MMA-Brasil.com Entrevista: Diogo Silva


O Brasil não é famoso por ter atletas com consciência política ou com coragem de falar o que pensa, ainda mais quando precisa falar algo que bata de frente com os homens que controlam o esporte no país. Não é o caso de Diogo Silva. Campeão pan-americano de Taekwondo no Rio 2007 e semifinalista olímpico em Atenas-2004, Diogo não tem medo de apontar as muitas falhas que fazem o nosso esporte ter tanta dificuldade para evoluir. Estreando a coluna MMA-Brasil.com Entrevista, trazemos o atleta que estreou as medalhas de ouro do Brasil nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Prestem atenção no que ele tem a dizer. Precisamos de mais atletas assim.

[MMA-Brasil.com] Como foi o seu começo no Taekwondo? Qual a sua história no esporte?

[Diogo Silva] Eu comecei com 7 anos de idade, gostava muito de filmes de luta e queria aprender a lutar. O esporte me deu oportunidades de crescer como pessoa. Entrei na Seleção Brasileira com 19 anos, participei de muitas competições fora do Brasil, entre elas a mais importante, os Jogos Olímpicos de Atenas, quando fui semifinalista com 22 anos.

[MMABr] Teve alguma experiência em outra atividade esportiva?

[DS] Sim, treinei natação por quatro anos, treinei basquete e futebol também.

[MMABr] Apesar de ter sido medalha de bronze nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, em 2003, você ficou conhecido no Brasil nos Jogos Olímpicos de 2004, principalmente pela semifinal alcançada e pelo episódio das luvas pretas. Conte como foi isso tudo.

[DS] O esporte brasileiro é muito defasado em infraestrutura, ficamos distantes dos países mais ricos. O atleta brasileiro divide suas funções com trabalho, porque precisa gerar renda para financiar seus treinamentos. Além disso, poucos estudam. O treinamento em lugares impróprios traz muitas lesões, então a vida útil do atleta brasileiro também é curta. As confederações são mal gerenciadas, o dinheiro entra na entidade, verba pública que não é fiscalizada pelos órgãos responsáveis. Tudo isso me fez fazer o protesto nos Jogos Olímpicos de 2004, com a simbologia dos Black Panthers, para chamar a atenção do Brasil e do mundo para nossa realidade, que é mascarada nas redes de comunicações.


[MMABr] Outro fato bastante marcante na sua carreira foi a medalha de ouro conquistada nos Jogos Pan-Americanos do Rio. Já estávamos há dois dias batendo na trave e você nos trouxe o primeiro ouro, inclusive conseguindo um resultado superior ao de Natalia Falavigna, que foi prata. Fale sobre o Pan-2007.

[DS] Eu tinha os Jogos Pan-americanos como a única oportunidade para crescer como atleta. Superei todas as expectativas, ganhei a competição sem tomar nenhum ponto, 100% de aproveitamento. Fui o segundo atleta de todas as gerações a ter uma medalha de ouro no Taekwondo brasileiro.

Eu sou um atleta muito politizado e conhecedor dos meus direitos, tanto como atleta quanto como cidadão. Muitos dirigentes do Taekwondo não facilitam minha vida dentro da entidade, então todo ano tenho que me superar pra tentar me manter entre os melhores.

[MMABr] Por que o semifinalista olímpico de 2004 e campeão pan-americano de 2007 não se classificou para os Jogos Olímpicos de Pequim?

[DS] Por opção. Depois do Pan minha vida financeira melhorou muito. Eu tinha 25 anos e ainda andava de ônibus. Fiquei em quarto lugar nos Jogos Olímpicos e ainda pagava do bolso algumas competições, dentro e fora do Brasil.

Eu tinha um sonho de dar um carro para minha mãe, para ela poder trabalhar (minha mãe é manicure há 28 anos). Uma Olimpíada na China, não via possibilidades de o Brasil ter sucesso… Não errei na minha decisão.

[MMABr] Você treinava em Londrina, junto com a equipe brasileira. Quando e por que resolveu ir para Piracicaba?

