Entrevista: Dr. Alexandre Hohl fala de Doping e TRT no MMA – Observações, fatos e fundamentos

Por David William | 19/07/2013 18:01

O assunto é antigo e, ainda assim, mais atual do que nunca. O doping em competições esportivas é sempre um tema que desperta controvérsias e celeumas de toda sorte. É natural que os atletas busquem a superação de si próprios e de qualquer recorde que já tenha sido estabelecido. Mas é exatamente nesta busca incessante pela vitória a todo custo que muitos desportistas recorrem à procedimentos não muito ortodoxos.

É considerado doping o uso de qualquer substância para melhora de desempenho e que seja proibida pelos instrumentos que regulam as atividades esportivas. A proibição tem como objetivo evitar riscos à saúde do atleta que tais substâncias podem trazer, garantir a igualdade de oportunidade entre os competidores e preservar o aspecto natural do esporte, para que os resultados alcançados sejam frutos do desempenho do ser humano sem o auxílio de nenhuma droga ilegal.

Entretanto, são frequentes os casos de doping em esportes de altíssimo nível. O MMA é um significativo exemplo desta realidade. A cada ano aumenta o rigor e os procedimentos de controle antidoping por parte das comissões atléticas que regulam os eventos de MMA.

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Há uma curiosidade cujo destaque é pertinente: o doping (intencional ou não) nem sempre é garantia de bons resultados. É surpreendente o número de lutadores que foram pegos no exame antidoping após experimentarem derrotas. É claro que há também uma extensa lista de casos de doping que culminaram em vitórias, afinal, se o uso de substâncias proibidas não significasse algum tipo de vantagem, ninguém as usaria.

Para agitar ainda mais as discussões sobre o tema, o Tratamento de Reposição de Testosterona (TRT) tem sido objeto de divergências e muita polêmica. A Comissão Atlética do Estado de Nevada (NSAC), principal órgão regulador dos esportes de combate dos Estados Unidos, permite que lutadores de MMA recorram ao tratamento desde que não tenham sido pegos em algum exame antidoping no passado. Já a Comissão Atlética Brasileira de MMA (CABMMA) entende que o TRT se distingue do uso de esteroides anabolizantes, não servindo aos mesmos propósitos nem gerando os mesmos resultados, razão pela qual Vitor Belfort está autorizado a fazer uso do tratamento, enquanto a NSAC nega a licença do mesmo para o brasileiro em virtude de sua reprovação no teste antidoping em 2006.

Embora não seja o primeiro nem o único, Belfort tem sido alvo de duras críticas por fazer uso de TRT. Em sua defesa, o brasileiro afirma que o tratamento tem por objetivo recuperar os níveis normais de testosterona no corpo, uma vez que sofre de hipogonadismo. Seus críticos, porém, alegam que a insuficiência na produção de testosterona foi precedida pelo abuso de esteroides anabolizantes. Algumas pessoas temem que o TRT abra brechas para a trapaça. Outros preferem resumir o assunto equiparando TRT a doping.

A discussão é intensa e acalorada. Mas será que todos compreendem os elementos que estão em pauta? É perceptível uma certa confusão quanto aos conceitos básicos envolvidos.

Logo após o UFC no Combate 2, evento realizado em maio, em entrevista ao MMA Brasil, o Dr. Márcio Tannure, diretor médico da Comissão Atlética Brasileira e do UFC no Brasil, falou sobre o trabalho da CABMMA, a liberação do TRT e o caso particular de Vitor Belfort. Pela primeira vez o assunto foi tratado com objetividade e muitas dúvidas esclarecidas. As declarações de Tannure contribuiram fortemente para uma melhor compreensão de um assunto que requer bastante atenção devido a sua abrangência e criticidade. Porém o próprio Tannure indicou que algumas questões precisam ser melhor analisadas pelo público em geral, como a identificação das causas do hipogonadismo e a diferença entre hormônios anabólicos e androgênicos (alegando inclusive que a maioria das pessoas desconhece a diferença entre estes).

