Entrevista com o preparador físico Jairo Corsino: “Desidratação em sauna e soro na veia são ‘crimes'”

Entrevista com o preparador físico Jairo Corsino: “Desidratação em sauna e soro na veia são ‘crimes'”
MMA

Profissional que cuida da preparação do meio-médio do UFC Wendell Negão fala sobre sua metodologia de corte de peso sem desidratação em sauna ou outros procedimentos severos. Corsino falou também da estreia de seu pupilo e o segredo que diferencia o Team Alpha Male no âmbito físico.

O corte de peso dos lutadores é um assunto que nunca sai das discussões sobre MMA. Problemas de saúde decorrentes do processo, atletas que cansam antes da hora, que lutam de modo lento ou muito fracos, não faltam polêmicas acerca deste tópico.

No Brasil, há um preparador físico que começa a se destacar usando metodologias que vão contra o que muitos pregam. Jairo Corsino, que cuida do condicionamento de Wendell Negão, meio-médio do UFC, é veementemente contra a desidratação severa e considera a injeção de soro na veia “um crime”.

Para entender melhor como funciona esta metodologia de trabalho, o MMA Brasil conversou com Corsino por quase duas horas. Houve tempo até para tratar da estreia de Wendell no UFC e para abordar a questão dos camps de treinamento do Team Alpha Male, tema de uma matéria lançada na semana passada.

Como funciona este método que você tem usado no corte de peso dos seus lutadores? É um processo mais saudável do que o tradicional que usa desidratação severa?

Não é que seja saudável. Quando você trabalha com este tipo de atleta profissional, nunca é saudável. Meu método é menos prejudicial para o atleta. Eu já vi lutador sofrendo desmaio antes de entrar na pesagem.

Pensa comigo: músculo tem de 75 a 80% de água. É a água que faz a transição dos eletrolitos importantes. O músculo, para contrair, precisa destes nutrientes. Com pouca água, esta mobilidade fica dificultada. A maioria dos atletas não lutam 100% hidratados. Eles se preocupam em comer, em botar soro na veia, que é outro “crime”. Imagina o cara que desidrata uns 10 quilos. Quantos soros ele teria que tomar? Em 24 horas, não vai conseguir reidratar 100%.

Eu falei com o Wendell que as coisas teriam que ser diferentes no UFC. Quando ele lutou no Face To Face, desidratou 13 quilos, estava praticamente rastejando na pesagem. Eu falei pra ele: “Negão, para com isso, você vai morrer”. Para a estreia no UFC, ele aceitou mudar o método. Um dia antes da pesagem, em Brasília, ele foi pro shopping e comeu na Subway.

Como foi isso?

Na quinta-feira, fui pesá-lo por volta de 18:30h. Ele marcou 78 quilos na balança oficial do UFC. Então eu pensei: “Vou jogar com o psicológico dele”. Falei para trocar de roupa porque nós iríamos ao shopping jantar. Meus atletas todos jantam e tomam café da manhã, a quantidade é que depende do peso que eles estiverem.

Chegamos na praça de alimentação e eu falei para ele escolher o restaurante que quisesse. Quando ele escolheu a Subway, falei que tinha que ser o (sanduíche) de 15 (centímetros), mas ele disse que, se era para ser Subway, tinha que ser o de 30. Se ele ganhasse até três quilos, estaria tudo bem. Eu trabalho com desidratação de até 5% do peso corporal, que é uma margem segura.

Ele comeu e, quando voltamos para o hotel, falei para ele deitar e dormir. Quando deu 23:30h, nós descemos para o Wendell bater oito rounds de manopla. Depois ele se pesou e estava de novo com 78. No dia seguinte, Wendell comeu quatro fatias de queijo branco e uma xícara de café bem quente. Em seguida, fiz o processo de desidratar com roupa plástica coberto com edredon na cama.

Como é a preparação para esta desidratação perto da pesagem?

Eu uso o processo de super-hidratação. Alguns treinadores reduzem a quantidade de água do atleta para ele perder água. Fisiologicamente isso não existe! Eu faço o atleta super-hidratar por até seis semanas. Dou cinco litros de água mais um litro de água de coco natural por dia. Na super-hidratação, o sangue fica muito fino e o corpo passa a produzir um hormônio que auxilia na liberação da água.

