Germaine de Randamie é a primeira campeã do peso pena e Anderson Silva volta a vencer no UFC 208

No UFC 208, o muay thai supera o boxe e Germaine de Randamie leva um cinturão do UFC de volta à Holanda pela primeira vez desde 1999. Antes, Anderson Silva quebrou jejum de quatro anos e meio com vitória controversa.

A história foi escrita duas vezes no Barclays Center, na volta do UFC ao estado de Nova York. Na luta principal do UFC 208, Germaine de Randamie venceu Holly Holm e se tornou a primeira campeã do peso pena na organização. De quebra, voltou a levar o cinturão mais importante do MMA mundial para a Holanda desde que Bas Rutten recebeu uma vitória de presente contra Kevin Randleman, em 1999.

Pouco aconteceu na primeira metade do assalto inicial devido ao enorme respeito de ambas e os estudos de ações. Por causa disso, Holm teve vantagem por controlar a distância. Porém, quando a holandesa entendeu a movimentação da americana, conseguiu encurtar e acertar os melhores socos e chutes, além de apresentar boa capacidade de retaliação. Holm tentou uma queda para variar, mas quase foi derrubada no contragolpe.

O cenário na segunda etapa foi parecido, com De Randamie levando vantagem na troca de golpes. A diferença foi que Holm buscou mais a queda, mas ficou muito tempo parada na grade, situação em que ainda levou joelhadas no thai clinch. No final, na saída de um clinch, Germaine acertou um forte soco e uma cotovelada ainda mais brutal, mas a buzina já tinha soado. Quase que a americana foi para a vala.

Atrás no placar por 20-18, Holm tentou ser mais agressiva no terceiro, mas os contragolpes da holandesa continuaram entrando. Com a defesa de quedas em dia, De Randamie seguiu controlando as ações até que um chute alto maravilhoso de Holm explodiu em sua cabeça. Germaine retornou com fúria e voltou a acertar a adversária após a buzina, mas dessa vez pareceu ter sido de propósito, o que rendeu uma bronca do árbitro central – e ficou barato, pois um ponto poderia ter sido deduzido ou até mesmo a desclassificação da europeia. De qualquer maneira, tínhamos 30-27 àquela altura.

Germaine de Randamie levou vantagem na curta distância contra Holly Holm (Foto: Anthony Geathers / Getty Images)

Germaine de Randamie levou vantagem na curta distância contra Holly Holm (Foto: Anthony Geathers / Getty Images)

Holm finalmente conseguiu impor alguma vantagem no quarto assalto, mas ainda assim deu margem para interpretação. Ela voltou a ficar muito tempo presa no clinch na grade e novamente recebeu joelhadas da posição, mas ficou mais tempo em posição dominante e aparentou ter acertado um maior número de golpes. Holly então deveria adotar uma postura agressiva para conseguir uma interrupção no quinto assalto, mas voltou a insistir no clinch. Germaine aceitou o jogo, defendendo as tentativas de queda e pontuando com joelhadas no thai clinch. A maior pressão de Holm até lhe valeu a vitória no round, mas já não adiantava nada.

Mesmo dando o benefício da dúvida para Holm no quarto round, Germaine de Randamie venceu o combate por 48-47 na contagem do MMA Brasil e dos três juízes oficiais, que não aprontaram nenhuma cachorrada pelo menos na luta principal. No final das contas, não ter tirado ponto de Germaine impediu que o UFC 208 acabasse com o título vago.

Sentada ao lado do octógono, Cristiane Cyborg observou o combate como se estivesse analisando sua próxima vítima. A brasileira ainda precisa se livrar de um processo de doping que corre na USADA antes de ser confirmada como a primeira desafiante da holandesa. Na entrevista dentro do octógono, De Randamie foi questionada sobre uma possível luta contra a curitibana, mas se esquivou dizendo que tinha que operar uma contusão sofrida em… 2015!

Anderson Silva vence – com resultado polêmico – pela primeira vez desde outubro de 2012

Em combate de elevado índice de nervosismo, especialmente de Derek Brunson, mas de nível técnico limitado, apesar da presença de Anderson Silva, um resultado controverso fez o brasileiro sair da fila de quatro anos e meio.

Anderson Silva contou com a ajuda dos juízes para vencer Derek Brunson (Foto: Frank Franklin II / Associated Press)

Anderson Silva contou com a ajuda dos juízes para vencer Derek Brunson (Foto: Frank Franklin II / Associated Press)

Brunson começou a luta claramente receoso por ter uma lenda do tamanho do Anderson do outro lado. O brasileiro estava focado, defendeu a primeira tentativa de queda, acertou alguns bons golpes e chegou a balançar o rival. Porém, mais na vontade do que no talento, o americano conectou vários socos pesados, especialmente uppercuts, quando a luta ficou no dirty boxing. No fim, o “Spider” lançou uma joelhada voadora fora de tempo e acabou derrubado. Brunson saiu com 10-9 na primeira parcial, mas foi um round apertado.

O americano seguiu tenso no segundo assalto e telegrafou a maioria das entradas de quedas, o que facilitou o trabalho defensivo de Anderson. O ex-campeão foi pegando confiança, apesar de não ter sido contundente. Brunson voltou a acertar os golpes mais contundentes, mas o fez em menor volume e deu margem para interpretações variadas no assalto. Na minha contagem, Anderson empatou a luta, mas não seria nenhum absurdo se Brunson estivesse com 20-18.

