentando vencer o sistema ao invés de apenas seguir conforme as regras.”

Ah, vá!

Cyborg não é a única, muito menos será a última, que viverá eternamente sob suspeita de doping. Assim como ela, Alistair Overeem, Vitor Belfort e Brock Lesnar, para citar alguns. Nenhum deles viu um adversário negá-los por causa disso, mesmo depois que todos, assim como Cris, foram flagrados em exames antidoping.

Só faltava essa palhaçada para fechar o circo dos horrores que é a história do peso pena do UFC, que sequer tem gente aparecendo na lista dos rankings oficiais. Nem mesmo De Randamie. Só faltava essa? Claro que não. O empresário da “Dama de Ferro” foi além na vergonha alheia.

Brian Butler, empresário de Germaine de Randamie:

“Germaine e sua equipe acreditam que Cyborg não deveria ser autorizada a competir no UFC. Se esta for a única luta que o UFC quer, então Germaine está disposta a esperar e ver se o UFC vai tomar o cinturão dela antes de dar o próximo passo.”

MASOQ?

Bom, deixa pra lá. Tirem logo o cinturão dela e o coloquem em jogo entre Cris Cyborg e Megan Anderson, a australiana que conquistou a coroa deixada vaga pela brasileira no Invicta. Cyborg se empolgou com a possibilidade, dizendo que o UFC finalmente deveria deixá-la lutar com uma legítima peso pena. As duas até concordaram que o UFC 214, que será disputado no final de julho, seria uma boa oportunidade, na luta coprincipal da revanche entre Daniel Cormier e Jon Jones. Realmente, um baita palco.

Megan Anderson e Cristiane Cyborg já se adiantaram na promoção da luta que nem foi anunciada ainda (Foto: Twitter de Cyborg)

Megan Anderson e Cristiane Cyborg já se adiantaram na promoção da luta que nem foi anunciada ainda (Foto: Twitter de Cyborg)

Então vamos em frente. Vamos fazer essa luta, em que pese o fato de não haver um “e depois?”. Esqueça o que virá a seguir. Bote a Cris para bater na Megan, conquistar seu sonhado cinturão e acabem com esse circo logo. Fechado? Nem tão fácil assim, amigo. Num cenário de filme trash, só faltava dar polícia. Agora não falta mais.

Durante a semana passada, Cyborg foi tirar satisfação com Angela Magaña a respeito de uma brincadeira muito da canalha feita pela americana. No Instagram, Angela comparou Cris com Jigsaw, o boneco tosco da série Jogos Mortais. Puta da vida, Cyborg enquadrou Magaña e enfiou a mão na cara da peso palha. Tipo se o Conor McGregor, que sofre para chegar no peso pena, metesse um soco no Marcus Paulo Marcote ou no Gilberto Cangaceiro.

A confusão entre Cyborg e Magaña aconteceu durante o UFC Athlete Retreat, evento que inaugurou a nova sede da organização e que contou com cerca de 300 atletas do plantel do UFC – não me pergunte o que Magaña estava fazendo lá. Para piorar, funcionários do UFC deram queixa na polícia de Las Vegas contra a agressão da brasileira. Dana White veio a público dizer que foi algo muito sério e que estava esperando a polícia tomar uma decisão.

O que estão esperando para acabar o que não devia ter começado? Confirmem logo a luta entre Cyborg e Anderson, com o cinturão vago em jogo, e fechem a categoria antes que aconteça mais alguma coisa bizarra. Antes que o UFC me apareça com Charmaine Tweet (que já perdeu para Anderson, Cyborg e Ronda), de 40 anos, ou Latoya Walker (que perdeu para Tweet) e Peggy Morgan (que perdeu para Walker e Anderson), ambas com 37 anos.