Faltando dois dias para a pesagem, eu reduzo bruscamente a água para dois litros diários. Só que o corpo demora até 36 horas para entender esta diminuição e segue liberando água. Eu o “dopei” com hormônio anti-diurético natural, fiz o corpo produzir em grande quantidade. No caso do Wendell no UFC Brasília, foi preciso apenas de mais 40 minutos deitado coberto para perder o final e bater o peso. Ele estava com 77,100 ao meio-dia (a pesagem aconteceu às 16:00h).

Este é o processo perto da pesagem. Mas como funciona o corte de peso completo, desde quando ele sai do off e entra em camp?

Isso eu trouxe de quando trabalhei com futebol. No começo, faço uma avaliação. Se sei que um quilo de gordura tem 7.700 calorias e o lutador precisa perder 10% de gordura, significa que ele tem que perder 77 mil calorias. Eu pego esta quantidade e divido pelas semanas do camp, mas com um lastro de segurança de uma a duas semanas. Quando eu divido estas calorias pelo número de dias, sei quantas calorias o lutador precisa gastar por dia. Assim, crio o déficit calórico dele baseado na quantidade de calorias que ele consome por dia, que é informado pelo nutricionista.

O atleta tem que ser honesto comigo e dizer o que ele comeu de errado. O Wendell vive dando umas escapadas, come um torresmo aqui, uma feijoada ali. Tranquilo, mas ele vai ter que pagar este excesso em outro dia. Em seis semanas eu super-hidrato o atleta e reduzo sua gordura corporal de 20 para 5%. Ele vai estar forte para lutar.

Falando da estreia do Wendell no UFC, o que você acha que aconteceu?

Acho que ele perdeu para o emocional. Ele ficou desacelerado. Wendell sempre entra pilhado para lutar. No UFC, ele entrou chorando. Até “entrar” na luta, demorou um pouco.

Eu entendi o que ele sentiu. Na pesagem, quando desci do ônibus, entrei no ginásio e vi o octógono, aquele símbolo do UFC gigante, passou um filme na minha cabeça. Sempre sonhei estar ali. De onde eu saí, fazia merda na rua, roubava os outros, usava drogas, pesava 67 quilos. Quando vi que estava no maior evento do mundo, deixei o Wendell andar na frente e comecei a chorar. Só que ele já estava chorando pra cacete, não conseguiu se controlar. No dia do evento foi a mesma coisa.

Para a próxima luta, agora que passou a estreia, as coisas vão melhorar. Ele trouxe o (técnico) Clayton Mangueira de volta para perto dele. O Mangueira conhece o Wendell de trás para frente, estiveram juntos em umas 28 ou 30 das 34 lutas que ele fez. Além disso, o Josuel Distak já deixou as portas da X-Gym abertas. Seria ótimo trabalhar o jiu-jítsu com o Ronaldo Jacaré.

Voltando à questão da preparação física, como acontece quando um atleta seu tem pouco tempo para se preparar?

Teve um caso de um atleta meu, o Michel Canto, da War Machine CT (equipe de Wendell Negão), que recebeu uma proposta para lutar em cima da hora. Ele estava com 86 quilos e precisava bater 77 em quatro semanas.

Como eu não faço desidratação severa, falei que ele teria que fazer dieta firme. Fiz o procedimento de sempre: medi o percentual de gordura (ele estava com 17%), defini o déficit calórico e ele só precisou desidratar um quilinho. Fez isso batendo manopla.

A exceção foi o peso galo que precisou cortar 14 quilos em 17 dias para lutar no Jungle Fight. Eu fiz o garoto assinar um termo de responsabilidade, já que seria preciso fazer desidratação severa. Eu o super-hidratei e ele entrou numa dieta de 1.100 calorias. O moleque ficou fraco, mas não tinha jeito. Teve que desidratar uns nove quilos. O cara bateu o peso, mas eu falei para o Wendell que nunca mais faria aquilo. Fiz quatro anos de faculdade, duas pós-graduações. Se um cara morre, eu jogo tudo fora. Ninguém vai querer saber se ele foi irresponsável.

Teve também o caso do Marcelo T-Rex, que estava de saco cheio de sofrer para bater 66 quilos e pensava até em se aposentar. Quando ele foi disputar o cinturão no Coliseu Extreme Fight, passou 50 dias no Rio comigo. Ele chegou com 79 quilos, se não me engano.

