Por Marcos Luca Valentim | 17/07/2018 16:31

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou.
E agora, José?”

Substitua “José” por “Stipe”, e os primeiros versos do consagrado poema de Carlos Drummond de Andrade vão continuar fazendo sentido.

Bastou o cinturão ir parar nas mãos de Daniel Cormier, e o mais bem-sucedido peso pesado da história do UFC caiu no ostracismo. Stipe Miocic deixou o octógono em silêncio. No instante seguinte, o cage virou palco, e a dor do agora ex-campeão fora ofuscada pelo primeiro ato teatral entre DC e Brock Lesnar.

Entretanto, a revanche imediata, pedida por Miocic em entrevista seguinte ao revés, é uma reinvindicação mais do que justa e pode devolver o americano aos holofotes.

Mas… não.

Vamos rapidinho aqui: José Aldo.

Trinta e oito mil anos como primeiro e único campeão do peso pena do UFC. E, em 13 segundos, foi tudo pelo ralo.
Merecia, mais do que qualquer outro, a revanche com Conor McGregor. E todos sabemos o quanto a negativa dada pelo UFC afetou a carreira da lenda do peso pena.

Não é por merecimento: é por dinheiro. E, no momento, o UFC vê muito mais cifras em Cormier vs. Lesnar do que em Cormier vs. Miocic 2. Simples assim.

Bater na tecla da meritocracia é chover no molhado, por mais que Stipe esteja acobertado pelo mais ponderado lençol da razão. A não ser que algo bizarro aconteça – leia-se USADA – , vai ficar por isso mesmo. Cormier vs. Lesnar.

Não adianta espernear.

Os fãs, pelo que eu entendo, na maioria, pedem esportividade ao UFC, clamam por justiça e respeito aos rankings das categorias. Apedrejam as money fights num primeiro momento. E deixam a hipocrisia florescer quando põem-se à frente da televisão para gozar de uma bebida e de uma luta sem o menor sentido competitivo, mas 100% de sentido financeiro.

Esse lapso contraditório é comum. Sem julgamentos. Mas é justamente nessa “falha” paradoxal onde o UFC se instala. E, ali, faz sucesso como poucos.

É cíclico: a luta é casada, a galera discorda, ameaça boicotar o UFC, fica empolgada com as promos, compra o pay-per-view, vibra com o vencedor e, na sequência… a luta é casada, a galera discorda…

O único prejudicado com isso quem é? Neste caso, Stipe Miocic.

O homem, que, até outro dia, era considerado “the baddest man on the planet”. Recordista de defesas do cinturão dos pesos pesados.

Mas e agora?

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”

Para onde, Stipe?
Para os punhos de Derrick Lewis?
Para a sala de Dana White?
Para o Twitter?

E agora, Stipe?