Entrevista: Márcio Tannure, diretor médico da Comissão Atlética Brasileira e do UFC no Brasil

Por Alexandre Matos | 23/05/2013 22:10

O espetacular nocaute protagonizado por Vitor Belfort no UFC no Combate 2, realizado no último sábado em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, promove acalorados debates até hoje, seja para valorizar o sensacional chute rodado que explodiu no rosto de Luke Rockhold, seja para discutir o tratamento de reposição de testosterona (TRT) que o atleta se submete com autorização da Comissão Atlética Brasileira de MMA (CABMMA).

A parte técnica já foi debatida aqui no MMA Brasil, com os devidos louros à notável evolução que Belfort faz em seu jogo mesmo aos 36 anos. Agora é hora de tratar a segunda parte.

Para falar sobre o tratamento de Vitor, ninguém melhor do que o doutor Márcio Tannure, diretor médico da CABMMA. Foi ele quem autorizou o tratamento do peso médio, que sofre de hipogonadismo. Conversamos com Tannure sobre o TRT de Belfort, mas também sobre como está sendo conduzido o trabalho à frente da CABMMA.

Vitor Belfort aplicou um nocaute espetacular em Luke Rockhold no UFC No Combate 2 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Vitor Belfort aplicou um nocaute espetacular em Luke Rockhold no UFC No Combate 2 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Você trabalha num dos mais respeitados departamentos médicos esportivos do Brasil, no Flamengo. Como aconteceu o convite para fazer parte da Comissão Atlética Brasileira de MMA?

Eu já estava trabalhando com o UFC quando a Comissão foi criada e, como você disse , como já tinha experiência com medicina do esporte, fui convidado para ajudar nesta parte.

A CABMMA trabalhou com uma espécie de supervisão no UFC São Paulo para enfim assumir todas as atividades regulatórias a partir do evento de Jaraguá do Sul, certo? Você pode traçar um paralelo do que foi feito em São Paulo para o que foi realizado em Jaraguá?

Certo. Muitas coisas foram feitas, mas só posso responder pela parte médica. A grande diferença na parte médica é que, até o evento de São Paulo, o antidoping era feito por um laboratório americano. A partir de Jaraguá, começou a ser realizado no Brasil.

Com o fim do primeiro evento com total responsabilidade da CABMMA, o que você (como diretor médico da entidade) tirou de aprendizado para melhorar a atuação nos eventos de Fortaleza, no UFC Rio 4 e nos demais eventos que o UFC fará no Brasil? Quais fatos, positivos e negativos, você pode destacar que aconteceram em Jaraguá do Sul para nortear os trabalhos da CABMMA?

Acho que a experiência tem sido positiva, principalmente porque estamos dando espaço para críticas e opiniões de pessoas ligadas diretamente ao esporte para solucionar problemas que ocorrem ou já ocorreram em outras comissões e, com isso, tentar fazer com que a brasileira sirva de referência.

A CABMMA tomou como parâmetro o trabalho de alguma comissão estadual americana? A NSAC (Comissão Atlética de Nevada) costuma “ditar as regras” extraoficialmente nos Estados Unidos, ou seja, as demais comissões costumam acatar as decisões tomadas em Nevada. A CABMMA também está em sintonia com a NSAC?

Sim. Não acatamos suas decisões, mas por ser a comissão mais antiga e atuante, a NSAC foi o molde para a criação da nossa.

Falando nisso, não há como deixar para trás o tão falado tratamento de reposição de testosterona de Vitor Belfort. Foi você, em nome da CABMMA, quem autorizou o TRT dele, certo?

Sim, mas vale ressaltar que não é a comissão que indica o uso ou não, nós apenas avaliamos o pedido e autorizamos ou não o tratamento.

O diretor executivo da NSAC, Keith Kizer, disse que não dará autorização de TRT para nenhum atleta pego no antidoping anteriormente, direcionando claramente a declaração a Vitor Belfort. Qual sua opinião em relação ao veto da NSAC, visto que Belfort só foi autorizado a fazer o tratamento no Brasil e dificilmente será liberado para lutar novamente nos Estados Unidos nestas circunstâncias?

Não gostaria de opinar sobre as decisões deles. Eles têm o direito e a autonomia para tomarem suas decisões e nós, as nossas.

Há como afirmar que o hipogonadismo de Belfort teve outra natureza que não o abuso de esteroides anabolizantes durante a carreira?

Não posso afirmar qual foi a natureza de seu hipogonadismo, nem que foi e nem que não foi, pois isso não se sabe. E existem varias etiologias para isso.

Vitor Belfort em dois momentos: na pesagem do UFC 126, em 2011, e na pesagem do UFC No Combate 2, no último sábado (Fotos: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Vitor Belfort em dois momentos: na pesagem do UFC 126, em 2011, e na pesagem do UFC No Combate 2, no último sábado (Fotos: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Uma pessoa com hipogonadismo não adquirido (alguém que nasceu com a doença ou a contraiu ainda criança, por exemplo) teria condições de se tornar um lutador profissional para competir em nível de elite mundial?

Sim, desde que tratasse isso.

Sobre a questão do Vitor, uma coisa não ficou clara: não é possível determinar a natureza do hipogonadismo, mas o abuso de anabolizantes é uma possível causa e ele já foi suspenso por este motivo no passado. É um direito dele prezar por sua saúde e fazer o tratamento, mas, ao autorizar o TRT e deixá-lo competir profissionalmente, não seria como “passar a mão na cabeça” por erros do passado?

Digo isso porque, quando um atleta usa substâncias ilícitas, ele deve ter em mente que existem consequências futuras (como o hipogonadismo, por exemplo). Se o lutador não precisar lidar com essas consequências futuras, não seria um estímulo a mais para fazer uso de substâncias ilícitas? Ou seja, o atleta não pode pensar: “Vou me encher de anabolizante porque, se um dia eu tiver problemas, sei que vão autorizar o tratamento para eu me manter em competição”?

Não concordo. Primeiro porque, como disse, não podemos determinar a causa. Afirmando isso, você está afirmando que esta foi a causa do Vitor.

O atleta que for pego usando anabolizantes será punido e suspenso, como foi o caso dele e de outros. Então não ficou e não ficaria impune, como outros também.

Existem hormônios anabólicos e androgênicos e, na verdade, as pessoas não sabem a diferença entre eles. Se, em algum momento, Vitor Belfort for pego no doping com um hormônio anabolizante, será punido novamente como qualquer outro. Mas ele faz uso de hormônio androgênico, ou seja, especifico para reposição.

Outros lutadores deram entrada na CABMMA para pedir autorização para o TRT? Você pode citar quem pediu?

Por enquanto nenhum outro solicitou.

Como a CABMMA está tratando a questão do antidoping? Por exemplo: Todos os lutadores em um evento são testados? Os testes são feitos depois dos eventos ou há testes aleatórios? Qual(is) laboratório(s) a CABMMA credenciou para o antidoping? Como a CABMMA vai tratar o doping por drogas como a maconha e a cocaína?

Todos os lutadores testam antes da luta e seis são sorteados após para refazerem. O Vitor, como está em tratamento, também foi obrigado a realizar exame de sangue para checar se seus níveis de testosterona encontram-se normais. Sobre o laboratório, não podemos dizer o nome pois é sigilo medico. A maconha e a cocaína serão tratadas da mesma maneira de sempre, são doping.