Fiz o procedimento de costume. Quando chegou o dia da pesagem, todos os lutadores estavam com cara de sofrimento. T-Rex então entra no café da manhã, pega o prato e bota quatro uvas, duas fatias de queijo branco e café. Aí foi o rebuliço: “Que porra é essa, T-Rex? Você vai tomar café?” Pois ele tomou, depois fizemos o processo de desidratação no quarto e ele bateu o peso. Foi a sensação da pesagem.

E a reposição do peso após a pesagem?

Tem muita gente que faz errado. O cara sai da pesagem, toma 15 Pedialyte no gargalo como se fosse água. Mas existe uma quantidade máxima por hora para se ingerir. Está escrito na bula! Se ingerir mais do que isso, sai na urina.

Duas horas depois que meu atleta saiu da pesagem, reidratado com água e Pedialyte, eu começo a fazer pico de insulina dando chocolate com castanha ou sorvete. Este pico de insulina carrega a glicose para dentro da célula e dali para a mitocôndria transformá-la em energia. Só que como o pico é muito alto, o excesso é enviado para o fígado como glicogênio hepático. É isso que o atleta precisa na hora da luta. Então ele faz uma reserva energética no fígado e depois outra reserva energética adiposa. Aí começa a subir o peso.

Este processo fisiológico dá sono. Eu faço então o lutador dormir um pouco. Neste momento, o pico de insulina passa e o cara acorda com fome de novo. A partir daí, de duas em duas horas, é lasanha, macarrão, proteína boa. E faço comer tomate com sal. Tomate é rico em vitamina A, que faz a membrana plasmática aumentar a adiposidade, retendo líquido na célula. A massa é sempre ingerida com molho de tomate feito na hora. No outro dia, eu fico no pé para não deixar o lutador comer o que não presta e também não exagerar. Faço ele comer muita fibra para dar aquela “barrigada”. A última refeição acontece três horas antes da luta. Assim o atleta recupera uns 90% do que perdeu. Wendell recuperou 12 quilos na luta contra o Ponzinibbio.

O problema é que isso não tem fórmula. O cortisol e a adrenalina atrapalham muito, eles fazem a depleção do glicogênio muscular muito rapidamente. Por isso que, quando o atleta fica muito nervoso, ele cansa mais rápido.

Mudando de assunto, na semana passada eu publiquei uma matéria sobre contusões no UFC e falei da rotina do Team Alpha Male, que faz um camp diferente, onde os lutadores estão constantemente em forma, como se não houvesse período de off. Qual é a diferença do que eles fazem para o que acontece nas equipes brasileiras?

A diferença do Team Alpha Male é que eles trabalham com o conceito de camp, mas não abusam. Todo treinamento desportivo é dividido em fases (transição, fase geral, fase básica, fase específica), então o camp faz sentido. O pessoal do Team Alpha Male provavelmente não abusa na fase de transição, eles continuam treinando sem subir o peso. Diminuem a intensidade do treino, mas não param.

O problema não é o camp, é o atleta subir muito de peso. Wendell lutou em setembro e ficou um tempão em off. Os caras lá (no Team Alpha Male) devem fazer off de uns 20 dias, porque precisam de descanso, mas sem lixo. O TJ Dillashaw ganhou o cinturão e deve ter tomado cachaça por uns três ou quatro dias. Provavelmente voltou para a academia com o olho inchado ainda. Por isso eles vivem tirando fotos sem camisa, todo mundo com o abdômen trincado. Aqui no Brasil eu não conheço um que seja 100% profissional.

  • Juan

    As matérias desta última quinzena estão muito interessantes. Parabéns!

    • Valeu, fera! Estamos tentando voltar às nossas origens de conteúdo.

  • Airton S

    Porra, que aula! Nunca li nada assim na mídia nacional de MMA.

  • Gabriel Fareli

    Parabens Alexandre, SENSACIONAL a entrevista e ótimo assunto pra debate.
    O Jairo se mostrou um cara muito inteligente, e que sabe o que faz, gostei demais das explicações dele.
    Otima entrevista mesmo.

    Abs

  • Gabriel Carvalho II

    O site sempre foi ótimo, mas está se superando nas últimas semanas!

    • Estamos voltando às nossas origens, fera.

