Eu tenho 99 dúvidas, mas Ernesto Hoost não é mais uma delas

A coluna de entrevistas do MMA Brasil abre 2017 com Ernesto Hoost, o maior lutador da história do K-1. O holandês bateu um papo com Pedro Carneiro via Whatsapp e falou até de momentos difíceis da carreira.

Trabalhar no mundo da luta já me deu várias alegrias. Tenho memórias incríveis, histórias sensacionais, fiz amigos amados e conheci atletas pelos quais tenho grande admiração. Esta entrevista é mais um desses momentos em que você recebe a recompensa pelo trabalho (divertido, mas trabalhoso). É aquele dia que você consegue conversar com alguém que só era visto nas fitas das locadoras ou nas madrugadas assistindo à televisão. É o dia em que entrevistei o “Mr. Perfect”, o “Pelé da luta em pé”, o lendário Ernesto Hoost.

O K-1 foi durante anos a maior organização de striking do mundo. Lá surgiram várias lendas dos esportes de combate e Hoost foi a lenda dentre as lendas. Quatro vezes campeão do Grand Prix do K-1 (1997, 1999, 2000 e 2002), o holandês era um lutador completo e imprevisível, com os violentos chutes baixos como marca registrada.

Nesta entrevista, falamos da sua gloriosa trajetória, das vitórias e derrotas e, principalmente, sobre aquelas perguntas que sempre estiveram no imaginário dos fãs e nunca tiveram respostas. Com vocês, Ernesto Hoost.

Sua última luta foi em 2014. Você ainda quer lutar depois de todos esses anos? Quando você olha para trás e vê toda a sua trajetória, ainda há vontade e fome para alcançar resultados?

Um lutador sempre quer lutar um pouco mais. Naturalmente, quando você é mais velho, o risco é maior. Mas se eu lutasse, só iria para vencer. Isso significa que eu não iria querer lutar mais com os caras grandes, a não ser que fosse financeiramente muito interessante.

Você consegue entender sua importância para a história da luta? Como você lida com a idolatria dos fãs?

Tenho certeza que eu tenho importância e influência sobre o mundo da luta e estou orgulhoso disso.

O que você acha que foi seu diferencial no K-1 para alcançar o sucesso e tantas vitórias?

Eu sempre queria ser eu mesmo e não me envolver com coisas que poderiam me distrair. E sempre olhei os ídolos ao meu redor de uma forma positiva.

Existe um adversário em particular que você ainda deseja enfrentar?

Se eu fosse voltar a lutar, gostaria de uma luta contra (Bob) Sapp.

As duas lutas com Bob Sapp se tornaram objeto de debate ao longo dos anos. Permita-me fazer a pergunta que todos querem saber: o que aconteceu naquelas lutas (Hoost foi derrotado nas duas vezes que enfrentou Sapp)?

Essa vai ser sempre a grande pergunta! A verdade é que eu estava doente. Eu tinha enormes problemas de pele, que ainda tenho. Ainda estou consultando um médico até hoje por causa disso. Já na revanche, eu estava treinando além do que deveria, nervoso para não cometer erros por causa da pressão da derrota na primeira luta. Eu estava mal treinado. Johan Vos era um bom treinador (não nos últimos anos), mas um estrategista ruim.

Apesar de ser conhecido como Mr. Perfect, qual foi a sua maior força e sua maior fraqueza?

Força: eu não entro em pânico rapidamente e, na maioria das vezes, eu conseguia enxergar a luta como se estivesse de fora dela.

Fraqueza: eu poderia ter um poder de nocaute maior.

Ernesto Hoost (à esquerda) em ação contra Jérôme Le Banner, outra lenda do K-1

Ernesto Hoost (à esquerda) em ação contra Jérôme Le Banner, outra lenda do K-1

Como seria o Ernesto Hoost em uma luta de MMA?

Difícil saber. Eu nunca tive interesse em treinar no chão…

Quais são seus lutadores favoritos no K-1 e no MMA?

Eu não tenho um favorito no K-1. Já no MMA, adoro o estilo dos lutadores brasileiros.

Como você avalia o nível do kickboxing e do muay thai nos lutadores de MMA?

Embora estejam cada vez melhores, ainda acho que os lutadores de MMA podem evoluir bastante na parte em pé. O kickboxing em geral pode ser melhor, ataque e contra-ataque em particular.

Qual foi o melhor adversário que você enfrentou?

O mais difícil foi Peter Aerts, porque ele sempre pressionava muito.

Peter e eu lutamos pela primeira vez em 1988, quando ele substituiu meu adversário de última hora. Ele tinha apenas 17 anos. Eu venci. Cinco anos depois ele se tornou verdadeiramente um grande lutador e nós lutamos de novo no K-1. Dessa vez foi muito mais difícil, mas eu venci de novo. Na semifinal do K-1 de 1995 nós fizemos uma luta dura e ele venceu no round extra. Em 98, logo depois que conquistei o título, ele me venceu novamente depois de superar uma contagem de 8 no primeiro assalto.

Em 2006, ele salvou a noite depois que Sapp deixou a arena e nós fizemos uma luta meio fake fight para salvar o evento. Em 2014, nós lutamos pela última vez 26 anos após a primeira e eu venci por pontos.

Em todas as nossas lutas houve apenas dois knockdowns. Peter me dificultava muito porque ele sempre avançava e botava pressão. De todos os pesos pesados, ele é quem eu mais respeito.

Você sentia medo antes das lutas?

Dentre todas as minhas lutas, senti duas vezes algum tipo de medo. A primeira contra Jean Yves Theriault. Ele era campeão mundial de full contact, tinha mais de 50 nocautes na carreira. Era apenas a 12ª luta da minha carreira.

A segunda vez foi contra Mike Bernardo. O motivo foi porque era o Mike Bernardo! Eu quase não consegui dormir na noite anterior, mas, no dia seguinte, consegui nocauteá-lo.

Por que um garoto nos anos 1980 se interessou pelo mundo da luta?

O jogo parecia interessante, e ainda é. Foi coincidência. Eu comecei no kickboxing e pareceu logo que eu tinha talento para aquilo, mais do que eu tinha no futebol.

Na sua opinião, quem é o melhor lutador de todos os tempos no K-1 e no MMA?

Difícil dizer. No K-1, talvez Aerts. No MMA, talvez Fedor Emelianenko. O que faz de Fedor especial é a habilidade de fazer a diferenciação entre a academia e o ringue. Ele é muito melhor no ringue.

Quais são os seus planos para o futuro?

Eu gostaria de fazer programas de TV sobre luta.

Você poderia enviar uma mensagem para os seus fãs do MMA Brasil?

A todos os fãs do MMA Brasil, eu espero voltar ao Brasil e poder ensinar minhas habilidades. Continuem me seguindo! Obregado! (aquela tentativa de gringo dizer obrigado)