Georges St. Pierre está de volta ao UFC: decisão correta ou legado em risco?

Money fights ou o primeiro campeão em três categorias no UFC? Seja qual for o rumo da volta de Georges St. Pierre, as atenções estarão voltadas para ele num momento em que as estrelas estão apagadas.

Depois de meses de especulações e negociações nada tranquilas, finalmente mais uma novela chegou ao fim. E com final feliz para quem gosta do esporte. Georges St. Pierre, um dos mais vitoriosos e talentosos lutadores da história do MMA, acertou seus ponteiros com o UFC e assinou um novo contrato com a organização líder do mercado mundial.

O maior meio-médio que o MMA já viu em ação havia decidido encerrar a carreira ainda no octógono após vencer Johny Hendricks, num resultado controverso, na luta principal do UFC 167, evento que comemorou os 20 anos do UFC, em novembro de 2013. Na época, em meio a informações vagas, o superastro canadense havia dito que o pouco combate ao doping era um dos motivos que fizeram com que ele tomasse a decisão de se aposentar.

De lá para cá, muita coisa mudou. O cinturão, que ele dominou com mão-de-ferro desde 2007, não esquentou lugar na casa de ninguém: Hendricks ganhou o título que ficou vago, perdeu na primeira defesa para Robbie Lawler, que colocou em jogo em duas guerras antológicas antes de ver Tyron Woodley tomá-lo. E o atual campeão escapou com um empate quando defendeu no fim do ano passado. A competitividade acirrada pode ter empolgado St. Pierre a retornar.

A guerra contra o doping também teve uma reviravolta. O UFC montou uma parceria com a USADA, principal órgão regulador dos Estados Unidos. O cerco fechou como nunca se viu na história do MMA e sobrou até para várias das maiores estrelas do esporte, chegando ao ponto de cancelar a luta principal do UFC 200 na semana do evento. Jon Jones, Anderson Silva e Brock Lesnar foram alguns dos punidos pela USADA.

Georges St. Pierre passou a Conor McGregor o posto de maior estrela do MMA

Georges St. Pierre passou a Conor McGregor o posto de maior estrela do MMA

Até mesmo a questão da popularidade virou. Quando GSP resolveu parar, jogou o UFC num buraco. No ano seguinte, nenhum card vendeu mais de 550 mil pacotes de pay-per-view. Lesnar, maior fenômeno comercial do MMA na época, se aposentara em 2011. Anderson, que se tornara um porto seguro de vendas, viu seu reinado ruir e passou 2014 se recuperando de uma horrenda fratura na perna. Com a aposentadoria de St. Pierre, o UFC só deu sinais de recuperação em 2015, com a ascensão de Ronda Rousey e, principalmente, Conor McGregor, que se tornou a maior “galinha dos ovos de ouro” de Dana White. Quando Ronda e Conor passaram a enfileirar mais de um milhão de pacotes vendidos consecutivamente, parecia que o UFC não precisaria mais de Georges.

Aos 35 anos (fará 36 em maio), dono de cartel de 25 vitórias e apenas duas derrotas, ambas vingadas, St. Pierre retornará carregando também uma série de 12 triunfos desde a surreal derrota para Matt Serra, considerada por muita gente como a maior zebra da história do MMA. Popular, consagrado, rico, o “Rush” não precisava voltar à rotina que o estressou. Porém, a chama do guerreiro, do competidor, ainda pulsa. E a pergunta que vem à tona é: o que esperar deste retorno?

Três anos e meio parado é tempo demais em qualquer esporte, especialmente um em que o timing é fundamental para você não acordar com a lanterninha do médico no olho. É tranquilo dizer que a maioria voltaria exalando ferrugem em todos os poros. Contudo, cabe reforçar que Georges St. Pierre é líder da classe dos “dominicks”. Superatleta, provavelmente o mais bem condicionado que o MMA já viu, GSP já ficou 20 meses fora e voltou na ponta dos cascos, na vitória sobre Carlos Condit, no UFC 154. É verdade que não estamos mais em 2012 e o canadense não tem apenas 31 anos, mas alguém acredita que ele tomaria a decisão de retornar se não se sentisse fisicamente em condições plenas? Não um sujeito obcecado com perfeição como ele.

Se olharmos para o que se tornou a categoria dos meios-médios, parar foi uma decisão sensata para St. Pierre, que estava mentalmente esgotado. Cada disputa de cinturão se tornou uma batalha de proporções bíblicas e, naquelas circunstâncias, St. Pierre acabaria caindo mais cedo ou mais tarde. Parou na hora certa. Recobrou as energias. Sentiu o tesão de lutar aflorar novamente. Recuperou a máquina dos desgastes de anos de carreira.

Desde que GSP saiu de cena, disputas do cinturão dos meios-médios viraram batalhas viscerais

Desde que GSP saiu de cena, disputas do cinturão dos meios-médios viraram batalhas viscerais

O momento da volta não poderia ser melhor, pelo menos para o UFC. McGregor se deu férias e não tira da cabeça a estapafúrdia (e milionária) ideia de enfrentar Floyd Mayweather Jr. no boxe. Rousey carrega duas derrotas vexatórias seguidas e não se sabe se ela voltará um dia. Lesnar se aposentou definitivamente, Anderson parece ainda estar lutando apenas para se divertir e Jones… bem, Jones não para de se meter em confusão. Depois de 2016 fazer o dinheiro sair pelo ladrão no UFC, é sempre bom contar com mais um capaz de vender um milhão de pacotes e lotar ginásios. Mesmo que, para isso, talvez tenha sido necessário rever alguns pontos da negociação com a Reebok (GSP ganha rios de dinheiro da Under Armour) e que a WME-IMG, nova dona do UFC, tenha que ter negociado com um cliente de sua maior concorrente.

Negociar a saída da aposentadoria não foi nada fácil. A volta em si também não será. St. Pierre teria moral para pegar apenas lutas despretensiosas – as money fights – e continuaria vendendo muito. Num ano em que Artem Lobov e Cub Swanson farão uma luta principal, imagine GSP contra Anderson? Mas parece que não será este o cenário.

Desenha-se uma possível chance pelo título dos médios contra o campeão Michael Bisping, que já havia falado sobre negociações em curso neste sentido. Caso se concretize, Yoel Romero e Ronaldo Jacaré levarão um balão duplo. Dana White falou ainda da possibilidade de GSP encarar o vencedor da revanche entre Tyron Woodley e Stephen Thompson, pela coroa que o astro abdicou em 2013 – se o balão em Romero e Jacaré não parece justo, o mim acher em Demian Maia é totalmente aceitável. O dirigente disse ainda que Georges pode lutar no peso leve, o que provavelmente arrancaria McGregor do sofá, num duelo que esmagaria todos os recordes econômicos do esporte.

Os riscos do retorno são enormes, tanto para a reputação quanto para a saúde de St. Pierre. Porém, diretamente proporcional será o lucro da empreitada em caso de sucesso. Ser campeão em três categorias seria, disparado, o maior feito da história do MMA, o que enterraria em definitivo a discussão sobre quem é o maior de todos os tempos.