      • Pedro Lins

        voltou a ser aquele MMA Brasil de raiz, moleque, de várzea, pé descalço na lama… hahaha

  • Luiz Guilherme

    Alexandre parabéns por mais uma grande matéria!!
    Mto boa

  • Raphael Teixeira

    sem sacanagem, umas das melhores materias q ja li, quando uma pessoa fala o q sabe,parece facil e tu torce pra materia nao acabar mais, ele fala com propriedade e achei uma otima entrevista,poderia ser uma com video

    • Valeu, Rapha! A ideia é fazer em vídeo também quando o Wendell lutar de novo.

  • Victor Augusto

    Ótima entrevista Alexandre. O MMA brasileiro precisa de mais gente como você e o Jairo.

  • Marcelo Santos

    Uma das melhores matérias do MMA Brasil.
    Site TOP é isso aí.
    E muito bacana o profissional não ficar escondendo o jogo dizer de maneira clara como trabalha , espero que muitos lutadores leiam a entrevista e abram sua mente.
    abc e boa semana para todos

    • Jairo falou na conversa que não faz sentido esconder informação porque ele estaria atrapalhando o esporte.

  • Rafa FriAll

    Como disse o Airton, foi uma aula. Parabéns Alexandre e principalmente Jairo.

  • Malk Suruhito

    “Aqui no Brasil eu não conheço um que seja 100% profissional.”
    Forte isso hein? É a impressão que dá mesmo.

    • Ele falou que não conhece, não que não existam. Provavelmente existe, mas ele não acompanha os métodos.

      Mas quando a gente vê uma entrevista com o Renan Barão dizendo que vai passar a se alimentar como atleta e parar de comer pizza, talvez os 100% tenham um escopo maior.

    • will

      Acho que o Rafael do Anjos, por exemplo, é muito profissional. Ele vai longe.

      • Malk Suruhito

        Dos Anjos é brasileiro, mas não treina no Brasil (treina na Kings, do Rafael Cordeiro).
        É claro , ele disse que não conhece, não que não exista também.

  • Felipe Freitas

    Genial! Imagina quantos atletas vão zuados para a luta por causa da pesagem e acabam perdendo? O método do Jairo poderia ter alterado vários resultados causados por pesaqens zuadas

  • Thiago Kuhl

    Tá mandando muito bem nas matérias Alexandre… a boa fase dos Packers contaminou o MMA Brasil? Procede produção?

  • Jairo Corsino

    Gostaria de agradecer a td pela leitura e pelos elogios feito a mim e ao Alexandre ! Estou a disposição para maiores dúvidas no meu face ou instagran!
    Conhecimento guardado é o mesmo que câncer mal recuperado, não tem sentido !
    Quanto mais ou disseminar minha metodologia , mais serei respeitado pelos profissionais essa é a minha visão !
    Seminários e palestras: jairocgj@gmail.com será um prazer visitar sua cidade para debatermos conhecimento abraços ! A tds os fãs do MMA BRASIL OSSSS!

    • will

      Faz muito bem em se recusar a fazer esses cortes de peso drásticos. É a sua carreira e reputação que estão em jogo, além da vida do atleta. Parabéns!

  • Vitor Halk

    Para chover no molhado, ótima entrevista!!!

  • will

    Ótima entrevista. Faz tempo que eu tinha dúvidas sobre essa perda de peso antes das lutas. Pelo que eu entendi, me parece ser pior uma perda drástica de peso. O ideal parece ser manter-se próximo ao peso da categoria. Atletas profissionais não podem se dar ao luxo de engordar! O ideal é “achar” uma categoria que seja confortável e ficar nela. Essa história do Aldo subir pros Leves me parece uma aposta perigosa. Os caras nos Leves são muito grandes. Por outro lado ele iria ganhar muita força, enquanto os maiores entram fracos e desidratados. Alguém concorda?

    • De modo geral é isso aí que você falou. Quem desidrata muito, recupera muita água. Quem desidrata menos tende a se manter mais forte em relação ao dia da pesagem. GSP, Pettis, Edgar, Velasquez, Rashad, Lyoto, são vários casos de campeões no UFC que não perdiam tanto peso, que não eram dos mais pesados das respectivas categorias.

  • Paulinho Rodrigues

    Excepcional entrevista! Jairo é fera!

  • ketrin

    Esclarecedor e sensato. Não poderia esperar nada diferente vindo do Jairo! Parabéns!