Por Alexandre Matos | 12/11/2018 11:08

Os primeiros vestígios do boxe na Humanidade datam de cinco mil anos atrás, na Suméria, região ao sul da Mesopotâmia, atualmente ali pelo sul do Iraque e Kuwait. Um bom tempo depois, a atividade tomou forma de esporte, ganhou algumas (poucas) regras e passou a fazer parte do programa olímpico na Grécia Antiga. Os gregos consideravam o mais nocivo dos esportes. Descrições sangrentas são encontradas na literatura, inclusive narrado por Homero, na Ilíada.

Anos passaram e a modalidade ganhou mais regras (ainda não muitas). Vieram as regras de Broughton, as do Marquês de Queensberry. O esporte passou a ter rounds, um espaço definido, contagem para knockdowns, ingressos passaram a ser cobrados e os boxeadores começaram a receber bolsas no prizefighting. Até o marquês promulgar a utilização de luvas, os pugilistas trocavam socos a mãos nuas, situações chamadas em inglês de bare knucle fighting (algo do tipo luta de juntas nuas). Pela natureza violenta e por ser um espetáculo um tanto dantesco, o boxe foi considerado fora da lei por muito tempo, em vários lugares.

A adição de luvas ajudou o boxe a ganhar legitimidade e popularidade. Há que se reforçar sempre que as luvas não foram criadas para reduzir o impacto no rosto do lutador, mas sim para evitar que as mãos fossem quebradas. Nos tempos antigos, a carreira – e a vida – de um boxeador eram breves não só porque suas mãos iam para o vinagre, mas porque as pancadas de punhos secos causavam lacerações e danos de osso chocando contra osso.

Hoje em dia, o boxe é apelidado de nobre arte, ou sweet science, em inglês. Ninguém mais luta centenas de rounds até o primeiro ir para a vala; quebrar as mãos passou a acontecer bem mais raramente. Embora ainda com uma conotação agressiva, o esporte foi suavizado, ganhou o mainstream, passou a atrair milhões e a movimentar bilhões ao redor do mundo. O principal responsável foi a adoção das luvas, que proporcionaram o desenvolvimento técnico da modalidade. O boxe deixou de ser aquele troço tosco dos séculos anteriores para se tornar, sim, uma arte. Uma arte agressiva, que ainda causa danos, mas uma arte. Com luvas, passou a ser possível combinar mais golpes de naturezas diferentes. E, ainda, o efeito visual que tanto incomoda os que não estão acostumados ao esporte, ficou também mais suavizado.

Por que, a uma altura dessas, resolvi puxar este assunto? Porque algum jênio achou de bom tom voltar aos tempos de trocar soco na mão limpa em plena passagem de 2018 para 2019. Depois de um longo e tenebroso inverno até ser socialmente aceito, o boxe volta a tempos incivilizados.

Na última sexta-feira, aconteceu no estado americano do Wyoming (claro que não seria na Califórnia, Nova York ou Nevada) a primeira edição do WBKFF, a World Bare Knuckle Fighting Federation, organização presidida por Bas Rutten, ex-campeão dos pesados do UFC e lutador de vale tudo nos primórdios do MMA. Rutten convocou uma penca de lutadores de MMA decadentes e/ou ruins tecnicamente e montou um card para eles trocarem socos apenas com uma bandagem no punho, mas com os knuckles (os nós das mãos, as juntas) nus. Aliás, a WBKFF nem é pioneira. O Bare Knuckle Fighting Championship já tinha estreado mais cedo neste ano, não estranhamente também no Wyoming.

Para surpresa de ninguém, promoveram um espetáculo tosco. Sem contar fraturas expostas, cortes profundos e mais sangue do que no boxe e MMA, o que se viu tecnicamente foi deplorável. Não só porque tinha apenas acabados, perebas ou perebas acabados lutando. A questão é que faz-se necessária uma técnica apurada e um senso tático diferenciado para trocar socos de mãos nuas. Lutadores de MMA já não são os mais exímios boxeadores, haja vista a vergonha que Conor McGregor passou frente a Floyd Mayweather. Imagine se falarmos de Dakota Cochrane, Isaac Vallie-Flagg, Phil Baroni, Johny Hendricks em formato de barril ou Chris Leben quase senil.

Enfim, a ideia aqui neste artigo não é cobrir saporra de evento ou dar visibilidade a essa parada. Só vim aqui para externar minha enorme decepção com tanta gente boa da mídia de MMA dando atenção positiva a isso. Cada um faz o que quiser da vida, mas, às vésperas da terceira década do século 21, o MMA Brasil não vai cobrir luta de mãos nuas.

E eu estou quase jogando meu bonequinho do Bas Rutten fora.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.