Entrevista Demian Maia: “Tenho mais uns dois anos para tentar uma nova disputa de título”

Por Alexandre Matos | 25/10/2017 21:54

Na reta final de preparação para o UFC São Paulo, que acontecerá no próximo sábado, a organização e o canal Combate fizeram um evento para o lançamento do episódio da série “Nascidos para a luta” com Demian Maia e Maurício Shogun. Naquele momento, Shogun estava há dias de voar para o Japão, em luta que acabou caindo. Já Demian entraria no último mês de preparação para enfrentar Colby Covington.

Prestes a completar quatro décadas de vida, Demian ainda sente que tem lenha para queimar em busca de uma nova chance de disputar o cinturão dos meios-médios. Num bate-papo exclusivo com o MMA Brasil, ele falou sobre o desafio a Tyron Woodley, o que ele pode fazer para mudar o resultado numa revanche – e mesmo se ele prefere outro campeão para ter nova oportunidade.

Eu queria abordar dois assuntos principais com você: o que você fez até agora no peso meio-médio e o futuro. Você está numa idade em que a maioria está parando ou já parou, mas teve uma excelente trajetória na categoria, com a maior sequência de vitórias, mas nada da chance chegar. Teve algum momento que você pensou que não conseguiria disputar o cinturão?

Cara, tiveram momentos de frustração, mas chegou um momento que eu liguei o…

Pode falar!

O foda-se! Falei: “eu tenho que lutar, tenho que fazer o melhor. Esse é meu trabalho”. Tinha que tentar abstrair um pouco senão ia ficar louco. E consegui, me mantive lutando e conquistando as vitórias.

Teve alguma preocupação em acabar ficando muito tempo parado e perder ritmo de luta? Foi por isso que você aceitou lutas quando muitos achavam que você deveria esperar?

Na verdade, não. Eu peguei porque me foi dito que, se eu não pegasse, não iria disputar (o cinturão). Não foi uma opção minha.

Com certeza não é bom pra um atleta ficar muito tempo parado. Se eu tivesse com 30 anos… mas mesmo pra um atleta novo não é bom perder muito ritmo. Para qualquer atleta é melhor se manter no ritmo. É mais difícil se manter no ritmo, é cansativo, mas é melhor.

Você ficou muito grande e forte no meio-médio e conseguiu manter o peso mesmo com a proibição do soro. Por isso você se estabelece muito forte na luta agarrada, que é a sua especialidade. Então veio a luta contra o Tyron Woodley, que muitos achavam que você venceria assim que botasse pra baixo. Por 25 minutos você tentou, mas não botou pra baixo. Teve alguma hora na luta que você pensou que não ia dar?

Em nenhum momento. Eu estava com a cabeça bem preparada, bem forte. Em nenhum momento eu me frustrei ou achei que não tinha chance de ganhar. Isso nós trabalhamos muito. Até o último minuto eu acreditei que, se botasse pra baixo, eu poderia finalizar, mesmo já perdendo a luta. Lutei igual a um robô: “Vamos lá, vamos tentar”, tanto que foram 20 e poucas entradas de queda, eu agredi o tempo todo dentro do meu tipo de jogo. Ele se defendeu muito bem. Eu treino para não me frustrar, então foi bem eficiente.

Sobre o seu futuro, achei muito legal a escolha do próximo adversário. Você faz 40 anos no fim do ano, eu pensei que você iria lutar para se divertir, para ganhar seu dinheiro honesto, curtir a vida e se aposentar. Aí você pega um moleque que está crescendo, com um jogo duro. Se você vencer o Colby Covington, está de volta à trilha. É essa a sua intenção?

Essa é a minha ideia, é lógico. Eu tenho esse espírito competitivo, de querer ser campeão, então, independentemente de eu ter oportunidade, de me darem a chance de novo ou não, eu tô lá fazendo o meu trabalho. Como você falou, é um moleque duro. Não sei se vou ganhar, se vou perder, mas se eu ganhar, tô na trilha de novo. E é isso o que eu quero. Não quero lutar só por lutar, pelo menos por enquanto.

Você já viu o jogo do Tyron Woodley. Consegue adaptar alguma coisa que não deu certo na primeira luta para alcançar o seu intuito na segunda ou prefere que o Robbie Lawler ou o Rafael dos Anjos conquistem o cinturão?

Eu consigo ver coisas para adaptar ao Tyron, mas, em termos de mercado, eu tenho mais chance de disputar de novo se o Lawler for campeão. Por a minha luta com o Woodley ter sido muito defensiva, por parte do Tyron, e eu não ter conseguido impor meu jogo, o público pode não querer e ter mais resistência do UFC em escalar essa revanche. Mesmo caso do Stephen Thompson, que fez uma luta que não foi muito… acho que eu teria mais chance se o campeão mudasse. Não que eu prefira um ou outro, mas acho que o UFC me daria mais probabilidade contra o Lawler.

Você acha que ainda tem mais quantos anos competitivos mesmo? Quanto tempo você acha que ainda tem de estrada para desafiar o cinturão novamente?

Em alto nível? Acho que… cara, eu não sei. O meu corpo, não tenho como saber. O que eu tenho como saber é que uma hora eu vou querer parar um pouco com essa loucura de o UFC marcar um negócio e você ter que ficar em função disso. No fim das contas, a gente tem um patrão, que é o UFC. Uma hora eu vou querer ser meu próprio patrão, vou querer decidir, não ter que desmarcar viagem no meio do caminho. Eu não reclamo, foi isso que eu escolhi pra vida, mas se você trabalha no UFC e marca uma viagem com a família, tem que desmarcar se marcarem uma luta. Isso é legal, eu escolhi, mas é desgastante. Acho que mais uns dois anos ainda dá para levar.

Pegando esse gancho, não tenho como evitar: e o Anderson Silva? Você ainda tem vontade de lutar com ele antes de se aposentar? Ele já está meio nessa fase de se divertir.

Eu tenho se for nesse esquema que você me falou, na hora que eu já estiver desencanado, já sem tanta preocupação de desempenho, de ser campeão. Seria mais uma preocupação de fazer uma luta que o público quer ver, uma revanche.

Você ainda tem aí dentro uma vontade de vingar aquela luta de Abu Dhabi, com aquelas polêmicas todas?

Eu sou muito frio, não tenho essa raiva que as pessoas pensam, hoje em dia. A gente passa por tanta coisa, a gente supera tanta coisa… lógico que uma luta com ele, pela história, seria interessante. Independentemente do que achem, ele é um grande lutador. Vamos ver. Primeiro eu tenho que lutar agora, tenho que ver o que vai dar, como vou me sair, pra saber que rumo vou tomar.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.