Erro duplo? UFC cria o peso pena feminino sem Cristiane Cyborg na disputa do cinturão inaugural

Por Alexandre Matos | 14/12/2016 13:47

Desde que o UFC abriu sua primeira categoria feminina, o peso galo (até 135 libras/61,2 quilos), em 2013, o MMA definitivamente voltou os olhos para as mulheres. Descobriu-se que elas fazem lutas empolgantes em quase todas as ocasiões. Revelou-se também um novo fenômeno midiático, a campeã inaugural Ronda Rousey, que levou o esporte ao mainstream como ninguém fizera antes ou depois.

No ano seguinte, com o sucesso da empreitada, foi a vez do peso palha, através do TUF 20, se tornar a segunda divisão feminina na maior organização do MMA mundial. Em paralelo, a maior destruidora da história do MMA feminino gritava por uma chance. Cristiane Cyborg, que perdeu a primeira luta profissional, há 10 anos, e demoliu os 17 compromissos seguintes, passou a lutar pela criação do peso pena, de olho não só em fazer história no maior palco do esporte, mas também num milionário combate contra Ronda.

Contra a brasileira pesavam dois problemas. O primeiro, e mais sério, é a baixíssima qualidade de material humano para se montar uma divisão do peso pena feminino. Uma avaliação em quem aparece nos rankings do Fight Matrix, do Tapology e do MMA Rising já dá uma ideia do cenário. Assistir às lutas da categoria no Invicta FC e no Bellator MMA solidifica a hipótese de que não há “nível de UFC” (entre aspas, por este ser um conceito tão subjetivo) no peso pena feminino.

O outro problema que Cyborg enfrentava era o histórico com anabolizantes. Com alguns traços físicos que lançavam suspeitas, Cris viu seu mundo ruir há exatamente cinco anos, quando a Comissão Atlética do Estado da Califórnia flagrou em seu organismo o esteroide estanozolol. O exame custou o cinturão do Strikeforce e o emprego. Cris precisou se reorganizar no Invicta, onde não encontrou dificuldade para conquistar mais um cinturão, unindo seu talento enorme com a falta dele na concorrência.

O UFC finalmente contratou Cyborg e o mundo se ouriçou com a possibilidade do confronto com Ronda se materializar, provavelmente rendendo a maior luta da história do MMA feminino, quiçá da história do próprio MMA. Rousey se fez valer de sua posição como campeã que dá muito retorno à organização e disse que enfrentaria Cyborg no peso galo. Cris então fez duas lutas em peso combinado de 140 libras (cerca de 63,5 quilos), mas sofreu horrores para alcançar o peso, deixando óbvio que não havia condição de baixar mais 5 libras para chegar ao limite do peso galo com saúde suficiente para não parecer uma morta-viva no octógono. Com a derrota de Ronda no UFC 193, os ânimos para a super luta foram esfriados.

No entanto, as duas atuações de Cyborg no octógono deixaram os fãs empolgados. Com disputas de cinturão caindo (e com o preço a se pagar pelos inchados UFC 205 e UFC 207), Dana White resolveu criar o peso pena feminino, a despeito de não haver sequer 10 lutadoras no mundo com talento mínimo para fazer valer o posto de contratada do UFC. Obviamente a brasileira estaria envolvida na disputa do cinturão inaugural. Pois bem, pelo menos na prática não foi assim que as coisas se desenrolaram.

White ofereceu três vezes uma oportunidade de disputar o primeiro título da nova categoria e, segundo ele, Cyborg recusou todas. Numa delas, argumentou que não conseguiria bater o peso de sua própria divisão em oito semanas, pedindo um camp de 12 para o combate, dizendo que estaria pronta em março. Na recusa seguinte, sequer deu alguma explicação.

