Entrevista: João Derly, bicampeão mundial de judô

O judoca mais vitorioso do Brasil em todos os tempos fala dos planos pós-aposentadoria, de como as mudanças de regras afetaram seu estilo de luta, da falta da medalha olímpica e até de MMA.

O judô é o esporte que mais trouxe medalhas para o Brasil em Jogos Olímpicos. Na edição de 2012, a medalha de ouro e outras três de bronze fizeram com que o esporte liderasse nosso quadro de medalhas. Ainda assim, o maior judoca da história do país jamais subiu a um pódio olímpico, mas isto está longe de ser algum demérito para João Derly.

Campeão mundial júnior, bicampeão mundial adulto, campeão dos Jogos Pan-Americanos, não foram poucas as glórias obtidas na carreira deste gaúcho de Porto Alegre. Minado pelas dores no joelho, o guerreiro abandonou os tatames. Porém, como ele próprio diz, “a luta está no sangue”. Derly é candidato a uma vaga na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre na eleição de outubro. Sua bandeira será o apoio ao esporte, algo que ele já vem fazendo com o Instituto Pódium.

O MMA Brasil conversou com Derly por e-mail. O ídolo falou de sua trajetória, de como lidou com a falta da medalha olímpica, da expectativa para o judô brasileiro e de como ele pode continuar ajudando o esporte mesmo fora das competições. Ah, claro, o MMA também foi abordado, já que o craque é um grande fã do esporte.

João Derly em uma de suas inúmeras comemorações ao longo da vitoriosa carreira

Campeão mundial júnior, bicampeão mundial adulto, campeão dos Jogos Pan-Americanos. Estas e outras glórias te tornam o judoca mais laureado da história do nosso país. A falta de uma medalha olímpica deixou alguma frustração?

Frustração não é a palavra exata. Eu fiquei bem triste por não ter conseguido uma medalha olímpica. É complicado se dedicar ao máximo, estar concentrado e logo na segunda luta, como foi em 2008, perder. Mas isso faz parte do esporte, só perde quem tenta, quem luta. Eu perdi desta vez mas, com a glória de Deus, tive tantas outras belas vitórias. Nunca fui de reclamar das coisas que não me foram dadas, mas de agradecer a Deus àquelas que me foram concebidas. Então, é levantar a cabeça e seguir em frente, não tem outro jeito. Fiz isso e deu certo.

O judô mundial tem a escola japonesa, muito técnica, a escola europeia, mais baseada na força, e a brasileira, que é uma mistura de ambas. A que você atribui o estilo do judô brasileiro? Apesar de ser técnico, você acha que seu estilo é mais próximo do europeu?

Acho que sim. O meu judô dependia muito de eu estar muito bem preparado fisicamente, pois as minhas técnicas são de extrema explosão.

Nos últimos anos, o judô sofreu várias mudanças nas regras. Como elas afetaram seu jogo?

Com certeza, eu era um especialista em catadas de pernas e, com as lesões, não tive muito tempo de me adaptar. As catadas deixavam o judô mais bonito, rápido, diferente.

O judô é o único esporte que trouxe medalhas em todas as últimas sete edições dos Jogos Olímpicos. Quais eram suas expectativas para que a tradição fosse mantida em Londres?

Como vimos em Londres, o judô foi a modalidade que mais trouxe medalhas para o Brasil, ainda que os investimentos para este esporte sejam baixos. Mas com as medalhas e as brilhantes participações de Felipe Kitadai, Mayra [Aguiar], Maria [Suellen Altheman], a Sarinha [Sarah Menezes], entre outros, creio que o judô terá uma visibilidade maior e cresça ainda mais. Precisamos de maiores investimentos no esporte em geral porque, com a estrutura atual, não teremos condições de lutar contra as grandes potências (EUA, China) do esporte em 2016. Quando um atleta perde, o mundo cai sobre ele, vem uma chuva de críticas. Porém, ninguém sabe o sacrifício que nossos atletas passam para chegar até uma competição de alto nível.

