Por Edição MMA Brasil | 23/09/2018 00:38

Por Bruno Sader e Gustavo Lima

Era difícil saber o que esperar de um evento que perdeu tantas lutas, como o UFC Fight Night 137. E seu card preliminar não era exceção. No entanto, quem chegou cedo no Ginásio do Ibirapuera não se arrependeu, com lutas muito movimentadas, desde o primeiro embate da noite.

Em oito lutas, apenas duas decisões, entre nocautes espetaculares e finalizações precisas. Para coroar, festa da galera, com a vitória de quase todos os brasileiros. A equipe do MMA Brasil esteve no Ginásio do Ibirapuera e traz, diretamente da sala de imprensa e mesa na beira do octógono do UFC São Paulo, a palavra dos lutadores e nossas impressões para vocês.

Charles do Bronx finaliza mais um e quebra recorde de Royce Gracie

Depois de um início morno, com os atletas trocando golpes unitários que ficaram quase todos na guarda adversária, Charles do Bronx conseguiu o clinch na grade, mas teve a queda negada. Os dois voltaram ao centro do octógono e o paulista até conseguiu derrubar a um minuto do fim do round, mas Christos Giagos foi esperto e levantou sem prejuízos.

O segundo assalto começou com mais agressividade dos lutadores, com Do Bronx tentando golpes rodados e encurralar o americano que respondia com ataques de mãos, aplicando potência. Até que uma queda se revelou o início do fim para Giagos. Com enorme facilidade, o brasileiro passou para as costas, encaixou o mata-leão e forçou a desistência do americano.

Charles do Bronx, mais um atleta que contou com amplo apoio das arquibancadas (por ser paulista e treinar na Chute Boxe SP) ultrapassou Royce Gracie e conquistou a décima-primeira vitória por submissão no UFC.

Em entrevista coletiva pós-luta, Charles reiterou múltiplas vezes seu desejo de voltar aos penas e alegou que tem sido muito mais focado e disciplinado nos últimos meses de sua carreira.

“Cara, eu quero voltar de novo pra 66kg, quero lutar em novembro ou em dezembro, pode me chamar. Quero voltar pra 66, lá que eu quero ser campeão. Me joga no bolo, me joga pra cima dos melhores. José Aldo, Renato Moicano, o russo [presumivelmente Zabit Magomedsharipov]. Quero lutar.”

Joelhada precisa garante mais um nocaute para Francisco Massaranduba no Brasil

A tônica do primeiro round deste duelo de veteranos foi Evan Dunham buscando enganar o brasileiro com uma movimentação intensa e combinações curtas e velozes. Deu certo na maioria do tempo, porém em alguns momentos, Francisco Massaranduba fez uso de sua potência fora do comum para balançar o americano com um soco rodado, uma cotovelada no solo e um bonito chute na cabeça nos segundos finais. A luta seguiu neste roteiro, com a ignorância do piauiense dando cabo da maior técnica e velocidade do experiente americano.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Até que uma joelhada batizada pelo capiroto acertou em cheio as costelas de Dunham, que se dobrou e rolou mais que Neymar pelo octógono. Vitória do batalhador Massaranduba e fim de linha para o valoroso estadunidense que já havia anunciado que esta era sua última aparição no octógono.

Evan Dunham se despede das artes marciais mistas, corretamente aplaudido pelo público. Já o brasileiro, muito sincero e direto como de costume, avisou no microfone:

“Dana. Quero o Kevin Lee. Eu acordo todo dia pensando nesse cara! (…) Filhão! Papai bateu em mais um!”

Crias do Contender Series, Ryan Spann frusta retorno de Luis Henrique KLB, enquanto Sakai faz a festa da torcida em luta movimentada

Muito forte e com vantagem na envergadura, Ryan Spann controlou o início de luta com jabs velozes e contou com uma apatia inicial do brasileiro. No fim da parcial, Luis Henrique KLB com muita garra conseguiu diminuir o prejuízo, mas ainda assim viu o americano levar o primeiro assalto. Na volta do intervalo, Spann ameaçou seguir com o domínio ao encaixar bons golpes e aplicar uma contraqueda, caindo de guarda passada. Novamente com muito coração, o brasileiro inverteu a posição e passou a dominar o Superman com um ground and pound contido, mas de certa eficiência. Ao tentar uma guilhotina, Luiz Henrique acabou cedendo a posição e sofrendo até a buzina soar, mas já tinha garantido o empate parcial na luta.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

No round final, o carioca partiu para derrubar com urgência e com menos de um minuto já estava na guarda de Spann. Cansado, novamente cedeu a raspagem e passou sufoco por baixo, diante da força física do oponente. Dois juízes marcaram 30-27 e o terceiro concordou com o nosso 29-28, anotando decisão unânime para o estadunidense.