Quando a história veio à tona, Cyborg imediatamente se explicou dizendo que o corte de peso para o UFC Brasília foi tão brutal que ela entrou em depressão, mas que estaria clinicamente curada para lutar em março. Bem, eu não tenho motivo para duvidar da palavra de uma pessoa tão simpática e doce (pelo menos fora do octógono) como Cris, por quem fiquei maravilhado quando a conheci pessoalmente. No entanto, conheço muito bem como funciona esta doença, que sequer tem cura, apenas pode haver melhora e controle no quadro. E isso é bastante difícil de prever quando dará resultado – e digo isso por experiência própria.

Dana White, em entrevista para a ESPN, em tradução do Combate.com

“Nós estamos desrespeitando Cyborg? Ela disse que não consegue bater o limite do peso pena em oito semanas. Nós oferecemos uma segunda e uma terceira lutas, e ela negou todas. Com tudo que tenho que lidar na minha vida, a última coisa em que eu pensaria é: ‘Vamos nos juntar para desrespeitar Cris Cyborg…’ Nós oferecemos três lutas e ela negou todas. Eu tinha duas lutadoras que queriam disputar o cinturão peso pena. Estamos falando de profissionais. Se você joga no New England Patriots, você não vai sentar no sofá e dizer: ‘Não estou a fim de jogar nesse fim de semana…’ Nós a contratamos porque ela nos disse que conseguia bater o limite do peso galo. Quando não conseguiu, por sofrer muito no corte de peso, nós criamos a divisão dos pesos-penas – e mesmo assim ela não quer lutar.”

Em paralelo, não foi difícil surgir a hipótese de que Cyborg precisasse de tempo para uma terapia pós-ciclo depois de lutar duas vezes sob a tutela da controversa Comissão Atlética Brasileira de MMA, visto que a disputa inaugural do cinturão vai acontecer em território norte-americano, mais próximo da USADA. Em defesa da brasileira neste ponto, ela foi testada 12 vezes pela USADA desde que assinou contrato com o UFC.

Dana foi além. Ao MMAjunkie, ele disse que as recusas de Cyborg não têm a ver com corte de peso.

“Isso não tem a ver com peso. Obviamente não tem nada a ver com corte de peso. Eu não sei o que é, então a gente vai descobrir.”

Pois bem. Eis que o UFC resolve ir em frente na empreitada e escala a primeira disputa do cinturão de uma categoria que não tem talento suficiente. Pior, escala esta luta sem a presença de Cyborg. No próximo dia 11 de fevereiro, no UFC 208, Holly Holm vai enfrentar a holandesa Germaine de Randamie pelo cinturão inaugural da nova divisão. Neste dia, o UFC terá uma campeã peso pena que não será Cyborg, estando a brasileira contratada pela organização. Bizarro.

O presidente do UFC tem certa razão ao dizer que o MMA é um esporte profissional e que as pessoas não podem simplesmente definir quando vão lutar, deixando a organização parada, especialmente se você não é Ronda ou Conor McGregor (com eles já não é certo, imagine com quem não dá retorno como eles). Por este motivo, ele vai em frente na criação da categoria.

Ainda há um fato que me choca mais do que tudo: criar o peso pena antes do peso mosca, este sim, com muito mais talento em várias organizações ao redor do mundo.

Neste rolo todo, um cenário fica próximo de acontecer. Caso Holm e Rousey vençam seus compromissos, abre-se um cenário de revanche entre a campeã do peso galo e a do peso pena. Ou seja, Ronda pode se tornar, alguns meses depois de McGregor, especificamente no evento de 8 de julho, o mais importante do ano que vem, a segunda campeã em duas categorias simultaneamente, numa luta que já teria o apelo gigantesco de ser o acerto de contas com quem lhe tomou o cinturão às custas de uma surra histórica.

Caso esta hipótese se confirme, além de justificar o peso pena na frente do mosca, eu apostaria dinheiro que, no caso de vitória sobre Holm, Ronda anunciaria sua aposentadoria do MMA ainda dentro do octógono, com direito a luvas repousadas no centro, agradecimentos sob lágrimas e tudo mais. Na caixa registradora do UFC, o tilintar de moedas caindo informando que os recordes do UFC 205 foram quebrados.

Provavelmente nunca uma recusa de luta sairia tão cara para alguém.