Por Pedro Carneiro | 07/08/2019 16:53

É comum ouvir de alguns historiadores que o século XX realmente começou em 1917, com a Revolução Russa. Talvez isso seja verdade, já que os eventos daquele final de inverno russo trouxeram consequências que perdurariam através dos anais da história. Consequências essas foram tão abrangentes que hoje alcançam os mais variados segmentos, inclusive o MMA. Uma das principais delas foi a invasão dos russos no esporte, não só em quantidade como em qualidade. Como nem tudo são flores, também houve o aparecimento de figuras criminosas se infiltrando nos mais diversos segmentos do MMA.

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Para entender o assunto é necessário antes compreender o contexto histórico envolvido. Como aprendemos na escola, no início do século passado, a Revolução Russa estabeleceu um regime socialista que se alastrou também para as regiões da Ucrânia, Armênia, Uzbequistão, Azerbaijão, Belarus (Bielorrússia), Estônia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Letônia, Lituânia, Moldávia, Tajiquistão e Turcomenistão, formando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, comumente conhecida como União Soviética ou URSS, que durou até o ano de 1991.

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Durante o período do regime soviético, surgiram os dois principais fatores que permitiram a metástase do crime organizado que espanta o mundo da luta. O primeiro foi a criação dos campos de trabalhos forçados, conhecidos como Gulags, que concentrava os criminosos da pior estirpe em um único local. Com a invasão alemã à URSS, na II Guerra Mundial, houve uma necessidade de recrutamento de prisioneiros para o exército, o que permitiu a infiltração dos criminosos nos órgãos de policiamento e o posterior recrutamento para a KGB, organização de serviços secretos do país, com o objetivo de se infiltrarem nos grupos mafiosos estrangeiros, nos Estados Unidos e no Reino Unido, para sabotar as relações entre mafiosos e os governos destes países durante o período mais incisivo da Guerra Fria.

O segundo fator foi a intensificação das tensões e costumes entre as regiões e os diferentes povos que habitavam a junção das repúblicas soviéticas, tensões essas que culminaram nos preconceitos, rivalidades e na cultura de violência que é cultivada na região.

Com a crise do regime socialista, já a partir dos anos 80, o governo soviético iniciou uma política de abertura, principalmente na área econômica. Os principais setores russos foram privatizados e, em 1993, o governo distribuiu cheques para a população, para que comprassem ações de companhias estatais e fomentar a economia. O problema é que a maior parte da população não tinha a menor ideia do que eram aquelas ações ou como utilizá-las. Em paralelo, havia um grupo que conhecia o sistema — os criminosos –, que compraram legalmente as ações da população por um preço irrisório. Quase de um dia para o outro, havia bilhões nas mãos do crime organizado russo.

O resultado foi tão catastrófico que os bandidos se expandiram legalmente para vários setores da economia russa e a corrupção chegou ao ponto de as organizações criminosas influenciarem as decisões do presidente Boris Ieltsin. Essa situação durou até o ano 2000, quando o novo presidente, Vladmir Putin, também apoiado pelo crime organizado, chegou ao poder e traiu seus financiadores, estatizando diversos setores estratégicos para os criminosos. Com a perda do apoio presidencial, os gângsteres russos precisaram migrar para outros países. Foi quando tivemos o aparecimento de figuras conhecidas como Roman Abramovich, Boris Berezovsky e Mikhail Prokhorov. Especificamente no MMA, surgiram casos como Ziyavudin Magomedov (Fight Nights), Vadim Finkestein (M-1), Mairbek Khasiev (ACB), dentre outros.

O caso da Chechênia

Nesse interim, aproveitando o vácuo político gerado pela queda do regime soviético, um grupo de chechenos declarou a independência da região. Em virtude da grande quantidade de petróleo que há ali, os russos entraram em conflito armado pela Chechênia em 1994 e em 1999. Em meio a massacres de ambos os lados, que duraram quase 10 anos, a Chechênia elegeu Ahkmad Kadyrov como presidente, em 2003. No ano seguinte, o presidente foi assassinado publicamente enquanto assistia a um desfile. Em 2007, seu filho Ramzan Kadyrov assumiu o poder.

Kadyrov é um fã de lutas, próximo de vários lutadores como Khabib Nurmagomedov, Magomed Bibulatov e Zubaira Tukhgov. Ele manda e desmanda no World Fightin Championship Akhmat. O atual campeão dos leves já foi agraciado com a cidadania chechena e atletas como Fabricio Werdum, Chris Weidman e Frank Mir já compareceram em eventos e festas na Chechênia, supostamente financiadas por Kadyrov.

Há o argumento de que não existe crime nenhum em comparecer aos eventos promovidos pelo presidente. Contudo, Kadyrov tem um histórico de se associar com celebridades e lutadores conhecidos para suavizar internacionalmente a sua reputação de ditador cruel e sanguinário. Outro ponto interessante é que a Chechênia invadiu o Daguestão com o objetivo de anexar a região e transformá-la em um estado islâmico (a maioria da população de ambas as regiões é muçulmana sunita). Porém, foram expulsos por uma soma de forças entre o exército russo e milícias formadas por camponeses daguestanis. Quando o presidente checheno dá cidadania ao maior nome do MMA daguestani, junto com uma Mercedes W222, o ato também pode ser entendido como uma tentativa de aproximação e diplomacia geopolítica com uma região que é motivo de aspiração.

Em 2016, o Grand Prix Akhmat realizou lutas envolvendo crianças. Em meio à controvérsia sobre o assunto, o lendário russo Fedor Emelianenko fez duras criticas ao ocorrido. Dias depois, o “Último Imperador” voltou às manchetes por conta de uma agressão sofrida por sua filha. Não foi provada nenhuma relação entre o ditador checheno e o ataque. Todavia, Kadyrov, quando questionado sobre o assunto, disse que, após o ocorrido, acreditava que “Fedor havia percebido o seu erro”.