[DS] Acabei meu ciclo olímpico na cidade de Londrina e senti vontade de voltar para o estado de São Paulo novamente. O técnico da cidade de Piracicaba, Frederico Mitooka, entrou em contato comigo. Ele é um amigo, ex-atleta, que estava montando uma equipe nova e gostaria que eu trabalhasse com ele. Eu achei a proposta boa e aceitei. Hoje me sinto muito feliz, nossa equipe é bem organizada e competitiva, já estamos colhendo bons frutos.

[MMABr] Como você enxerga o trabalho do preparador físico argentino Claudio Aranda, inclusive na comparação com outros preparadores com quem você já trabalhou?

[DS] O Claudio era a peça que faltava para girar a nossa engrenagem. Ele trouxe uma parte física bem especifica para nosso esporte. O Brasil, na parte do Taekwondo, não tem bons preparadores físicos. Já o Claudio é especialista, estudou e aperfeiçoou seu trabalho com foco no alto rendimento. Hoje fazemos o mesmo treinamentos que os atletas franceses, russos e hispânicos.


[MMABr] Quais são suas expectativas para o futuro?

[DS] Estou me qualificando para entrar na Marinha brasileira, para participar dos Jogos Militares de 2011, que será realizado no Rio de Janeiro. Já passei pela primeira fase em primeiro lugar, agora faltam mais duas qualificações.

Para o ano de 2009 pretendo trazer bons resultados nas competições que teremos fora do Brasil, como Copa do Mundo, Universíade, Jogos da Lusofonia e Campeonato Mundial na Dinamarca.

[MMABr] Os critérios de escolha do técnico da Seleção Brasileira adulta não são exatamente um primor de justiça, uma vez que é apontado o profissional que mais levou atletas para a seleção. Isso pode fazer com que técnicos prefiram contratar estrelas a formar talentos. O que acha deste critério e qual seria o ideal, em sua opinião?

[DS] O nosso esporte está tão atrasado que muitos técnicos são professores de academia, ou são atletas e técnicos ao mesmo tempo. Isso não existe mais, hoje você monta um núcleo de alto rendimento e contrata os atletas, paga os salários e lhes oferece infraestrutura para trabalhar. Não interessa de quem o atleta foi aluno. O técnico deve ser escolhido desta forma também, se você tem mais atletas dentro da seleção demonstra que você tem capacidade de conduzir uma equipe, mas é necessário que você seja especialista na área.

[MMABr] Estamos começando a viver uma mudança no esporte provocada pela tecnologia, com os sensores nas competições, por exemplo. Como você vê a influência da tecnologia no Taekwondo, tanto nos treinos como nas competições?

[DS] O nosso esporte está passando por grandes mudanças. Os chutes estão tão rápidos que o olho humano não está mais conseguindo acompanhar nosso ritmo. Os erros estavam sendo constantes e piorando ano após ano.

Hoje foi inserido o colete eletrônico, chips estão espalhados nesses coletes para diminuir o erro humano, mas a mudança vai custar muito caro para nós. Cada par de colete eletrônico custa em média dez mil dólares.

[MMABr] Há mais ou menos 15 anos o Taekwondo era um esporte mais plástico, pelo menos no ponto de vista do espectador. Atualmente o esporte vem se tornando cada vez mais eficiente, em detrimento da plástica. O que influenciou esta mudança e como você vê isso?

[DS] Antes o Taekwondo era para atores de filme de Hollywood, bonito e plástico, o esporte dos homens voadores. Eu gostava antes, mas gosto também da parte competitiva, da preparação para se alcançar o sucesso. Confesso que o esporte está ficando mais feio, os chutes já não são tão bonitos, mas são mais eficientes. Não gosto dessa cultura de mestre. Mestre é para os orientais, aqui no Brasil a educação é outra.

[MMABr] Infelizmente sempre que pesquisamos sobre notícias do Taekwondo brasileiro nos deparamos com confusões, brigas na CBTKD e etc. Como você acha que isso interfere na evolução do esporte? Como afeta o trabalho dos atletas e técnicos?

