Entenda as mudanças nos critérios de julgamento de lutas de MMA

Associação das Comissões de Boxe vetou a pontuação fracionada no julgamento dos rounds, mas definiu conceitos e diretrizes que devem melhorar a qualidade dos julgamentos - desde que juízes competentes façam o trabalho. Retirada da defesa é o ponto fraco das mudanças.

Provavelmente você viu a foto ao lado e se perguntou: “Quem é este cidadão e o que ele faz no MMA Brasil?” A primeira resposta é simples. Ele é Timothy J. Lueckenhoff, presidente da ABC Boxing, ou Association of Boxing Comissions (Associação das Comissões de Boxe), organização sem fins lucrativos, sediada nos Estados Unidos. A resposta da segunda pergunta é a relação que a ABC Boxing tem com as Regras Unificadas de Conduta do MMA.

Apesar do nome, a ABC Boxing controla todas as comissões atléticas dos Estados Unidos, Canadá, Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas. Ou seja, toda a parte de regulamentação do boxe profissional, do MMA amador e profissional e de outros esportes de combate sem armas são sancionadas pela ABC Boxing e implementadas pelas comissões estaduais, responsáveis pelo controle dos eventos em território norte-americano (exceto no México).

A ABC Boxing realiza conferências anuais para debater assuntos referentes aos esportes controlados por elas. Na de 2012, um dos assuntos debatidos foi o critério de julgamento das lutas de MMA, assunto polêmico e que já rendeu muita discussão no MMA Brasil. A fim de tornar as regras menos subjetivas, algumas medidas foram discutidas e novas recomendações foram definidas. Neste artigo, vamos apresentar e discutir o que foi deliberado pela ABC Boxing.

Pontuação fracionada não será implementada no MMA

Na conferência anual de 2010, foi proposta a implementação de pontuação fracionada no julgamento dos rounds numa luta de MMA. A ideia, proposta pelo árbitro e juiz Nelson “Doc” Hamilton, era quebrar as pontuações inteiras, inserindo meio ponto entre elas. Com isto, seria possível ver rounds com 10-9.5, 10-9, 10-8.5 e etc. Depois de análises feitas pela ABC Boxing, a ideia não foi aprovada.

A ideia de Hamilton, defendida por algumas pessoas da imprensa internacional, visava diminuir a diferença de 10-9 aplicados em rounds apertadíssimos e outros nem tanto assim, mas que ainda não tivesse sido claro a ponto de valer um 10-8. Ele propôs ainda a utilização de um quarto juiz para entrar em ação em caso de empates, possibilidade maior de ocorrer no sistema de meio ponto.

As comissões atléticas dos estados da Califórnia (uma das mais importantes dos EUA), Colorado, Geórgia e a canadense Alberta fizeram o teste da proposta. Em lutas amadoras e profissionais válidas, uma equipe paralela de juízes fez o julgamento dos combates utilizando a nova pontuação para confrontar os resultados com os obtidos pela regra vigente (pontuação inteira). Os resultados do teste foram enviados ao Comitê de Julgamento da ABC Boxing e o veredito foi publicado durante a conferência de 2012.

A comissão da Geórgia disse que nenhuma luta teve resultado alterado na nova pontuação. A do Colorado reportou também nenhuma mudança em mais de 550 lutas avaliadas, concluindo que a nova regra apenas traria mais empates para o MMA. Os comissários californianos notaram diferença de resultado em 7 de 389 lutas avaliadas (2%), lutas estas muito apertadas. Em outras 38 lutas (10%), houve diferenças no placar final, mas sem alterar o vencedor (ou seja, um 30-27 teria virado 30-28.5, por exemplo). Eles concluíram que o sistema atual já lhes atende e que a pontuação fracionada não resolveria o problema de juízes incompetentes. Por fim, a comissão do estado canadense verificou alteração em 4,85% das lutas testadas, concluindo que ficaria a cargo dos eventos optar pelo uso da pontuação fracionada ou manter o sistema de pontos inteiros.

Deste modo, a ABC Boxing considerou que o baixo índice de alteração nos resultados das lutas avaliadas não justifica mudança no sistema de pontuação, mas recomendou que as comissões atléticas invistam na contratação de juízes mais competentes e no treinamento do corpo de julgadores atual. O relatório da ABC Boxing pode ser visto no site oficial da entidade.

Opinião do MMA Brasil: nada a acrescentar em relação ao decidido pela ABC Boxing.

Defesa não é mais um critério de julgamento

O Comitê de Julgamento da ABC Boxing considera que as ações ofensivas devem ser o único critério a ser julgado em lutas de MMA. De acordo com o comitê, “lutadores ofensivos são aqueles que conduzem o ritmo do combate, fazendo a luta acontecer” e “defesa é a própria recompensa para os lutadores”. Ou seja, se um lutador opta por não usar ações defensivas para se proteger, o problema é dele.

De acordo com o comitê, ações defensivas só servem para manter o atleta na luta, possibilitando que ele mantenha-se capaz de pontuar com ações ofensivas. Defesa de quedas, jogo de esquivas, bloqueios eficientes, defesa de submissões, nada disso mais fará diferença no julgamento de uma luta, servirá apenas para proteger a integridade do próprio lutador.

Defesa não mais será considerada no julgamento das lutas

Opinião do MMA Brasil: Paul “Bear” Bryant Jr., lendário técnico do time de futebol americano da Universidade de Alabama, disse: “Ataque vende ingressos, defesa ganha campeonatos”. A decisão da ABC Boxing é absolutamente estapafúrdia se considerarmos que MMA é um esporte profissional e não um show com o único intuito de divertir as massas, como são as “competições” do telecatch.

