Por Idonaldo Filho | 15/02/2020 14:15

É um momento histórico para o MMA europeu. Agora é oficial: o esporte não é mais banido em território francês. Finalmente, após anos de discussão sobre o assunto e muita resistência, o país europeu está se preparando e deve em breve receber eventos de MMA oficialmente. Na última sexta-feira o Ministério de Esportes do país confirmou a aprovação por parte do comitê nacional olímpico de esportes. A FFBoxe (Federação Francesa de Boxe) foi escolhida e será a responsável pelo esporte nos próximos dois anos.

O MMA como conhecemos foi banido na França em outubro de 2016. Na época, o Ministério de Esportes proibiu qualquer tipo de esporte de combate realizado em um cage, além de não permitir nenhum tipo de golpe no solo e proibição definitiva de qualquer tipo de cotovelada – o que fez o MMA francês bastante similar ao pancrácio. Eventos realizados na França seguem essas regras diferentes dos demais eventos ocidentais, impossibilitando que grandes promoções adentrassem no território francês com a realização de cards.

Como salientou o ex-atleta Tom Duquesnoy em entrevista ao MMA Brasil, muito da proibição do esporte se deu por lobby da IJF (Federação de Judô Internacional), que é fortíssima na nação, contando com vários membros inclusive fazendo parte da política local. A história é similar ao que acontecia na Tailândia, onde o MMA era banido muito devido a pressão que autoridades relacionadas ao muay thai exerciam para que não houvesse a liberação no país.

Alguns comentários de autoridades franceses ligadas ao judô demonstram o preconceito com o MMA que existiu por muito tempo dentro dos órgãos responsáveis por esportes de combate na França. Em 2014, o presidente da IJF comentou que “a migração de judocas para outros esportes contaminaria espiritualmente o judô”. Secretário Geral da mesma entidade, o francês Jean Luc Rouge disse que “lutadores de MMA são estúpidos”, além de falar que “MMA seria refúgio para jihadistas”.

Eventos sempre existiram na França, mas respeitando as proibições que limitam o repertório dos lutadores, o principal é o 100% Fight, promoção francesa que iniciou seus trabalhos em 2008 e já realizou mais de 40 cards. Como podem perceber neste compilado, golpes contundentes acontecem apenas na trocação com ambos em pé.

Algumas organizações já mostram interesse em realizar eventos no país. Dana White quer Francis Ngannou encabeçando o primeiro evento do UFC na França. O Bellator – que com muita frequência vai até a Europa – também mostrou interesse, contando com Cheick Kongo em seu plantel. Evento britânico, o Cage Warriors possuí em Samir Faidinne um campeão francês e, seu presidente já disse que busca marcar um evento ainda neste ano.

Liderado por Fernand Lopez – conhecido por treinar Francis Ngannou e Cyril Gane -, o ARES FC estreou nesse ano em Senegal e tem o objetivo de se firmar na França, com sede em Paris. Contando com o super prospecto Salahdine Parnasse como um de seus campeões, o KSW também demonstra interesse em atuar no mercado francês, mas no ano de 2021.

Campeão do KSW, Salahdine Parnasse é o principal prospecto francês fora do UFC

Focando apenas no UFC, a França pode ser um grande mercado a ser explorado. Com o maior desenvolvimento do MMA local, há tendência de surgimento de prospectos para alimentar o líder do mercado. Atualmente são cinco atletas ligados a nação (Francis Ngannou, Cyril Gane, Cyril Asker, Fares Ziam Zarah Fairn), mas os cards tem potencial de abrigar outros atletas europeus, aproveitando também para testar o quão lucrativo será promover eventos em um dos países mais ricos do mundo. O Glory Kickboxing por exemplo, constantemente vai até o país do savate justamente pela tradição do país no striking e pela boa quantia de lutadores em seu plantel.

Resta acompanhar de perto os desdobramentos da liberação do esporte em território francês, da atuação da comissão, seleção de árbitros e juízes além de possíveis regras para pesagem, entre outras. Mas isso sem dúvidas é mais uma vitória para o MMA não só na Europa – que ainda tem na Noruega um país onde o MMA é proibido -, mas em um nível internacional.