O terceiro assalto foi mais fácil de marcar. O cenário seguiu parecido, com Anderson acertando golpes eventuais e errando na estratégia de encaixar as pancadas de Brunson – por mais que tenha queixo, isso só fez com que Derek pontuasse. Para não deixar dúvida, Brunson conseguiu uma queda e manteve o Spider, que já parecia desgastado, no chão até quase o fim. O 10-9 do terceiro assalto teria garantido a vitória do americano por 29-28 na pior das hipóteses, mas não foi assim que os juízes oficiais viram a luta.

Quando Bruce Buffer anunciou que foram marcados dois 29-28 e um 30-27, na hora pensei que Brunson tinha vencido. Porém, mais uma vez Eric Colon aprontou: ele teve a pachorra de conceder todos os rounds para o brasileiro. Derek Cleary e Doug Crosby foram os outros juízes – Crosby já havia sido bizarro no card preliminar ao marcar 30-27 para Phillipe Nover, numa luta que ele perdeu para Rick Glenn, além de ter sido conservador ao dar 30-27 no passeio aplicado por Islam Makhachev sobre Nik Lentz.

Ronaldo Jacaré faz o óbvio e pega Tim Boetsch no primeiro round

Quase ninguém entendeu porque marcaram Ronaldo Jacaré contra Tim Boetsch, mas quase todo mundo imaginava o resultado. Não deu outra.

Punhos erguidos para evitar que uma mão vadia acerte o que não deva. Assim Jacaré se posicionou para encontrar a brecha para a queda. A primeira tentativa foi péssima, atirada de longe e facilmente defendida por Boetsch. Quando um soco do americano passou tirando tinta da trave, o capixaba entrou em ação de verdade. Jacaré jogou um soco para fintar, se aproximou e derrubou. No chão, foi ridículo. O superastro da arte suave deu um passeio no jiu-jítsu e não teve o menor trabalho para pegar uma kimura na marca de

Luta agarrada garante vitória de Glover Teixeira sobre Jared Cannonier

Enquanto o duelo esteve em pé, Jared Cannonier dominou as ações. O problema do americano foi que esses momentos foram poucos. Glover Teixeira mostrou superioridade na luta agarrada e levou uma decisão com poucos sustos.

A velocidade dos punhos, jogo de pernas e movimento de cabeça de Cannonier estavam bem no começo do combate. Isso fez com que Glover procurasse o atalho da queda. No chão, o americano tentou se defender, mas o mineiro tentou uma guilhotina. Quando Teixeira posicionou um katagatame, Cannonier defendeu bem na meia guarda, pressionando o joelho do rival. Glover conseguiu montar, Cannonier reposicionou a meia guarda. Glover levou para a grade, Cannonier fez o wall-walk e se levantou. Uma rápida pressão na troca de golpes deixou o americano terminar melhor, mas o round foi do brasileiro.

Mesmo cenário na abertura do segundo assalto. Cannonier era melhor no boxe, mas imprestável para defender o single leg. O americano tem uma guarda defensiva boa, mas defesa hoje em dia não ajuda ninguém na pontuação. Serviu para evitar levar punição do oponente e contou com a ajuda do árbitro, que mandou os lutadores voltarem ao centro, de pé. Foi quando o americano mudou novamente o panorama. Os jabs entraram com consistência, carimbaram a cabeça de Glover. O jogo de pernas e movimento de cabeça fizeram com que o brasileiro jogasse muitos golpes no vento.

Com uma defesa de quedas lamentável, Cannonier novamente deixou Teixeira derrubar no high crotch e deu adeus às chances de anotar a maior vitória de sua carreira. Glover montou três vezes, bateu por cima da atividade defensiva do oponente por baixo, pegou as costas e garantiu a vitória com um 10-8 no terceiro e 30-26 no geral, mesmo placar anotado pelos três juízes.

Intensidade e versatilidade de Dustin Poirier dão conta do desgastado Jim Miller

Depois de anos se metendo em guerras, o corpo de Jim Miller não aguenta mais. Contra um jovem cheio de disposição como Dustin Poirier, a situação não era muito animadora.

Miller começou melhor, variando o boxe, acertando cabeça e corpo. Poirier percebeu e passou a minar a base dele chutando as penas. Isso abriu oportunidade para a movimentação e fluidez do jovem virarem o round. Quando a parcial se encaminhava para o fim, Miller conseguiu derrubar e pegar as costas, mas não foi suficiente para impedir o 10-9 a favor de Poirier.

O segundo assalto começou como o primeiro, com o boxe do veterano dando as cartas até que os chutes baixos de Poirier serviram como base para a virada. Os punhos do “Diamante” passaram a entrar em combinações duras, que balançaram Miller em algumas oportunidades. Sujeito duro, Jim resistiu, tentou atacar em resposta, mas o desgaste de inúmeras batalhas cobram o preço. Mais potente e mais intenso, Poirier obrigou Miller a buscar as quedas, mas a defesa estava em dia. A um minuto do fim, foi a vez de Poirier derrubar e cair por cima. Miller saiu rápido do prejuízo no chão, mas voltou a ter em pé.

A pressão do segundo round arrefeceu Miller. Por outro lado, Poirier parecia dosar energia quando conseguiu agarrar a perna do adversário e colocá-lo de costas para o chão, posição em que começou a esmagar Miller contra a grade. Poirier perdeu a posição, deixou Miller na vantagem na grade, mas o veterano tentou uma finalização na perna mal executada e ficou em posição ruim. Em seguida, Jim atacou com uma americana e terminou a luta sendo bombardeado no ground and pound.

No fim da luta, Poirier recebeu atendimento na perna, o que pode explicar o ritmo mais comedido do terceiro round. Na contagem do MMA Brasil, 30-27 para Dustin Poirier, mesmo placar anotado por Chris Lee, um dos juízes oficiais. Derek Cleary viu 29-28 para Poirier, enquanto o amalucado Eric Colon anotou empate em 28-28.