E lá se vai o maior casca-grossa da história do MMA

Por Alexandre Matos | 11/10/2016

A natureza do MMA em si já é um separador de pessoas. Para dedicar uma vida a um esporte hostil, que ainda não valoriza financeiramente tanto os atletas, basta subir num ringue ou cage para estar numa categoria diferente de pessoas. Quantos de vocês ganhariam a vida levando pancada na cara, sendo estrangulados ou tendo as articulações hiperestendidas?

Lutador de MMA é, de modo geral, casca-grossa por natureza. Eu não curto muito essa expressão (como não curto “amarrão, “trocação” e outras), mas confesso que é a primeira coisa que me vem à cabeça associada ao nome de um lutador específico. No último sábado, despediu-se do MMA o maior casca-grossa que o esporte já viu. Aos 46 anos, 19 dedicados ao MMA e cerca de 40 a esportes de combate, Dan Henderson pôs fim a uma carreira lendária com um ponto final inesquecível.

Hendo dificilmente vai liderar uma lista de melhores lutadores de todos os tempos, ou mesmo de melhor americano. Provavelmente ninguém o colocará como o mais habilidoso, técnico ou versátil. Porém, é muito provável que estejamos falando do maior vencedor da história do esporte, que conquistou títulos em dois milênios diferentes, em três décadas distintas, sempre por uma organização de grande porte.

Tudo começou em 1997, um ano depois de disputar sua segunda Olimpíada, quando terminou em sétimo no estilo greco-romano em Atlanta. No dia 15 de junho, Henderson venceu Crézio de Souza e Eric Smith na conquista do Torneio do Brazil Open. No ano seguinte, estreou no UFC e, com mais duas vitórias numa noite, sobre Allan Góes e Carlos Newton, venceu o torneio do UFC 17 no peso médio. Este evento foi histórico porque marcou as estreias de Hendo e dos futuros campeões Newton e Chuck Liddell.

Onze meses de carreira, 4-0 no cartel e dois títulos de torneios.

Dan Henderson começou sua vitoriosa carreira no Brasil (Foto: Marcelo Alonso/Sherdog.com)

Dan Henderson começou sua vitoriosa carreira no Brasil (Foto: Marcelo Alonso/Sherdog.com)

Fevereiro de 2000. No Japão, Hendo venceu os pesos pesados Gilbert Yvel e Rodrigo Minotauro, além do meio-pesado Renato Babalu, no título do RINGS King of Kings 1999 Tournament.

Dois anos e meio de carreira, 9-0 no cartel e três títulos de torneios.

O RINGS foi o precursor do maior evento do mundo da década seguinte. Também no Japão, o PRIDE FC fez história até falir e ser vendido, em 2007. Em meio à construção de diversos ídolos, Hendo brilhou forte e estabeleceu uma marca que não foi superada até hoje.

Desde a estreia no PRIDE 12, em dezembro de 2000, até a última luta, no PRIDE 33, em fevereiro de 2007, Dan disputou 18 combates, vencendo 13 deles. Na estreia e na despedida, o mesmo rival, Wanderlei Silva, que o derrotou na primeira e foi brutalmente nocauteado na segunda. Entre essas lutas, Hendo encarou todo tipo de oponente, como os pequenos Renzo Gracie, Akira Shoji e Akihiro Gono ou os grandalhões Rodrigo Minotauro, Rogério Minotouro, Ricardo Arona e Vitor Belfort. Em 2005, ganhou o torneio do peso meio-médio (compatível com o peso médio pelas Regras Unificadas) e se tornou o primeiro e único campeão da categoria no PRIDE. Pouco mais de um ano depois, o violento nocaute sobre Wand rendeu o cinturão do peso médio (relativo ao meio-pesado do MMA ocidental).

Aos 36 anos e meio, Hendo era campeão em duas categorias do PRIDE.

Na histórias das organizações de grande porte do MMA (UFC, PRIDE, WEC, Strikeforce e Bellator), apenas ele, BJ Penn, Randy Couture e Joe Warren conquistaram cinturões em duas categorias. Somente Dan Henderson fez isso simultaneamente.

Além disso, somente ele e Mark Coleman conquistaram torneios no PRIDE e no UFC.

Dan Henderson comemora o segundo cinturão do PRIDE enquanto Wanderlei Silva é reanimado

Dan Henderson comemora o segundo cinturão do PRIDE enquanto Wanderlei Silva é reanimado

A falência do PRIDE colocou o UFC como o novo centro do esporte. Quando a organização americana comprou a japonesa, trouxe junto os contratos de diversos lutadores. Dos campeões finais do PRIDE, apenas Hendo migrou para o UFC – Fedor Emelianenko e Takanori Gomi ficaram zanzando entre várias organizações. Dana White então agendou unificações entre Henderson e seus campeões. Na primeira, no UFC 75, Hendo sucumbiu numa decisão bem controversa diante do campeão meio-pesado Rampage Jackson. Na segunda, no UFC 82, venceu o primeiro round contra Anderson Silva antes de ser pego num mata-leão no segundo.

