Entrevista: A coach Nell Salgado fala do trabalho de apoio psicológico no MMA

O lado psicológico no MMA é tão importante quanto envolto em dúvidas. Para tentar entender um pouco melhor este aspecto, conversamos com Nell Salgado, que atua como coach com Santiago Ponzinibbio e Kevin Souza.

Muito se fala que determinado lutador tem talento para ir mais longe, mas o lado psicológico cria uma barreira para a melhoria dos resultados. Isso acontece não só no MMA, mas em qualquer atividade esportiva (na verdade, em qualquer atividade profissional).

Visando compreender um pouco melhor este aspecto tão importante quanto pouco explorado, conversei com a psicóloga Nell Salgado, que tem formação de Master Coach/Coach Desportivo, em Análise de Expressões Faciais e Linguagem Corporal (IBRALC) e em PNL (programação neurolinguística). Nell trabalha atualmente com os lutadores do UFC Kevin Souza e Santiago Ponzinibbio, que luta no próximo dia 10 contra Andreas Stahl, no UFC Fight Night 80.

A primeira atleta que virou cliente de Nell foi Rafaela Silva. Em 2012, a judoca pensava em abandonar a carreira. Resultado: já em 2013, Rafa conquistou o Campeonato Mundial no Rio de Janeiro, dando a volta por cima do mar de críticas que recebeu nos Jogos Olímpicos de Londres, no ano anterior.

Nell Salgado com sua primeira cliente atleta, a judoca Rafaela Silva (Foto: acervo pessoal)

Nell Salgado com sua primeira cliente atleta, a judoca Rafaela Silva (Foto: acervo pessoal)

Mãe de dois filhos, casada há 20 anos, Nell sabe se impor com seus clientes – um deles é o problemático jogador Carlos Alberto, ex-Vasco, Botafogo e Corinthians. Ao mesmo tempo, ela constrói um laço de afinidade forte, que sustenta o trabalho profissional.

Coaching ainda é uma atividade que desperta muitas dúvidas nas pessoas. Você pode explicar melhor como funciona o seu trabalho com os lutadores de MMA?

Funciona da mesma maneira que em todos os esportes. Na verdade, o que muda é o tipo de atleta. Os profissionais do MMA têm uma pegada diferenciada, a sensação é que já nascem programados para a busca do alto rendimento, da melhoria contínua.

Como você identificou um possível filão para o seu trabalho no MMA?

nell-salgado

Sempre foi um sonho trabalhar com o UFC. Mais do que isso, uma meta. Normalmente, os atletas desse nicho se desenvolvem psicologicamente a partir dos seus instintos, das vivências obtidas a partir das suas experiências; o que é normal. Em se tratando de atletas de um nível muito alto, absolutamente focados e voltados para o resultado, vislumbrei onde eles, atletas, e eu, como profissional, poderíamos chegar.

O coaching transforma potencial em resultados, reprograma mentes, ensina a gerir emoções. Imagine isso associado a alguém programado instintivamente para vencer? Isso, sim, é desafio!

Você trabalha com dois lutadores que parecem ser bem diferentes: o Santiago Ponzinibbio, que aparenta ser muito pilhado, e o Kevin Souza, mais tranquilo. É assim mesmo? Como eles eram quando você começou e como se comportam hoje?

De fato, o Kevin é um cara mais reservado e o Santiago é mais aberto, se mostra mais. Na verdade, quando trabalhamos um indivíduo, desenhamos primeiro o seu perfil psicológico: como ele pensa, quais são os seus valores, suas crenças, como ele funciona, o que o impulsiona e o paralisa, etc. Nós não mudamos a essência! Meu trabalho é auxiliar o meu cliente a atingir os seus objetivos através de ferramentas específicas. O que o coaching faz é reprogramar a mente do atleta para que os pontos na sua personalidade e as vivências experimentadas anteriormente se alinhem e o impulsionem para o resultado. Então, podemos dizer que a mudança essencial a partir do processo de coaching é o autoconhecimento, a autogestão que ensina o atleta a lidar com as suas emoções e administrá-las.

A maior parte dos seus contatos com o Santiago é remoto (videochamada no Skype ou telefone). Há algum tipo de impacto no seu resultado ou o simples fato de conseguir conversar e ver as reações dele já são suficientes para executar o seu trabalho?

Santiago-Ponzinibbio-Skype

O principal no nosso trabalho é a construção da confiança. No meu trabalho com os atletas é fundamental a troca de informações, eu necessito saber tudo o que o meu cliente sente, para que seja realmente possível o acesso e ajuda até o objetivo final. Se não acontecer essa conexão, o processo fica capenga. Independentemente de a sessão ser presencial ou via Skype, quando essa conexão é estabelecida, o trabalho floresce e evolui a cada dia. Quantos de nós nos relacionamos pessoalmente, diariamente com alguém e não conseguimos ter uma afinidade verdadeira? Tem a ver com a conexão, isso é o mais importante.