Entre os fãs de MMA ainda restam muitas dúvidas sobre doping, TRT, causas e consequências.

Dr-Alexandre-HohlPara responder estas e outras questões, o MMA Brasil entrevistou o Dr. Alexandre Hohl (foto ao lado), médico endocrinologista especializado em andrologia (estudo e cuidado do corpo masculino) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Ele trata de pacientes que possuem alterações na produção de testosterona, sejam pessoas comuns ou atletas que buscam a verificação de seus status hormonais.

Para o endocrinologista, há uma grande dificuldade de entendimento, tanto na classe médica como entre o público leigo, quanto aos limites entre o tratamento de uma doença e a otimização de um atleta. Em sua visão, o trabalho do médico junto a atletas deve priorizar sempre o tratamento de suas doenças, avaliando suas condições físicas em todos os aspectos sem jamais oferecer caminhos para que o paciente extrapole os limites de saúde e/ou legalidade.

Diversos produtos no mercado prometem melhorar o desempenho de atletas. Muitos deles são vendidos sem qualquer restrição. Entretanto, o uso de algumas substâncias é proibido. Qual o critério para determinar a proibição dessas substâncias?

Doping é qualquer utilização de substância que aumente ou melhore a performance de um atleta. As principais substâncias utilizadas para doping são os esteroides anabolizantes, que derivam da testosterona. Há outras substâncias que podem ser utilizadas como doping e não são esteroides anabolizantes. Um exemplo disso é a furosemida, um diurético utilizado por alguns atletas para “secar”. Os esteroides anabolizantes no Brasil só podem ser vendidos por meio de receita médica controlada e retida. Os diuréticos não. Este é um exemplo de dois recursos de doping que possuem acessos teoricamente diferentes.

Existe um padrão para a realização do exame anti-doping?

Geralmente o exame antidoping é realizado na urina à procura de uma série de substâncias proibidas como maconha, cocaína, esteroides anabolizantes (testosterona e seus derivados), diuréticos, dentre outras. A detecção de uma dessas substâncias na urina configura o doping.

Qual a diferença entre hormônios anabólicos e hormônios androgênicos?

O hormônio é uma substância produzida por glândulas e que é capaz de gerar uma série de reações no corpo humano. Os testículos, por exemplo, produzem a testosterona. Neste cenário, existem hormônios que possuem a capacidade de gerar anabolismo, ou seja, construção. Tudo que é anabólico, constrói, assim como tudo o que é catabólico, destrói.

O corpo humano trabalha o tempo todo com construção e destruição. O hormônio anabolizante é capaz de gerar construção, ou seja, estimular síntese proteica. Portanto há uma série de hormônios anabólicos como a testosterona e o GH (growth hormone, ou hormônio de crescimento). Os hormônios androgênicos são hormônios das funções e características masculinas, onde também está a testosterona, além da androstenediona e dihidrotestosterona, para citar alguns. São hormônios importantes no homem para a caracterização masculina.

Então a testosterona é tanto anabólica quanto androgênica?

Sim.

Diante desta distinção entre os hormônios anabólicos e os hormônios androgênicos, seria seguro afirmar que fazer um tratamento de reposição de testosterona utilizando apenas hormônios androgênicos diminuiria, ou até mesmo afastaria, os riscos de doping?

De forma alguma. Quando um paciente não está produzindo testosterona adequadamente (ou seja, sofre de hipogonadismo), o tratamento consistirá em repor testosterona, o principal hormônio androgênico. Ao repor testosterona, o que diferenciará o tratamento de algo lícito ou ilícito é a dose. Muitas vezes, exatamente o mesmo medicamento aplicado em um tratamento convencional de reposição de testosterona é utilizado por alguns atletas para fins de ciclos de anabolizantes. Portanto a grande diferença não está no hormônio em si, mas sim na dose.

Sempre que vejo o assunto sendo discutido, percebo que este ponto é deixado de lado. Estamos falando da mesma substância em doses muito diferentes. O tratamento de reposição de testosterona aplicado da forma correta visa solucionar a insuficiência do hormônio, recuperando o seu nível normal.