Homens bilionários, com histórico criminoso, têm sido figuras frequentes nos esportes nas últimas décadas. Porém, o que chama a atenção no caso de Ramzan Kadyrov é que o chefe de estado é ligado a diversos assassinatos, casos de tortura e declarações explicitas nas quais se posiciona favoravelmente ao assassinato de homossexuais.

Fight Nights Global

Outro caso de destaque é o do Fight Nights Global. Um dos proprietários, Ziyavudin Magomedov, foi preso em virtude de uma acusação de desvio de verba no valor de aproximadamente 35 milhões de dólares. Magomedov é um dos donos da companhia de investimentos chamada Grupo Summa e, junto com seu irmão Magomed Magomedov, é acusado de corrupção na construção de um dos estádios da Copa do Mundo de 2018. O Grupo Summa enriqueceu através de contratos estatais e possui investimentos em empresas conhecidas como a Uber e a Virgin Hyperloop One. No caso do MMA, além do Fight Nights Global, Magomedov é um dos fundadores da Eagle MMA, equipe hoje presidida por Khabib Nurmagomedov. Em 2011, a fortuna de Ziyavudin era estimada em 3 bilhões de dólares, enquanto o Grupo Summa foi avaliado em aproximadamente 1 bilhão de dólares.

Em 2012, Putin retornou à presidência do maior país do mundo e retirou o apoio político que o grupo tinha quando o presidente era Dmitri Medvedev. Putin destituiu Magomedov da posição de representante do conselho do grupo de cooperação econômica Ásia-Pacifico, ordenou uma inspeção e posterior sanção ao porto comercial de Primorsk, que era controlado pelo Grupo Summa, por conta de questões ambientais, e repreendeu publicamente Akhmed Bilalov, primo de Magomedov, vice-presidente do Comitê Olímpico Russo, por gastos excessivos em um dos projetos que antecederam a Olimpíada de Inverno de 2014, que aconteceu na cidade russa de Sochi.

A fortuna do Grupo Summa caiu drasticamente e, com o intuito de recuperar o prestígio com o governo que tivera outrora, Ziyavudin passou a investir nos esportes de combate, área conhecidamente do agrado do presidente russo — que é faixa preta de judô — como uma forma de se aproximar do governante.

A primeira tentativa foi em uma negociação frustrada para comprar uma parte do UFC. Logo depois, contratou Fedor Emelianenko para o Fight Nights 50. A intenção era a de que o presidente russo comparecesse ao evento, como havia feito na época do M1-Global, pois o empresário estava em negociações com o governo para fechar mais um contrato estatal que beneficiaria a Hyperloop One, uma das suas empresas. Em outras palavras, Ziyavudin Magomedov usou o esporte e o lutador favorito de Vladmir Putin para conseguir a atenção que precisava para fechar um negócio.

Outra ramificação foi a criação do Eagles MMA, uma academia que reúne os principais lutadores do Daguestão e da Rússia. O empresário também sustenta financeiramente vários lutadores russos, incluindo o pagamento das despesas de treinamento de Nurmagomedov e a cirurgia nas costas que o atual campeão dos leves do UFC fez em 2017.

No dia 31 de março de 2018, Magomedov foi preso e Nurmagomedov se manifestou publicamente pedindo apoio político para que o empresário fosse libertado.

Absolute Championship Berkut (ACB) – Absolute Championship Akhmat (ACA)

Fundando pelo médico checheno Mairbek Khasiev, o projeto do ACB se iniciou a partir da fundação da academia Fight Club Berkut. A ideia se expandiu para a Berkut Cup, torneio que durou sete edições, e evoluiu para o ACB. Depois de várias edições, a organização se posicionava como a maior da região e fez eventos em vários países, como os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Emirados Árabes e Brasil. O ACB revelou grandes nomes russos como Zabit Magomedsharipov, Petr Yan, Magomed Bibulatov e Magomed Magomedov.

Apesar do rápido crescimento do ACB, logo surgiram também polêmicas em relação ao evento russo. Durante o ACB 52, os combates entre Patrick Kincl e Arbi Agujev e entre João Luis Nogueira e Shamil Nikaev tiveram seus resultados alterados em virtude da discordância de Mairbek Khasiev dos resultados. Árbitros conhecidos internacionalmente como Marc Goddard e Leon Roberts declararam que não participariam mais das edições do ACB.

Khasiev também foi alvo de críticas quando se recusou a aceitar o patrocínio da Nike para o ACB por conta do apoio da marca aos direitos LGBTQ. O alto valor pago nas bolsas aos lutadores também sempre foram alvo de questionamentos, embora sem nenhuma prova em relação ao assunto. Por fim, houve mais uma controvérsia quando o médico-empresário fez comentários depreciativos em relação aos moradores da Ossétia, região onde há uma quantidade relevante de lutadores e rival histórico da Chechênia. As tensões criadas pela declaração resultaram na não participação de lutadores da Ossétia no ACB.

No dia 28 de novembro de 2018, o ditador checheno Ramzan Kadyrov (sim, esse dos parágrafos acima) anunciou a fusão do ACB com o Ahkmat, criando o Absolute Championship Akhmat (ACA).

O que o futuro reserva para o MMA russo?

São notórios o sucesso da invasão russa ao UFC e a expansão dos eventos no cenário do MMA mundial. Só não sabemos até quando todo esse modelo com relações no mínimo questionáveis com essas figuras é sustentável. O MMA Brasil já falou sobre como o envolvimento da máfia ítalo-americana foi prejudicial ao boxe. O MMA precisa abrir o olho para que não vá pelo mesmo caminho.