Como você lida com a emoção de um lutador para uma luta? O ideal é que ele tente deixar qualquer tipo de emoção do lado de fora do octógono?

Sim, com certeza a ideia é essa. Quando você trabalha com um cliente, conhece suas deficiências, potencialidade, sabe exatamente como funciona a sua cabeça. Você sabe o que dizer, como agir para que ele performe da melhor forma possível. O trabalho é exatamente esse, a conexão é tão forte entre o coach e o coachee que o profissional consegue entrar na cabeça do cliente.

Quais são os sinais que você identifica numa luta que mostram que seu trabalho foi bem feito?

A concentração, o foco, a tranquilidade e, principalmente, a resiliência. Quando o atleta ganha a capacidade de reestruturar e se refazer após um golpe, uma queda… não instintivamente, mas conscientemente, é uma evidência clara da evolução do trabalho.

Você disse que gostaria muito de compor um córner de um lutador no UFC. Como você poderia ajudá-lo ali no córner?

Como posso ajudar? Dizendo a coisa certa! Conheço os meus atletas e eles me conhecem no olhar. Deus me deu um dom, e consigo entrar na cabeça deles, é quando a “mágica” acontece.

Quais são as principais características que vão diferenciar um bom lutador de um campeão?

Um bom lutador será sempre um bom lutador, mas não quer dizer que será um campeão, um fora de série. O campeão é diferenciado, tem uma inquietação própria, quer sempre mais. Para um campeão, ele sempre pode treinar mais, vencer mais, evoluir. Campeões estão dispostos a pagar o preço, qualquer preço, para atingirem seus objetivos. Têm capacidade de lidar e controlar a ansiedade, são confiantes, têm tenacidade mental/resiliência, e inteligência esportiva. Conhecem e buscam a ética de trabalho duro e a capacidade de definir e atingir metas.

  • Patrick Santos

    Sou um mero faixa amarela de kickboxing, mas com 1 ano treinando e competindo de forma amadora eu senti MUITO o aspecto psicologico. 2015 foi meu ano de vestibular e eu senti ainda mais pressão por resultado qnd ia subir pra lutar do que pra fazer uma prova, nao entendo… Esporte é uma coisa muito especial, se vc nao ta pelo menos 90% em equilibrio com tudo, sua performance é pessima. Parabens pela entrevista!

    • Por isso que tem caras não tão bons que superam outros porque têm o lado psicológico mais forte. Isso é fascinante.

  • Paulo Zanchet

    Legal abordar essa questão dentro do MMA. Não há dúvidas que o fator psicológico faz muita diferença na hora da luta. Ainda bem que alguns lutadores estão enfrentando o preconceito e tirando proveito disso.

  • Fulano de Tal

    OFF: Parece que Timbal se enrolou no exame anti dopping. Vai ter texto sobre isso?

  • Vitor Camilo

    Eu sempre tive uma suposição quanto ao psicológico na luta : Que o lutador que está bem preparado psicologicamente consegue aguentar mais golpes, isso deve ser viagem minha, mas já vi diversos daqueles programinhas da Discovery em que tem pessoas que conseguem ignorar a dor, ou até mesmo resistir a armas de choque apenas com o poder da mente. Se formos olhar pra alguns lutadores, principalmente os de “queixo duro” eles parecem ser pessoas muito aguerridas, que realmente amam o que fazem, por exemplo o Condit e o Hunt.

    • Willian Henrickson

      Cara penso o mesmo! belo exemplo ao citar o Hunt, eu por exemplo sou kickboxer por paixão, confesso que não nasci talentoso o suficiente e comecei tarde na luta pra viver dela, seria meu sonho fazer isso. Já lutei em eventos amadores e a adrenalina e a sensação de estar em cima do ringue é muito maravilhosa, eu realmente gosto disso. Como não participo mais de competições ajudo na preparação da molecada que vai lutar e vira e meche rola um sparring pesado, gosto quando a galera senta a mão em mim, apesar de não ser muito plástico, to mais pra Wanderley do que pra Anderson Silva, fui “abençoado” kkk , com um queixo duro. Resumo respeito essa galera da ciencia e tal que adentra o mundo da luta, mas creio que se o lutador não tiver por natureza paixão pelo que faz e “coração” receio que isso não se ensine. Acho que não existe terapia que transforme o Uriah Hall no Diego Sanchez.

      • Entendo nada de psicologia, mas acho que até certo ponto é possível trabalhar. Sair de Hall pra Sanchez é quase trafegar entre os extremos. Acho que rola se não for tão extremo assim.

  • Juan

    Seria mesmo muito interessante levar a psicóloga para o córner.

  • Tef Schäfer

    Tudo tranquilo, porém (provavelmente sou eu o chato, hehehe) mas, um profissional de uma área científica, dizer algo como “deus me deu o dom”, soa como algo muito amador… algo mágico, algo exotérico e que, portanto, depende de uma “sorte” de ter nascido com este “dom”…

    • Eu não me meto na crença de ninguém, mas entendo o seu lado, assim como entendo o dela.