É possível determinar as causas do hipogonadismo? É possível revertê-lo?

Sim. Dentre as principais causas, o hipogonadismo ocorre quando a hipófise, uma glândula que fica dentro da cabeça, não dá instruções para o testículo trabalhar. Outra causa é quando o testículo não trabalha por um problema de nascença ou em virtude de algum trauma, mesmo se a hipófise estiver funcionando bem. É possível ainda que o corpo esteja com problemas e o transporte da testosterona seja comprometido. Como médico, afirmo que, através da consulta, do exame físico e dos exames complementares, é possível diagnosticar as causas do hipogonadismo com tranquilidade, na maioria dos casos.

Em casos de tumores na hipófise, nascimento sem testículos ou algum tipo de acidente que levou à perda dos testículos, não há como reverter. Outros casos são reversíveis. Homens com obesidade mórbida enfrentam hipogonadismo funcional. É transitório. No caso de atletas que fazem uso de altas doses de anabolizantes, logo após o ciclo o corpo para de produzir testosterona. É transitório. Depois de algumas semanas, o corpo volta a produzir o hormônio. O problema é que em geral, os atletas que recorrem aos ciclos de anabolizantes não fazem apenas um ciclo, mas sim muitos, e durante muitos anos, sem procurar auxílio médico para verificar a condição da produção natural da testosterona. Após 10, 20 anos desta prática, não é possível mais reverter. O corpo não produz mais a testosterona.

O TRT tem sido objeto de muita discussão e polêmica no MMA. TRT pode ser considerado doping?

Quando um paciente faz reposição para recuperar os níveis normais de testosterona, não é doping. É tratamento. O exame de sangue de quem faz doping apresenta níveis extremamente elevados de testosterona. Se estes níveis elevados do hormônio forem constatados em um paciente que faz TRT, então aí sim, o TRT seria doping, configurando excesso no tratamento.

As comissões atléticas costumam testar lutadores que fazem uso do TRT antes e depois das lutas para verificar se os níveis de testosterona encontram-se normais. É possível mascarar estes exames?

Não. Se um atleta está fazendo uso de doses excessivas de testosterona, isto será detectado no exame. Entretanto, para uma maior garantia, estes exames deveriam ser sempre realizados no sangue, não na urina. O excesso de hormônio está na circulação sanguínea. Para ter validade mesmo e garantir que o atleta que faz TRT não está fazendo uso de doses suprafisiológicas, o exame deveria ser feito sempre no sangue. Não há como mascarar. Se o exame aponta que o atleta está com os índices de hormônio normais, ele não está usando doses suprafisiológicas, ou seja, acima do normal.

O MMA é um esporte intenso e de altíssimo desempenho. Isto seria um argumento válido para respaldar a tolerância aplicada nos testes de níveis de testosterona em atletas?

De maneira alguma. O esporte pode otimizar a produção da testosterona de um homem, mas nós temos níveis considerados normais, mínimos e máximos. Um atleta que não usa nenhuma substância ilegal jamais terá níveis de testosterona acima do normal em virtude do esporte. O contrário é mais fácil de acontecer. Em casos de overtraining, quando o atleta passa de seus limites, o corpo pode bloquear a produção de testosterona. Portanto, o treino intenso e as competições em alto desempenho podem gerar mais facilmente a diminuição da testosterona do que o contrário. Qualquer análise que pressupõe que atletas, em virtude apenas de suas atividades, possuem níveis de testosterona mais elevados que os limites máximos conhecidos, é equivocada, não é fisiológica nem tem respaldo científico.

Para sermos bem objetivos: os valores considerados normais da testosterona variam, em geral, de 241 a 827 nanogramas por decilitro. Esta é a faixa que a maioria dos laboratórios adota. Valores acima de 1000 ng/dL são injustificáveis. São casos de abuso de substância. É doping.