Estabelecido como peso médio, Hendo se recuperou com três vitórias. A terceira foi antológica, com contornos que o seguiram até o último ato. No UFC 100, depois de aturar Michael Bisping enchendo o saco no TUF 9, Hendo aplicou um dos mais bárbaros nocautes que o MMA já viu, um clássico lançamento da Bomba-H, sua marca registrada, uma das armas de destruição em massa mais selvagens da história do esporte, foi seguida de um “confere” absolutamente desnecessário, quando ele mergulhou sobre o já desacordado inglês para cravar outra cacetada que teria nocauteado um sujeito plenamente acordado.

Aos 39 anos, Hendo conquistou o posto de desafiante do peso médio para uma aguardada revanche contra Anderson. Porém, divergências financeiras com o UFC levaram o americano para o Strikeforce, organização rival que estava apostando alto para chegar ao topo do MMA. No cage hexagonal, Hendo estreou desafiando o cinturão de Jake Shields, mas, depois de passar o carro na primeira parcial, sucumbiu ao justo american jiu-jitsu do campeão e foi derrotado.

Cansado de cortar peso, o quarentão não tinha cansado de chocar o mundo. De volta ao cenário dos meios-pesados, Hendo fez a Bomba-H trabalhar. Em dezembro de 2010, ele largou a mamona na cara de Babalu na eliminatória para o título. Três meses depois foi a vez do então campeão Rafael Feijão sentir o peso do punho direito do veterano desdentado. Quatro meses depois foi a vez de Fedor Emelianenko, o maior peso pesado de todos os tempos naquele momento, bater com a cara no chão por causa de um uppercut demoníaco de Hendo, aplicado magistralmente sob a axila direita do russo, que estava em quatro apoios.

Aos 41 anos, Hendo se tornava o mais velho campeão da história do Strikeforce.

Bomba-H deu cabo de Renato Babalu e conduziu Dan Henderson à disputa do cinturão no Strikeforce

Bomba-H deu cabo de Renato Babalu e conduziu Dan Henderson à disputa do cinturão no Strikeforce

No passo seguinte, para surpresa de meio mundo, Hendo acertou os ponteiros com Dana White e voltou ao UFC para realizar o sonho de conquistar o cinturão da organização. E o retorno não poderia ser mais espetacular. No dia 19 de novembro de 2011, Hendo venceu Maurício Shogun numa batalha apontada por muita gente, inclusive por mim, como uma das lutas mais sensacionais da história do MMA, no combate principal do UFC 139. Naquele mesmo dia, Michael Chandler e Eddie Alvarez fizeram outra candidata a luta da história, fazendo com que a data passasse a ser carinhosamente chamada por mim como Dia do MMA.

O sonho ficou próximo de se concretizar quando o UFC anunciou que o veterano desafiaria o título de Jon Jones, no UFC 152. Porém, a oito dias do evento, Hendo estourou o joelho, abandonou a disputa e viu o UFC cancelar um show pela primeira vez em sua história. A partir dali, o californiano entrou numa fase complicada, com cinco derrotas em seis lutas – o único triunfo aconteceu numa revanche contra Shogun, quando a Bomba-H arrombou o nariz do curitibano e virou um confronto que estava indo para o ralo.

Hendo só foi vencer alguém que não se chamava Shogun em 2015, quatro anos depois do triunfo sobre Fedor. Em meio minuto, Tim Boetsch foi como um alucinado de encontro ao punho direito de Hendo. O destino obviamente foi o nocaute. Desacreditado, com 45 anos, Hendo voltou a ser nocauteado por Belfort e conseguiu um improvável e espetacular nocaute de virada contra Hector Lombard, já em 2016.

Ali era hora de pegar o microfone e anunciar o fim da carreira com uma vitória que poderia nunca mais acontecer. Hendo até ensaiou o adeus, mas a surreal vitória de Bisping sobre o campeão Luke Rockhold naquela mesma noite deu início a uma mais surreal ainda campanha para que o velho de guerra fosse o primeiro desafiante do inglês. Além de ser um prêmio por uma carreira tão vitoriosa, seria a chance de relembrar um dos nocautes mais antológicos de todos os tempos.

Aos 46 anos, Hendo se tornava o mais velho desafiante da história do UFC.

A Bomba-H apareceu duas vezes no UFC 204, mas não foi capaz de render a última glória a Dan Henderson (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

A Bomba-H apareceu duas vezes no UFC 204, mas não foi capaz de render a última glória a Dan Henderson (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Ainda havia forças para surpreender mais uma vez. A última vez. Porém, a Bomba-H, disparada duas vezes, mandou o temeroso Bisping para a lona em ambas as oportunidades, mas não foi capaz de dar fim ao combate como em tantas ocasiões, inclusive contra o mesmo adversário. Ainda havia forças para um esforço final no quinto round, mas não o suficiente para evitar a derrota num duelo muito mais equilibrado do que qualquer um poderia imaginar.

As marcas das batalhas estão estampadas em seu rosto. A arcada dentária sofre com a ausência da dupla de zagueiros e do volante de contenção, fruto de um treino mais exacerbado com o então companheiro de Team Quest Randy Couture. Os anos ralando a cara nos tapetes de wrestling renderam orelhas de couve-flor, além do nariz amassado por tantas pancadas de gente muitos quilos mais pesada. Porém, as conquistas também estão marcadas na história do MMA e nos corações dos fãs. Em seu último ato, Hendo fez aquilo que se acostumou por quase duas décadas: emocionar e empolgar os fãs.

O lutador parou. O mito é eterno.