Entrevista Mackenzie Dern: “Minha ideia era focar 100% no MMA, mas ainda sinto saudade do jiu-jítsu”

Por Anderson Cachapuz | 03/08/2017 00:42

A arte suave viveu um fim de semana especial no fim de julho quando o Gracie Pro trouxe de volta ao Rio de Janeiro, berço do jiu-jítsu, uma competição de grande porte. Dentre as muitas personalidades presentes, a multicampeã Mackenzie Dern esteve na Arena Carioca 1 nos dois dias de competição e conversou com o MMA Brasil sobre seus planos.

Apesar de já ter estreado no MMA, Dern ainda não está segura se este é o momento para virar a chave em definitivo, trocando o quimono pelas luvas de quatro onças. Apesar das dúvidas, ela afirma que já tem ficado de olho nas possíveis adversárias no UFC.

Nesta conversa, Mackenzie fala dos planos do futuro, dos treinos nos Estados Unidos e Brasil, de um possível confronto com Paige VanZant e muito mais.

O que você achou do Gracie Pro? Atendeu às suas expectativas?

Eu queria ter lutado, mas infelizmente tive uma lesão no joelho. Operei, estou na terceira semana da recuperação, mas mesmo assim eu quis vir, não podia perder a chance de assistir à luta entre o Buchecha e o Roger.

Kyra está fazendo um grande evento, com ótima organização. Não tinha lugar melhor para acontecer esta luta como aqui no Rio, para trazer o jiu-jítsu de volta para cá. Depois que o Mundial passou a ser disputado nos Estados Unidos, tirou um pouco o foco do jiu-jítsu no Rio de Janeiro, no Brasil. A capital do esporte é aqui!

Você disse que queria ter lutado aqui e tiveram especulações que você faria uma superluta com a Kyra. Queria aproveitar esse gancho para te perguntar se seu foco hoje está no jiu-jítsu, se você quer se dedicar ao MMA ou em ambos. Como estão seus planos?

Realmente, antes do Mundial a Kyra tinha me chamado para fazer a luta coprincipal aqui no Gracie Pro. Eu tinha confirmado tudo, mas aí aconteceu essa lesão. Se deus quiser, se tiver outra oportunidade de fazer uma luta neste evento seria ótimo.

Minha ideia era virar o foco 100% para o MMA, mas, com essa lesão, eu não saí do jeito que queria sair do jiu-jítsu. Não consegui lutar na minha categoria no Mundial, era uma coisa que eu queria ter feito. Agora meu próximo desafio é o ADCC, que só acontece a cada dois anos. Mesmo tendo decidido dar 100% de foco no MMA, eu já tinha decidido que iria defender meu título no ADCC. Mas, falando a verdade, acho que ainda não estou pronta para deixar o jiu-jítsu de lado. Devo fazer mais uma luta de MMA ainda neste ano. Não sei sobre UFC. Eu sei que preciso decidir. Acho que tudo na vida a gente tem que dedicar 100% e eu não estava conseguindo dar meus 100% nem para o jiu-jítsu nem para o MMA. Então a ideia é conseguir fechar o jiu-jítsu e ficar no MMA. Mas não vou ficar muito tempo no MMA, não gosto de tomar soco, não quero ficar anos tomando soco na cara. Quero ganhar o cinturão, defender algumas vezes e voltar para o jiu-jítsu, porque aqui é onde está meu coração.

Você acha que dividir as atenções agora pode te atrapalhar tanto no MMA quanto no jiu-jítsu?

Atrapalha um pouco, sim. No jiu-jítsu, você está competindo o tempo todo, tem competição todo mês. No MMA é mais treino, você fica toda dolorida, com a cabeça doendo. Nos treinos, eu não estou ganhando, estou apanhando nos treinos. Então eu fico muito dolorida, com risco de sofrer muitas lesões. Mas eu não vejo tanto problema. Sei que às vezes vou ganhar, às vezes vou perder. Às vezes estarei num dia bom, às vezes estarei num dia ruim. É mais pela imagem, pelo que as pessoas pensam. Muitas pessoas no mundo têm essa ideia de que é para eu ganhar tudo. As pessoas acham que eu tenho que finalizar rápido, mas eu acho que agora eu preciso evoluir na trocação. Agora é hora de trocar em pé, quero melhorar a minha trocação. Não quero chegar no UFC e nunca ter passado por três rounds. Se eu ficar três rounds em pé, não tem problema. Eu conheço meu jiu-jítsu, sei do que sou capaz de fazer.

No dia que eu perder, não terá muito problema para mim. É mais pelo público, as pessoas vão estranhar: “Caraca, a Mackenzie perdeu!”. Eu não tenho problema com isso. É até bom ter tantos olhos em mim, acho que eu consigo inspirar pessoas, motivar pessoas a correr atrás de seus sonhos. Por isso que eu preciso dar 100%. Dei no jiu-jítsu e conquistei tudo o que conquistei, então não tem como ser diferente no MMA. Eu tenho que fazer essa escolha, mas ainda não está na hora, ainda tenho muita saudade do jiu-jítsu.

Por toda a sua carreira, sua chegada no MMA foi cercada de muita expectativa, você tem sido especulada com frequência no UFC. Você já estudou algumas adversárias que estão no UFC ou acha que ainda é cedo demais para isso? E uma vez no UFC, mira qual categoria?

A gente está pensando no peso mosca. Temos olhado adversárias no UFC, lógico. Nosso objetivo é chegar no UFC. Estamos vendo as adversárias que chegaram no UFC e fizeram barulho, mas não chegaram tão longe, e as adversárias que chegaram e foram para o topo. Meu time está me treinando para isso. Nossa ideia não é chegar lá e ganhar duas, perder uma. Nossa ideia é chegar e ninguém conseguir tirar do lugar, só ir para frente. Estamos treinando bastante e olhando as adversárias, para ver com quais pessoas a gente gostaria de lutar, quem a gente gostaria de negar se o UFC oferecer.

Com quem e onde você está treinando? Já tem algum nome em mente para uma possível estreia no UFC?

No Arizona, onde eu faço meus camps, treino na MMA Lab com o Ben Henderson, Lauren Murphy, tem vários atletas do UFC lá. O técnico principal lá é o John Crouch. Quando venho para o Brasil, treino na Nova União com o Dedé (Pederneiras), com o (José Aldo) Junior, com o Emerson Falcão, a Poliana Botelho. Para onde vou, as pessoas me recebem muito bem. Eles veem que eu posso ajudá-los com o jiu-jítsu, eles confiam no meu potencial. É a melhor coisa quando estamos treinando juntos.

Quanto a adversárias, não tem ninguém certo. Tem a Cynthia Calvillo, que chegou finalizando todo mundo, também veio da LFA. A gente acha que o pessoal quer ver contra a Paige VanZant, que é uma menina bonita e valente. Seria uma luta boa pra gente, chamaria atenção. Pra gente, não. Pra galera, sabe? Estamos nos preparando, pode ser uma coisa que eles (o UFC) ofereçam para a gente, mas é uma coisa bem pro futuro, não estamos tão focados nisso ainda, não.

Gerente de projetos e bacharel em direito e atualmente empresário, ex-praticante de muay thai e fã de MMA. Flamenguista e natural do RJ. Pai do Nicolas, vulgo "Cachapinha", futuro campeão do UFC.