E agora, o que fazer com Conor McGregor?

Por Alexandre Matos | 10/04/2018 11:47

Quem não estava em outro planeta ficou sabendo de todos os problemas pelos quais o UFC 223 passou, a maioria deles causada por um ataque irracional e inadmissível de Conor McGregor, na última quinta-feira.

Fora o acidente bizarro sofrido por Tony Ferguson nos estúdios da FOX, seis dias antes do evento, e a surreal retirada de Max Holloway do card, todos os demais contratempos causados ao UFC 223 tiveram origem na atitude criminosa de McGregor contra o ônibus que levava diversos atletas do Barclays Center após os compromissos de imprensa pré-evento. McGregor chegou a ser preso e depois liberado com pagamento de fiança.

SAIBA MAIS Para ficar por dentro de tudo o que aconteceu, escute nosso podcast especial que foi ao ar na última sexta-feira.

Como tudo que envolve o agora ex-campeão dos leves e dos penas do UFC, a atitude de McGregor rendeu comentários acalorados dos fãs – e, dessa vez, não tinha nada de raivinha por provocações feitas pelo lutador ou pelos famosos 13 segundos. Conor realmente passou dos limites e mereceu os gritos que pediam cadeia e demissão. Fosse outra pessoa, provavelmente o UFC já o teria demitido (ok, talvez não Jon Jones). Porém, as coisas não são tão simples assim quando se trata de Conor McGregor, alguém que parece viver sob suas próprias leis.

O primeiro protesto, de cadeia, é até mais simples. Quer dizer, pelo menos não depende da conturbada relação empregador-empregado que Conor mantém com o UFC. O irlandês aguarda em liberdade o julgamento de seu ato de vandalismo, marcado para o dia 14 de junho. Se for condenado, o “Notório” terá que ver o sol nascer quadrado por um tempo e o UFC nada poderá fazer contra isso. Se a Corte Criminal do Brooklyn considerar culpado o lutador, que responderá por agressão e atividade criminosa, ele terá que cumprir a sentença, como já aconteceu com outros atletas de renome, incluindo Floyd Mayweather.

Dana White:

“O que aconteceu hoje (quinta) foi criminoso, repugnante, desprezível, me deixa doente, e nós, como organização, precisamos garantir que isso nunca aconteça novamente.”

Caímos então na segunda situação, que traz ainda uma rebarba da primeira. Demitir Conor McGregor não é tão simples assim. Na verdade, falando em linguagem direta, seria uma burrice monstruosa por parte do UFC. Mandar o irlandês para a rua poderia representar entregar de bandeja a maior galinha dos ovos de ouro do MMA para o Bellator, que tem histórico na contratação de lutadores acusados de crimes. E isso poderia render danos profundos ao líder do mercado mundial de MMA. Scott Coker, presidente do Bellator, sabe quais são as datas mais importantes do calendário do UFC. Eu aposto que ele não teria a menor vergonha de apelar para derrubar o rival. E não seria muito difícil. Acompanhem comigo e me digam se estou viajando muito.

O primeiro passo poderia ser marcar uma luta de boxe entre McGregor e Paulie Malignaggi para o dia 7 de julho, data do UFC 226, o ponto alto da UFC International Fight Week de 2018. Como o UFC usará a T-Mobile Arena, o Bellator poderia realizar seu evento no Mandalay Bay ou no Thomas & Mack Center – talvez o MGM Grand, por ser proprietário da T-Mobile Arena, não queira entrar nessa briga. McGregor e Malignaggi têm um histórico controverso por conta dos treinos que fizeram para a luta do irlandês contra Mayweather, em 2017. O confronto poderia ocorrer num evento híbrido, um Bellator: Dynamite 3, completando o circo card com Chael Sonnen, Fedor Emelianenko e outros.