Você decidiu se aposentar apenas das competições de alto nível, certo? Quais são seus planos para o futuro, o breve e o longo? Ser treinador ou dirigente passa pela sua cabeça?

Meus joelhos já não eram os mesmos, fiz três cirurgias. Percebi que era a hora de parar. Todo lutador sabe o seu momento de dizer ‘chega’, e aquele era o meu. Pensei muito sobre o que fazer depois que eu parasse, pois o judô sempre foi – e é – a minha vida. E percebi que eu ainda tinha uma forma de ajudar a melhorar o esporte, desta vez no meio político. Hoje, sou candidato a vereador de Porto Alegre e quero renovar a política, buscando melhores condições para treinamento, ginásios, praças da juventude, melhoria nos equipamentos das praças públicas e valorizar os educadores físicos, que infelizmente não são valorizados o quanto deveriam. Minha luta agora é essa. Mas competir, não mais. Ainda transmito a alma do judô e das lutas em geral através de palestras, seminários, aulas gratuitas, etc. Também sou fundador do Instituto Pódium, projeto social que leva o judô a mais de 250 crianças de baixa renda, aqui em Porto Alegre, sem ajuda do governo. Quero continuar transmitindo a filosofia do judô a muitas pessoas. Posso não competir, mas a luta irá continuar.

Quem foram suas influências e que tipo de legado o João Derly deixa para as próximas gerações?

O Aurélio Miguel é um dos meus maiores ídolos no judô. Tenho muita admiração por ele. Cresci lutando com o Tiago Camilo, grande amigo. Tem muitas pessoas que passaram pela minha trajetória e que me deixaram lições. Meu sensei Kiko, grande pessoa que tenho como um segundo pai, pois ele que me treinou desde pequeno e esteve em todos os momentos comigo. Há um ditado que diz assim: “São com nossos adversários que aprendemos as maiores lições”. Então, é isso, em todos os momentos de nossas vidas, sendo períodos difíceis ou gloriosos, temos lições de vida. Não devemos baixar a cabeça por uma derrota ou se sentir inferior a alguém. Na visão do nosso Pai, todos somos iguais. Se cair, levante, se perder, treine para da próxima vez ganhar. Não importa o que pensem de você, o que importa é quem você realmente é. Quando há paz de espírito, nada nos atinge.

Você acompanha o MMA? Quem são seus lutadores preferidos?

Acompanho, sempre! Gosto muito do Anderson Silva, Junior Cigano, Minotauro, Wanderlei Silva, Vitor Belfort, Jon Jones, os Gracie.

Você faz parte de uma geração de judocas que também treinaram jiu-jitsu, certo? Além disso, você já disse que também adora boxe. Com o sucesso de judocas como Ronda Rousey, Rick Hawn, Hector Lombard e outros, há alguma chance de vermos João Derly colocar seu espírito de lutador no MMA?

Gosto de surf, de skate, de boxe, tudo aquilo que deixa a mãe de cabelo em pé (risos). Sobre lutar no MMA, não! Minha luta agora é fora dos tatames. Como eu disse anteriormente, minha hora de parar chegou. A luta continua correndo nas minhas veias, mas o momento é outro. Minha luta agora é outra. No momento, posso contribuir muito mais lutando na Câmara de Vereadores em prol do esporte e dos nossos jovens atletas. Mas fico feliz por deixar um legado de humildade, respeito e garra aos mais novos. Vimos que está dando certo, nossos lutadores que disputaram as Olimpíadas fizeram bonito. Confio muito neles e todos estão de parabéns.

  • Parabéns pela matéria. Excelente!

  • Marcelo Sucuri

    Guerreirão mesmo, ta de parabens.

    Espero que continue tendo sucesso na nova carreira. Que Deus o ilumine nos seus projetos de vida e social. Toda pessoa que ajuda o seu próximo, merce aplausos. Valeu cara.