Outro estreante oriundo do programa de Dana White foi o brasileiro Augusto Sakai, que precisou de quase todos três rounds para dar cabo de Chase Sherman. Em uma luta movimentada mas de baixa qualidade técnica, o que predominou foi a trocação bruta e pouco refinada. Bom para Sakai, que teve mais fôlego e mais queixo para sobreviver. Fortes joelhadas no clinch e um ground and pound venenoso garantiram a interrupção.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Após a luta, Sakai apareceu na sala de imprensa com o braço imobilizado e se emocionou ao relembrar o começo difícil da carreira. O paranaense afirmou ter lutado a maior parte da luta com uma lesão.

“Acho que eu quebrei a mão logo no primeiro soco, dai já amorteceu né. Mas aqui é Brasil, nunca desisti. Posso estar sem braço, sem perna, mas nunca sem coração.”

Serginho Moraes e Mayra Bueno usam do jiu-jitsu para finalizar seus adversários

Jiu-jitsu salva? Nem sempre. Mas pode ser muito útil, como foi para os brasileiros Serginho Moares e Mayra Bueno na noite desse sábado em São Paulo. O veterano do TUF não deu chance para Ben Saunders e aplicou um passeio na luta agarrada durante toda luta. Na primeira parcial, o americano – que tentou uma omoplata no tricampeão mundial (obviamente sem sucesso) – foi salvo pelo gongo de uma chave de braço. Já no segundo round, o fim foi inevitável. Serginho caiu por cima mais uma vez e evoluiu na guarda até encaixar um belo katagatame.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Após a luta, Serginho falou sobre o próximo passo e expressou seu desejo de lutar novamente com a elite da divisão dos meios-médios:

“Espero lutar com um cara ranqueado, é o que eu penso. Não estou aqui pedindo porque preciso, é porque mereço. Eu também já fiquei quieto quando eu fiz lutas que não gostei. Já lutei contra top 5, como o Neil Magny […] Eu mereço estar entre os 10.”

Mais uma estreante da noite, a brasileira Mayra Bueno finalizou a adversária Gillian Robertson, mas não sem antes sofrer. Por conta de uma chave de joelho bem ajustada da adversária, Mayra mal conseguia se apoiar na perna esquerda. Mas isso não a impediu de, ainda no chão e nos últimos instantes do primeiro round, providenciar uma chave de braço para sair vencedora. A brasileira saiu do octógono de cadeira de rodas e muito aplaudida pelo público.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Sobre a luta e ainda na cadeira de rodas na sala de imprensa, Mayra falou que já planejava voltar os cages até o fim ano antes mesmo dessa primeira luta, plano que pode ter sido frustrado por sua lesão na perna:

“Eu ia pedir pra lutar no card da Cris Cyborg [UFC 232], mas vamos ver primeiro a gravidade da lesão, depois vemos o próximo passo.”

Mayra também falou um pouco sobre seu retrospecto pré-UFC e relativizou sua experiência em relação a quantidade menor de lutas no cartel.

“Na verdade, até no Contender Series me falaram isso: ‘você tem tão poucas lutas e tá aqui’. Mas é isso, eu lutei com as melhores do Brasil. Lutei com a Marília Chocolate que é duríssima e teve a primeira derrota pra mim, lutei com a Dai Fox, lutei com uma menina que tinha quase 70 lutas de boxe e uma derrota, lutei com a Mayana Kellen que tinha 8 vitórias e 4 ou 5 nocautes. Então eu acredito que mesmo tendo poucas lutas, eu tenho uma bagagem muito grande.”

Em sua última luta na carreira, Thales Leites aguenta chuva de chutes na perna e vira luta contra Hector Lombard

Foi difícil. Foi dolorido. Mas Thales Leites se despede do UFC com uma grande vitória. Depois de perder a primeira parcial, sofrendo muito com os chutes baixos do cubano em sua perna esquerda, o carioca ajustou a distância e controlou a trocação nos rounds seguintes. Thales não trocou de base – estratégia comum para quem está sofrendo com chutes na perna – mas conseguiu evitar os chutes com clinch, manutenção de distância e uma defesa de chutes mais bem posicionada.

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

E foi sobre esse ajuste tático que o veterano brasileiro conversou com o MMA Brasil, ao ser perguntado pela nossa reportagem sobre o que deveria ser feito para evitar os danos na perna e ganhar a luta:

“A estratégia era justamente jogar na distância, jogar dentro dele, até porque o que ele queria era encurtar a distância comigo e eu queria manter ele afastado. Eu queria usar a minha envergadura e ele, por ser menor do que eu, queria chegar e é o que ele sempre fez, já nocauteou muito e deu muitos knockdowns dessa forma, então a gente estudou bastante e eu sabia que tinha que manter a distância, ir conectando e frustrando ele. Então creio que fiz meu trabalho certo. Eu não troquei de base porque eu não sou um cara que joga bem com a outra base, então não ia adiantar, eu só ia me atrapalhar mais se eu trocasse de base. No começo eu tomei muitos chutes dele sim, mas eu chequei muitos chutes dele que entraram no joelho, só que o chute no joelho é um chute que o cara sente também e o pé dele provavelmente deve estar dolorido, assim como o meu está e o meu joelho também. Então os edemas que você tem na parte da coxa começam a descer e o golpe no joelho também, mas não foi nada, isso aqui são só hematomas mesmo, tá tudo bem.”

