Fedor Emelianenko diz que russos dispensam sua ajuda e toca em problema comportamental do MMA

Por Alexandre Matos | 05/03/2015 16:32

Se você fosse um jogador de futebol, gostaria de receber dicas de Pelé, Romário ou Baresi? E se jogasse basquete, seriam úteis ajudas de Michael Jordan, Magic Johnson ou Kobe Bryant? Pete Sampras, Bjorn Borg ou Roger Federer lhes teriam valia se você fosse um tenista?

Caso tenha respondido “não” a qualquer uma das perguntas acima, sinto informar que você tem algum problema.

Enquanto muitos superatletas se escondem em seus mundinhos se achando acima do bem e do mal, outros se colocam à disposição para compartilhar seus valiosos conhecimentos técnicos, táticos, físicos, estratégicos ou seja lá o que os fizeram se tornar lendas em seus esportes.

O segundo exemplo é o de Fedor Emelianenko, tido como o maior peso pesado da história do MMA – e há quem o considere o maior lutador que já pisou num ringue ou cage de artes marciais mistas em qualquer categoria de peso ou época. Para um atleta profissional que não atingiu o status de lenda, dispensar ajuda de alguém como Fedor (ou Pelé, Sampras, Jordan, Phelps, Montana) soa ridículo. Ao menos ouvir o que eles têm a dizer. Paga-se fortunas para palestras e seminários com gente deste gabarito, até mesmo para empresários bem-sucedidos de qualquer ramo, porque o que eles têm para passar é valioso demais.

Fedor deu uma entrevista muito interessante ao site da M-1 Global, empresa que cuidou de seus interesses enquanto esteve na ativa como lutador. O “Último Imperador” falou de seu começo no esporte, dos primeiros treinadores e até do fato de não gostar muito do apelido (remete ao czar Nicolau II, o Sanguinário, derrubado e executado pelos bolcheviques na Revolução Russa de 1917). No final, Emelianenko falou que sua importante ajuda é dispensada pelos lutadores russos.

Fedor Emelianenko:

“Eu vejo que poderia ajudar muitos dos nossos caras (lutadores russos de MMA). E mais: posso ver as falhas que Cain Velasquez e Junior dos Santos costumam cometer. É claro que Velasquez é o melhor em nosso tempo, mas eu vejo seus buracos. Ainda não consigo entender porque nossos lutadores não podem pegar o que eu poderia dar a eles. Ou então eles simplesmente não querem.

Muitos dos nossos lutadores se consideram rodados e experientes. Eles rejeitam minha ajuda muitas vezes. Então eu apenas trabalho com os iniciantes. É mais fácil trabalhar com eles.

Claro, agora eu sou um executivo (Fedor é o presidente da Federação Russa de MMA). Agora eu tento desenvolver o MMA em nossas regiões. Tento fazer tudo o que depende de mim. Porém, não importa, eu sou uma pessoa do esporte. O MMA estará no meu sangue até o fim.”

Apesar da aparência que rendeu o gentil apelido de "padeiro", Fedor Emelianenko é um dos maiores da história do MMA

Apesar da aparência que rendeu o gentil apelido de “padeiro”, Fedor Emelianenko é um dos maiores da história do MMA

É claro que este é apenas o lado de Fedor, não o de Khabib Nurmagomedov, Rustam Khabilov, Vitaly Minakov e outros astros russos. Pode ser que um deles apareça um dia dizendo que gostaria muito de treinar com ou ser aconselhado pelo ex-campeão do PRIDE, mas que o mito cobra os olhos da cara pela consultoria, ainda que este não pareça ser o perfil de Emelianenko, que recusou uma bolada estratosférica para assinar com o UFC.

Há também a possibilidade de Vadim Finkelstein, presidente da M-1 Global, ter interferido no processo, visto que ele tem forte ingerência sobre Fedor, a ponto de ter ajudado a não se concretizar o acordo do ex-lutador com o UFC. Vadim não é exatamente querido pelos lutadores, tanto que vira e mexe enfrenta problemas judiciais com vários deles.

Fora essas hipóteses, é bem possível que Fedor tenha falado a verdade. MMA é um esporte estranho: ao ponto em que é a mais viril das práticas esportivas, é talvez também o esporte que mais sofre com melindres entre seus praticantes. É um tal de lutador ofendido porque alguém considerou o adversário favorito, jornalista acusado de “antipatriótico” porque palpitou no título de terceiros, campeão chateado porque outro o desafiou. Tem horas que parece que estamos cobrindo o sub-12 dos Jogos Estudantis e não um esporte de adultos que ganham a vida trocando socos. E, numa sociedade e esporte machistas, cabe reforçar que este comportamento é bem mais comum entre os atletas masculinos do que com as mulheres.

Sabe-se lá porque os melhores atletas russos renegam ajuda de Fedor. É bom lembrá-los que, fora Minakov, nenhum deles atualmente ostenta um cinturão mundial de primeira linha, apesar do inegável crescimento da modalidade na Rússia. Desprezar a ajuda de alguém como Emelianenko é jogar contra o próprio gol. Sorte dos iniciantes que têm o privilégio de começar sob a orientação de uma lenda que ficou 10 anos invicto, venceu todas as suas lutas no PRIDE e bateu cinco ex e futuros campeões do UFC.

O MMA ainda precisa se ver livre de algumas frescuras para ser levado mais a sério.