[DS] Nos afeta de todas as formas, impede de evoluirmos, porque há sempre um racha entre as comissões. Grandes empresários não investem em esportes polêmicos e acaba diminuindo nosso espaço na mídia. Mas sem tem problemas em uma empresa, esses problemas devem ser solucionados.


[MMABr] A estrutura que te cerca, tanto aquela conseguida por esforço próprio, como a proveniente das entidades (COB, CBTKD e Clube) é suficiente? O que falta para o lutador que domina as competições no Brasil dar um passo maior em nível mundial?

[DS] Profissionais. Estamos rodeados de amadores, um monte de gente que não sabe trabalhar com alto rendimento, não tem formação acadêmica, não sabe falar, trata seus atletas como filhos e não como soldados. Nos esportes de luta os atletas devem ser resistentes psicologicamente.

Nossa equipe tem a melhor infraestrutura do Brasil porque não aceitamos amadores trabalhando com nossos atletas.

[MMABr] Depois de parar de lutar, quais são seus planos para o Taekwondo?

[DS] Estou terminando minha faculdade de Educação Física e vou me especializar em política esportiva, mas como gerenciador.

[MMABr] Fale sobre a Natalia Falavigna, que é a atleta do Taekwondo brasileiro com mais espaço na mídia.

[DS] …… essa é uma boa resposta……

[MMABr] E o Michael Silva, garoto que conseguiu vaga na Seleção permanente e que treina com você em Piracicaba?

[DS] Michael tem apenas 19 anos. Olho para ele e lembro de quando entrei na seleção com a mesma idade. Você quer lutar tudo, mas não dá para ganhar tudo. Eu vejo o Michael como o futuro do nosso esporte.

[MMABr] Qual a vantagem de um praticante de Taekwondo numa eventual migração para o MMA?

[DS] Alguns atletas de Taekwondo já tentaram migrar para o MMA, mas não obtiveram sucesso. São dois esportes completamente diferentes, o Taekwondo não tem vantagem nenhuma no MMA.

[MMABr] Sobre sua vida fora do esporte: o que pensava em fazer da vida antes do Taekwondo?

[DS] O que eu sou hoje foi o que eu sempre quis ser, nunca pensei em outra coisa. Hoje sonho com outras coisas, mas que estejam ligadas de uma forma ou de outra com o esporte.

[MMABr] Muito obrigado pela entrevista. Acho que precisamos de mais atletas como você, com capacidade técnica e com capacidade de enxergar o que deve ser corrigido. Quer agradecer a alguém?

[DS] Gostaria de agradecer aos nossos patrocinadores: AMHPLA, Biótipo, Nutriactive, Academia O2, Restaurante Frios Paulista, Ecko e UNISA. Obrigado pelo apoio.

  • Antonio

    Muito, muito, muito legal a entrevista! Por dar voz a um atleta de respeito, mas de quem ouvimos pouco na mídia, por abrir o leque do MMA-Brasil para esportes de combate em geral e por elucidar mais da rotina, pensamento e batalhas desse atleta olímpico brasileiro.

  • diego

    BA SHOW A ENTREVISTA SO NAO GOSTEI DO Q ELE FALO DO Taekwondo não tem vantagem nenhuma no MMA QUAL E A MORAL DELE TREINA SE ELE NAO ACREDITA NAQUILO Q ELTREINA PARA COMPECIA MMA TBM E ?????? VAI INTENDE =[

    • Diego,

      Na verdade o MMA já tem alguns caras oriundos do TKD. Cung Le e Dan Hardy são exemplos bem conhecidos da galera.

      Acho que eles se referiram ao Taekwondo olímpico, de competição.

  • Arthur J

    Foi muito emocionante mesmo ver o Diogo chorando no pódio enquanto a bandeira brasileira flamulava no estádio. Esse cara tem muito a dizer, parabens ao mma-brasil por nos agraciar com esta bela entrevista.

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