Trocação (striking) e luta agarrada (grappling) têm o mesmo peso no julgamento

Ainda que as Regras Unificadas digam que a luta agarrada vale mais quando um round é passado mais tempo nesta situação, isto raramente foi posto em prática pelos juízes de MMA. No mundo real, a trocação sempre teve maior peso nos julgamentos de lutas. A partir de agora, isto não vai mais ocorrer.

O grappling terá o mesmo peso da trocação no MMA

Opinião do MMA Brasil: se MMA é uma mistura de artes marciais, não existe motivo para privilegiar um conjunto de habilidades em detrimento de outro. Não há nada que justificasse a maior valorização da trocação sobre a luta agarrada. Com esta decisão, o MMA tornar-se-á um esporte competitivamente mais justo, acabando com o chororô que dizia que “lutadores de jiu-jitsu são prejudicados nos EUA”.

Ainda há um ponto a se reforçar neste quesito. A recomendação da ABC Boxing citada no item da pontuação fracionada deverá mais do que nunca ser levada à prática: os juízes precisam evoluir e conhecer também como funcionam todas as lutas agarradas. Se continuarmos tendo juízes de boxe julgando manobras de judô, jiu-jitsu e wrestling, continuaremos vendo julgamentos toscos nos combates.

O termo “dano” será substituído por “efetividade”

Esta alteração só tem o lado legal. A ABC Boxing considera que estados que não sancionam o MMA possam fazê-lo com a remoção do termo “dano” do vocabulário do MMA.

Opinião do MMA Brasil: nada a acrescentar em relação ao decidido pela ABC Boxing.

Reforço das definições de “trocação efetiva” e “agarramento efetivo”

As Regras Unificadas falam em trocação efetiva (effective striking) e agarramento efetivo (effective grappling). Com as mudanças expostas acima, a ABC Boxing achou necessário reforçar o significado destas duas expressões que decidem as lutas. São elas:

Trocação efetiva é julgado determinando o impacto de golpes legais lançados por um lutador no adversário. Ataques mais contundentes, que geram impacto mais visível no oponente, deve ter peso maior do que a quantidade de golpes lançados. Isto inclui deixar um adversário atordoado, fazendo-o cambalear, e o aparecimento de cortes ou hematomas que causam dor ao oponente.

Além disso, o acúmulo de golpes também deve ser levado em consideração. Se nenhum lutador mostrar vantagem em termos de impacto de ataques, a quantidade de ataques vai determinar o lutador mais eficaz na trocação.

Agarramento efetivo considera a quantidade de execuções com sucesso de uma queda, reversões (raspagens), montadas, passagens de guarda e tentativas de submissão. Ainda devem ser considerados os lutadores que fazem guarda ofensiva, ou seja, aqueles que, mesmo por baixo, buscam encaixar algum estrangulamento ou chave no oponente.

Tentativas de submissão que chegam perto de encerrar uma luta terá peso maior do que aquelas que são facilmente defendidas pelo adversário. Também terá peso alto as tentativas que minam o oponente quando este tenta se defender.

Quedas de grande amplitude e aquelas que geram impactos maiores devem ser mais valorizados do que as quedas mais simples. Isto significa que quedas como o suplê de Kevin Randleman em Fedor Emelianenko, o harai goshi de Tim Boetsch sobre Nick Ring, os slams de Matt Hughes e coisas do gênero serão mais bem pontuadas do que single-legs curtos.

– Ainda há o conceito de Agressividade Efetiva, que representa o lutador que avança sobre o adversário lançando golpes válidos ou atacando a partir da guarda com tentativas de submissões. Isto significa que “andar para frente socando o vento” não vale nada.

Opinião do MMA Brasil: Todas as análises de lutas aqui no site sempre levaram em consideração estes significados de trocação e agarramento efetivos. Isto nunca deveria ter sido de outro modo.

Aplicação do sistema de pontuação

A ABC Boxing determinou como o sistema de pontuação deve ser utilizado, ou seja, quando um juiz deve marcar 10-10, 10-9, 10-8 e 10-7.

– Um round deve ser marcado como 10-10 quando ambos os lutadores pareceram lutar igualmente e nenhum deles mostrou superioridade sequer por uma margem apertada. Este placar deve ser raramente usado.

– Um round deve ser marcado como 10-9 quando um lutador vence por pequena margem, lançando maior quantidade de golpes efetivos legais, demonstrando efetividade na luta agarrada e utilizando outras técnicas efetivas.

– Um round deve ser marcado como 10-8 quando um lutador vence por larga margem usando trocação efetiva e/ou agarramentos efetivos, provocando grande impacto no oponente.

– Um round deve ser marcado como 10-7 quando um lutador domina totalmente usando trocação efetiva e/ou agarramentos efetivos, colocando o oponente em sérios apuros durante o round. Num round de 10-7, a interrupção do árbitro central deve ser iminente. Este placar deve ser raramente usado.

Opinião do MMA Brasil: É ótimo que isto tudo fique claro. Existe 10-10 e 10-7, apesar da recomendação de serem usados raramente. A diferenciação de “pequena margem” para “larga margem” deve tornar mais claras as utilizações de 10-9 e 10-8. Mais uma vez o MMA Brasil já seguia estas recomendações em nossas análises de lutas.