Thales aproveitou também para explicar porque abriu mão dos chutes altos no decorrer da luta:

“O chute alto é justamente pra manter a distância. Eu não posso estar mantendo ele distante sem colocar golpes, ele vai se aproximar mais de mim. Eu não queria ele próximo de mim principalmente no primeiro round, então insisti muito no chute alto que é um chute difícil de defender. O chute no corpo eu só dei a partir do segundo round, pois quando o cara está muito inteiro, o chute na costela ele defende melhor. O chute na cabeça ele já tem que checar com as duas mãos pra defender, se ele bota uma só o impacto vai balançar ele. Então ao meu ver essa estratégia foi perfeita. Eu ainda vou conversar com o Pedro e com o Dedé, eu tô muito feliz com a estratégia, acho que ouvi bastante meus córners e deu tudo certo.”

Depois de perder o primeiro round, Elizeu Capoeira consegue nocaute fulminante contra o estreante Vendramini

No único duelo de brasileiros da noite, o veterano Elizeu Capoeira recebeu o bom Luigi Vendramini na segunda luta do evento. Em um primeiro round muito apertado, Luigi conseguiu conectar mais golpes e fechou a parcial na frente. Com o sinal de alerta ligado, o veterano Elizeu fez o que dele se espera. Uma blitz feroz iniciada com uma joelhada fizeram o compatriota ir pro chão. Daí pro final, foi jogo rápido. Ao ser perguntado sobre estar fisicamente mais bem preparado esse fator ter influenciado em sua virada na luta, Elizeu foi enfático.

“Sim sim, senti que estava melhor e até por uma questão de experiência. Senti que ele estava cansado. Ele é um guerreiro, nem se fala, é um cara que tem ainda tem muito pra brilhar.”

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Capoeira também expressou grande desejo em lutar um top 15 e admitiu assumir uma postura que há muito tempo não assumia: pedir uma luta. Quando questionado se já pensava em algum nome, o paranaense soltou a resposta da ponta da língua.

“Claro! Robbie Lawler. Acho que é um cara que a gente poderia fazer uma grande luta. É um cara que é ex-campeão do evento, gosta de porrada que nem eu, tão cogitando aí [um evento] pra Curitiba, então quem sabe? Vamos lá, em Curitiba.”

Livinha Souza atropela a australiana Alex Chambers em sua estreia

A estreante Livinha Souza não deu chance para o azar contra a australiana Alex Chambers. Em atuação perfeita para abrir o evento, Livia pressionou na trocação desde o primeiro minuto. Ao encurralar a adversária na grade, a brasileira foi para queda e evoluiu no grappling até conseguir a vitória em uma guilhotina. Perguntada sobre a estratégia de luta e como o combate se transcorreu na noite dessa sábado, a brasileira explicou sua mudança de planos depois de um bom começo na trocação:

“Cara, eu vi umas três lutas dela e sempre que ela era acertada, ficava ferida e procurava o grappling até pra se recuperar. Quando eu joguei os dois overhands, vi que ela sentiu e vi que era hora de ser inteligente. Quando eu encurtei ela começou a sair na briga, vi a perna sobrando lá e coloquei ela pra baixo. Daí foi só fazer o trabalho, né? Senti o cheiro do sangue, fui mudando as posições gradativamente e hora que eu vi a transição perfeita entre as posições, primeiro eu fui tentar pegar ela pela montada, mas ela acabou escapando pelo meio das minhas pernas, eu consegui segurar o pescoço, ouvi ela com a respiração já meio apressada, vi os corners dela mandando segurar meu punho e hora que ela ergueu a mão eu já sabia que tinha acabado a luta e era só correr pro abraço.”

Crédito: Jason Silva-USA TODAY Sports

Por fim, ao ser questionada se teria interesse em algum combate especial, principalmente contra Angela Hill, sua única derrota na carreira, Livinha preferiu falar de uma luta que não aconteceu:

“Tem uma menina que eu admiro bastante e desde que eu era criança, tinha vontade de lutar, que é a Jessica Aguilar. Eu acabei me machucando em fevereiro e não consegui fazer a luta com ela, pedi desculpas via rede social. Sei que todos os atletas tem um camp com um custo e sei que eu meio que deixei ela na mão, mas foi uma lesão bem difícil. Foi a primeira da minha carreira, eu não conseguia nem pentear o cabelo direito. Só que eu sabia também que não era hora de arriscar tanto, não podia fazer isso com a carreira e os treinadores. E eu não penso em Angela Hill não, ela tem o espaço dela, tem lutado bem, independente do que aconteceu no passado agora, eu estou em outra fase, mas também se ela pintar eu vou lutar da mesma forma e esganar ela da mesma forma ou até pior. Mas eu pretendo sim lutar até Dezembro, vou falar com o Mick que eu gostaria de lutar com a Jessica Aguilar. Faz sentido na divisão, ela é uma atleta que também vem de vitória sobre a Esquibel, então Aguilar, espero você em dezembro.”

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