As estatísticas revelam que a maioria dos homens possui um índice de testosterona em relação à epitestosterona de 1:1, o que significa que os homens normais têm quantidades iguais de testosterona e epitestosterona no sangue. Pesquisas apontam que algumas pessoas podem apresentar uma relação com índices mais elevados, por isso, a Agência Mundial Anti-Doping (WADA) permite índices de até 4:1 (visando um teste de pelo menos 95% de precisão) e a Comissão Atlética do Estado de Nevada, bem como algumas outras comissões atléticas, permite até 6:1 (visando 99% de precisão). O objetivo geral é não rotular um atleta como um trapaceiro quando ele ou ela realmente não o é. Do ponto de vista médico, qual a relevância do índice da relação entre testosterona e epitestosterona?

A epitestosterona é um epímero da testosterona de ocorrência natural, com ação antagonista sobre o receptor de androgênios e cujos níveis no sangue estão elevados em indivíduos imaturos sexualmente. Ou seja, não dosamos epitestosterona em homens adultos na prática clínica habitual, nem para diagnóstico, nem para acompanhamento de hipogonadismo masculino. Assim, só existem parâmetros da relação de testosterona e epitestosterona criados para o doping e são definidos por entidades esportivas.

A Comissão Atlética de Nevada nega o TRT para atletas que já foram pegos no exame antidoping. Existe alguma possibilidade de um atleta recorrer ao TRT para alcançar níveis normais de testosterona e este procedimento ser transparente perante o controle das comissões atléticas? Uma vez dentro dos níveis normais, haveria algum problema no exame antidoping de um atleta que faz TRT?

Do ponto de vista médico, o TRT tem como objetivo resgatar os níveis normais de testosterona. O paciente, lutador de MMA ou não, independentemente da causa que gerou o hipogonadismo, precisa estar dentro dos níveis normais de testosterona. Nada, do ponto de vista médico, justifica níveis constantes acima de 1000 nanogramas por decilitro. Se uma entidade aceita níveis superiores de testosterona, trata-se apenas de uma determinação da própria entidade, mas não há embasamento científico.

Quando uma organização permite níveis de testosterona acima do normal está permitindo o uso de substâncias em doses anormais que resultarão em um significativo aumento de performance. Isso não é tratamento médico. Isso é abuso de substância.

Se a Comissão Atlética de Nevada não permite, por qualquer motivo que seja, que um lutador com hipogonadismo faça o TRT, ela está na verdade banindo o atleta do esporte. Se é verdade que o atleta dopado tem vantagens sobre um lutador que não usa substâncias ilícitas, é igualmente verdade que o atleta com hipogonadismo tem desvantagens perante o mesmo altleta que não usa tais substâncias e encontra-se em seus níveis normais de testosterona. Negar o TRT para quem precisa do tratamento é impedir a participação deste atleta na competição. O lutador com hipogonadismo que não tem permissão para realizar o tratamento ficará muito mais fraco que os demais lutadores, sua performance estará muito abaixo dos demais. É exatamente o lado oposto do doping. Quem possui hipogonadismo precisa de tratamento, independentemente de ser um lutador de MMA. Sem tratamento, todo o funcionamento do corpo estará seriamente prejudicado. É uma doença e, neste caso, a reposição de testosterona é fundamental.

É praticamente impossível pensar em um lutador de MMA que não deseje otimizar sua performance. É natural do esporte. Qual seria a recomendação médica, científica e responsável para atletas que desejam auferir ganhos de performance sem romper com os limites da licitude?

O médico tem como objetivo zelar pela saúde de seus pacientes. Ao analisar as opções de tratamento e verificar que o risco é maior que o benefício, visto que o foco é performance e não o tratamento de uma doença, trata-se de um procedimento totalmente questionável. É possível obter notáveis ganhos de performance com alimentação saudável, exercícios específicos e, quando necessário, suplementações, que podem ser muito úteis neste processo. Muito diferente do uso de medicamentos, hormônios. Ignorar esses princípios é trazer riscos para a saúde do atleta, que devem ser sempre exemplos de saúde e nunca o contrário.