Conor McGregor e Paulie Malignaggi quase saíram na mão no meio da rua por causa de polêmica em treino

Conor McGregor e Paulie Malignaggi quase saíram na mão no meio da rua por causa de polêmica em treino

Quatro meses depois, o Bellator poderia arruinar outro mega evento do UFC com ainda mais requintes de crueldade. O UFC 230 deve acontecer no dia 10 ou 17 de novembro, em comemoração aos 25 anos da organização, muito provavelmente no Madison Square Garden, em Nova York. Era só o Bellator esperar a confirmação da data e local para agendar para o mesmo dia um duelo entre McGregor e Mayweather, agora no MMA, satisfazendo uma vontade que o americano vem divulgando. Se não quiser usar os 19 mil lugares do Barclays Center, o Bellator poderia verificar as condições de uso do Yankee Stadium, duas semanas após o fim da World Series do beisebol. Dependendo do calendário da NFL, há o MetLife Stadium. Todas as opções ficam num raio de 15 quilômetros do Madison Square Garden.

Conjecturas à parte, deu para perceber que demitir McGregor seria um tiro no próprio pé do UFC. O Bellator nem precisaria tirar tanto dinheiro da Viacom para promover essas extravagâncias, bastaria deixar a cargo da Mayweather Promotions, por exemplo. E a segunda principal organização do MMA mundial teria uma vasta possibilidade de divulgação pela empresa-mãe, que também é dona da Paramount Pictures, da MTV, do Nickelodeon, da VH1, da Comedy Central e outros tantos. Acho que a turma de Dana White não estaria a fim de correr este risco.

O curioso dessa história toda foi o motivo pelo qual Conor estava em Nova York, além de acompanhar o amigo Artem Lobov, que lutaria no UFC 223 e foi personagem central da treta que motivou o ataque de quinta-feira. McGregor estava lá também para assinar um novo contrato, que seria divulgado na conferência de imprensa dos 25 anos, que aconteceu na noite de sexta-feira. O primeiro compromisso do novo contrato era a disputa do cinturão interino dos meios-médios contra Rafael dos Anjos (sim, o UFC estava pronto para cometer isso).

Com a mudança de rumos causada pela inaceitável conduta de McGregor, o UFC precisa tomar alguma atitude para não deixar a reputação da organização ser afetada. É hora de finalmente reverter o poder de barganha que o irlandês adquiriu depois de se tornar um fenômeno comercial.

Antes de mais nada, é preciso deixar algo claro aqui. Se eu acho que o Bellator não teria a menor vergonha na hora de promover uma eventual contratação de McGregor, também acredito que o UFC não mostraria constrangimento em usar o vandalismo da semana passada para promover um encontro entre o irlandês e o atual campeão Khabib Nurmagomedov, alvo dos ataques por conta de uma enquadrada dada em Lobov.

Dana White terá apoio popular. Os fãs que carregam o MMA financeiramente curtem essa bobagem do “cara mau e/ou babaca que será espancado por algum justiceiro que defende a moral e os bons costumes do cidadão de bem”. Foi assim que Brock Lesnar e o próprio Conor fizeram rios de dinheiro. É por isso também que é tão difícil o MMA caminhar na linha tênue entre um esporte profissional e um ambiente de vândalos violentos. O que aconteceu na quinta dá combustível aos detratores, quando atletas profissionais se comportam como hooligans. Esta inclusive era a desculpa que o governo de Nova York usava para proibir o MMA no estado.

 

Certified Killa vs Certified Bitch

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Temos então um sinal de que, se não for preso, McGregor sairá ainda maior desse espetáculo dantesco, até porque eu acredito que ele fez o que fez numa tentativa de promover uma luta com Khabib. E, mesmo se for preso, não será por muito tempo, então provavelmente seu valor comercial não sofrerá abalo – pelo contrário, talvez ainda aumente pelo fato de o povo querer vê-lo perder de qualquer maneira, assim como aconteceu com a prisão de Floyd.

O próprio Nurmagomedov alimentou a situação. Após a vitória sobre Al Iaquinta, que lhe rendeu o cinturão dos leves, o russo primeiro pediu para enfrentar Georges St. Pierre no evento dos 25 anos. GSP não se empolgou com a ideia e Khabib mudou o foco.

“Nós temos que resolver essa situação (com McGregor). Ele tem que parar de comer Burger Kings e… você quer lutar? Venha. Eu disse a vocês que farei ele ficar humilde. Eu avisei a vocês que vou mudar este jogo. Agora só há um campeão, não há mais campeões falsos, não há mais campeão que nunca defendeu seu título ou algo parecido. Agora o UFC tem um campeão e este campeão vai defender seu título. Você quer lutar? Venha aqui. Dentro do cage. Venha. Fora do cage, vamos fazer sem câmeras, sem toda essa mídia. Como homens. Ele vem com um monte de seguranças. Não me deixaram sair do ônibus.

