Entrevista com Lyoto Machida: “Lógico que ainda penso no cinturão”

O ex-campeão do UFC Lyoto Machida esteve em Natal e recebeu o MMA Brasil para uma exclusiva. Ele disse que ainda pensa no cinturão, apesar dos resultados recentes, e que sempre busca aprender com seus erros.

A carreira do ex-campeão do UFC Lyoto Machida já esteve mais confortável. Vindo de duas derrotas consecutivas, a finalização para Luke Rockhold e o nocaute diante de Yoel Romero, o “Dragão” acabou afastado de uma nova disputa pelo título dos médios e hoje ocupa a quinta colocação do ranking em que já foi o primeiro. Porém, mesmo aos 37 anos, o baiano radicado em Belém do Pará não jogou a toalha.

Machida esteve em Natal, capital do Rio Grande do Norte, na semana passada. Ele recebeu o MMA Brasil para uma entrevista exclusiva em que falou sobre como a educação japonesa e o treinamento multidisciplinar desde cedo o ajudaram na carreira. Lyoto ainda explicou a importância de três pessoas em sua formação, além das controvérsias nos duelos contra Maurício Shogun, Rampage Jackson e Phil Davis: “Culpar o resultado é a melhor maneira que você tem de enfraquecer. Quando eu assumo tudo isso (meus erros), fica mais fácil de evoluir”.

Como a educação nipônica te ajudou a ser um lutador com um perfil diferente da maioria, tanto no seu estilo de vida quanto no tratamento com a imprensa e os fãs?

Não me comparando com ninguém, pois eu acho que cada um tem o seu valor, mas fui educado de uma forma oriental, meu pai sempre se preocupou muito com esse lado de introduzir a filosofia do caratê. E talvez eu seja um pouco mais quieto, tento respeitar mais as pessoas, porque eu aprendi dessa forma.

Como se deu a sua transição do caratê para o MMA?

Foi uma coisa muito natural, quando eu assisti ao UFC pela primeira vez, com o Royce Gracie. A partir daquele dia, coloquei na minha cabeça que eu um dia iria participar e me tornar um campeão desse evento. Daí eu fui construindo minha carreira, foi quase um processo por osmose. Na mesma academia que o meu pai (Sensei Yoshizo Machida, mestre japonês oitavo dan de caratê) dava aula, tinha jiu-jítsu, tinha sumô, e eu fui treinando outras artes marciais já pensando nesse objetivo.

Então você começou a treinar jiu-jítsu e se tornou um faixa-preta já pensando em lutar MMA?

Totalmente, desde o início eu já pensei nisso. Quando me formei faixa-preta de jiu-jítsu, eu já imaginei essa situação de lutar MMA e ser um lutador completo.

Gostaria que você fizesse uma análise de três pessoas importantes na sua evolução como atleta de MMA. Vamos lá?

Manda.

Lyoto-Machida-Natal-RN

Yoshizo Machida.

Meu pai é o formador de tudo. É o cara que me criou como lutador, como homem e como educador. É o cara por quem eu sempre agradeci por tudo.

Chinzo Machida.

É meu irmão, um cara que sempre está comigo nos momentos difíceis, nos momentos fáceis, na alegria, na tristeza. Sempre está ali, ao meu lado, e isso é uma coisa que eu não posso deixar de falar nunca.

Paulo Afonso (treinador de caratê e MMA).

É um cara que sempre foi um ídolo pra mim. Eu via no Paulo Afonso um cara super rápido, super atleta, destemido, um cara que encarava qualquer situação. Então ele sempre foi um ídolo pra mim no caratê e no MMA também, pois ele foi o pioneiro (não fui eu) a mostrar o nosso caratê no MMA.

Em suas primeiras lutas de MMA, nota-se que você seguia uma linha bastante comum dos lutadores brasileiros, que era de levar para o chão e desenvolver o jogo de solo. Quando você notou que poderia deixar isso um pouco de lado e passar a desenvolver mais a sua arte-mãe?

No meu início, no Japão, era exigido que eu fizesse a luta de solo, pois eu era do escritório do Antonio Inoki (promoter de wrestling profissional e MMA), que vinha do grappling, então ele exigia isso. Depois eu percebi que precisava ter o meu próprio estilo.

Existiram três lutas controversas em sua carreira: sua vitória sobre Maurício Shogun (na primeira defesa do cinturão dos meios-pesados do UFC) e as derrotas para Rampage Jackson e Phil Davis. O que você tem para falar, mais uma vez, só para ratificar, sobre esses eventos?

Realmente a luta contra o Shogun foi dura, ele se preparou para aquele combate, mas o resultado fala por si só, os juízes deram os três rounds para mim. Não tem muito o que questionar. A luta contra o Rampage também. Muita gente falou que eu venci, mas talvez tenha faltado alguma coisa da minha parte, ou dos juízes, não sei. O resultado não foi da maneira que eu gostaria. E o Phil Davis também. Culpar o resultado é a melhor maneira que você tem de enfraquecer. Então eu sempre busco olhar pra frente e achar um culpado, e esse culpado geralmente sou eu, quando eu assumo tudo isso, fica mais fácil de evoluir.

Aos 37 anos e vindo de dois reveses, Lyoto Machida ainda pensa no cinturão?

Lógico. Eu tô aqui pra isso, não tô de brincadeira, não tô aqui só pelo dinheiro. Eu tô aqui porque quero me tornar o melhor. Eu ainda tenho condições de mostrar o meu trabalho da melhor forma possível. Vamos ver.

Fotos: PH Souza

  • Hudson Paulo Dias

    Meu ídolo máximo no MMA.

  • bruno carrer

    Curto muito o Lyoto mas ser campeao nos medios ta osso demais. Só pela surra que deu no Rashad ja valeu.

  • Beto Magnun

    “Culpar o resultado é a melhor maneira que você tem de enfraquecer. Então eu sempre busco olhar pra frente e achar um culpado, e esse culpado geralmente sou eu, quando eu assumo tudo isso, fica mais fácil de evoluir.” Tem muito lutador precisando seguir isso (cofgadelhacofcof). E fãs também…

    • É verdade. Só não sei se a Gadelha é a que mais precisa disso, até porque eu achei que ela ganhou da Joanna.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Um dos meus lutadores preferidos, boa entrevista!

    • Rodrigo Cruz

      Vlw parceiro. Obrigado pelo apoio.

  • Lero

    Teve outra luta de resultado controverso que era bom saber que pensava ele: BJ Penn

    • Verdade, mas poucos viram essa.

      • Lero

        com youtube agora todos somos historiadores de MMA… é noix!

  • Marcos Henrique Lira

    Lyoto grande lutador. Porém não o vejo mais disputando a cinta. Talvez o ideal seria fazer super lutas pra encerrar a carreira por cima ganhando uma boa grana e fazem o pé de meia.