Eles (o UFC) já começaram a promover esta luta, né? Eu espero que ele lute. Nós temos que lutar, fazer uma turnê mundial por todos os cantos. Tóquio, Moscou, Dublin, Los Angeles, Rio. Uma turnê enorme, promover essa luta na maior arena do mundo, o Madison Square Garden. Por que não? Talvez no Zaire (República Democrática do Congo) ou Filipinas. Não importa, eu estou aqui. Ele quer se tornar o campeão do peso leve? Vai ter que lutar comigo. Vocês lembram quando ele tuitou: ‘Implorem pra mim’? Então, implorem pra mim. Nós temos que resolver isso, será uma luta enorme. Eu acho. Vamos lá. Estou pronto pra isso.”

Qual o impacto disso tudo na reputação do UFC? Vale a pena ter o dedo apontado pela opinião pública por ter um delinquente fazendo o que quer e sempre agraciado com as melhores oportunidades?

É hora de o UFC dar algum limite a McGregor. Por exemplo, jogando por terra a ideia de o lutador ter uma parte na sociedade da empresa, usando o argumento de que a WME-IMG não colocou bilhões de dólares num negócio que pode ter um criminoso condenado como sócio. Não só isso, mas também fazê-lo entender que há limite até para ganhar dinheiro. Você pode até achar que o episódio com Malignaggi e aquele quando arremessou uma garrafa em Nate Diaz faziam parte da promoção de lutas. Eu também achei. Porém, pular o cage do Bellator para comemorar com um parceiro de equipe e empurrar o árbitro Marc Goddard já fora uma atitude de quem vive sob um conceito muito particular de disciplina e de certo ou errado. De quem acha que pode fazer o que quiser. O que move McGregor é a certeza da impunidade.

Como demitir não é uma opção, talvez valha a pena para o UFC colocá-lo na geladeira. Só que isso também não é fácil. A organização já vem sofrendo desde o ano passado com queda nas vendas de pay-per-view, visto que o lutador não atua desde novembro de 2016. Então, como manter a rentabilidade afastando Conor? Assim como a WME pode não querer o ex-campeão como sócio, ela certamente quer recuperar o imenso investimento. O UFC precisa de alternativas.

Uma delas fez um retorno triunfal no fim de 2017 e agora ameaça calçar novamente os chinelos da aposentadoria. Georges St. Pierre ainda tem lenha para queimar esportiva e comercialmente. Mesmo tendo declinado por ora o desafio no peso leve, o UFC poderia escalá-lo no retorno de Tyron Woodley, no UFC 227, e confrontar o vencedor com quem sair de Rafael dos Anjos contra Colby Covington, que acontecerá no UFC 225, numa espécie de reedição do mata-mata dos pesados que aconteceu no UFC 91 e UFC 92. Em paralelo, Nurmagomedov pode defender seu cinturão no UFC 228, em Moscou, com o vencedor de Dustin PoirierJustin Gaethje, que lutam no próximo sábado.

Outra opção rentável para o UFC vem ganhando força nas últimas semanas: o retorno de Brock Lesnar. O gorila albino ainda é capaz de fazer gente pagar alguns dólares para vê-lo apanhar. Se ele não apanhar na primeira, venderá mais alguns pacotes para uma segunda tentativa. E o que não falta no peso pesado é gente capaz de perder para ele, mesmo sem anabolizantes.

McGregor travou a divisão dos leves por muito tempo. É hora de fazê-la seguir seu rumo normal. Deixem Nurmagomedov testar a duração de seu reinado. Mantenham McGregor encostado por um ano, pelo menos. Ele ainda é novo, voltará com 31 anos, plenamente capaz de reconquistar o título – embora seja melhor para ele torcer para alguém desbancar Khabib. Façam alguma coisa antes que ele acabe cometendo um delito ainda mais grave e que possa abalar a frágil reputação do MMA.