Dossiê Rússia: A ascensão do ACB no cenário do MMA internacional

Na segunda parte do Dossiê Rússia, analisamos os fatores que levaram ao crescimento do ACB e sua expansão internacional no mundo do MMA.

Nos últimos anos, quando se discutia o MMA disputado em alto nível internacional, o debate cercava o UFC, o Bellator, o Strikeforce, o WEC, o WSOF e o ONE Championship. Conforme o tempo passou, Strikeforce, WEC e WSOF até deixaram de existir. Em paralelo, uma outra organização crescia rapidamente, tomando o cenário russo de assalto e logo iniciando uma expansão internacional. Como você já leu o título do texto, sabe que estou falando do Absolute Championship Berkut, ou ACB, tema abordado desta segunda matéria do especial Dossiê Rússia.

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O fundador do ACB é Mairbek Khasiev, um médico renomado da região da Chechênia, que decidiu investir no MMA ao criar a equipe Fight Club Berkut. A partir da academia, surgiu a Berkut Cup, pequeno torneio que durou sete edições ao longo de cerca de sete meses. Depois, Khasiev decidiu que era hora de criar um evento regular e assim nasceu o ACB, cuja primeira edição ocorreu no dia 2 de março de 2014. Em quatro anos de existência, foram promovidos 83 eventos – o ACB 11 foi dividido em duas partes em dias consecutivos.

Mairbek Khasiev em entrevista

Em uma matéria da coluna MMA Além do UFC, publicada no final de 2016, o MMA Brasil posicionou o ACB como a principal organização regional do mundo. Desde então, os esforços de Khasiev foram intensos para elevar seu produto a um dos melhores no esporte independentemente do lugar no globo. Assim, por mais que sua base de operações continue em Grozny, na Rússia, a promoção tem viajado pelo mundo, com eventos nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Holanda, Austrália, Reino Unido, Emirados Árabes e Brasil, além das tradicionais visitas a localidades do Leste Europeu.

Seu card mais recente foi o ACB 82, disputado em São Paulo, que marcou a estreia de Thiago Silva como peso médio, contou com uma série de outros lutadores de relevância no MMA nacional e outros fortes atletas do plantel da organização. O evento entregou ótimos confrontos – possivelmente foi a melhor oferta de lutas já montada no Brasil quando excluímos as inserções do UFC da equação, na frente inclusive do Bitteti Combat 4, que trouxe diversos ídolos veteranos, mas em combates de pouca representatividade e competitividade.

Segundo o próprio Khasiev, em entrevista para Denis Geyko, da rede RT, sua equipe está em processo de expansão para atender melhor a demanda causada pela ampliação do horizonte de negócios da empresa. Ele dividiu seus empregados em alguns grupos, deixando-os responsáveis por eventos específicos e estimulando a competição interna por meio de pagamento de bônus para aqueles que organizarem os melhores cards. Além disso, nos eventos longe da Rússia, os profissionais buscam parceiros locais para a promoção, como foi o caso do ex-lutador do UFC Rick Monstro, que é uma espécie de sócio do ACB no Brasil.

Outra declaração muito interessante do chefão do ACB nessa entrevista diz respeito à forma como vê a estratégia de expansão da organização.

Mairbek Khasiev, presidente do ACB:

“Como podemos planejar ser bem sucedidos em um certo mercado se nunca tivermos ido lá e não soubermos nada sobre ele? Na primeira vez que visitamos, apenas aprendemos. Na segunda vez que vamos, as pessoas já estão curiosas sobre nós. Na terceira, já teremos fãs. É assim que você tem sucesso no mercado. É por isso que vamos para todos esses países diferentes. Veni, vidi, vici (vim, vi e venci, em latim), por assim dizer. É assim que trabalhamos.”

Esta abordagem descrita por Khasiev pode ser muito bem percebida nas visitas que o ACB promoveu ao Brasil. Na primeira delas, o ACB 73, disputado em outubro de 2017, diversos problemas foram encontrados, desde a montagem do card, a própria promoção do evento e as operações durante as lutas, quando a luz do ginásio Miécimo da Silva, no Rio de Janeiro, caiu múltiplas vezes. Já no ACB 82, realizado no Clube Hebraica, em São Paulo, na última sexta-feira, tudo transcorreu de maneira muito mais suave, o que prova a capacidade da organização de se adaptar ao local e aprender com seus erros. Outro ponto importante para o sucesso dessa última edição foi o fato de a equipe do ACB já conhecer o espaço no qual as lutas iriam ocorrer, uma vez que este já tinha sido palco do ACB JJ 10, evento dedicado ao jiu-jítsu, em janeiro deste ano.

Thiago Silva foi derrotado por Mikhail Kolobegov na luta principal do ACB 82 (Foto: Beto Lemos/MMA Brasil)

Thiago Silva foi derrotado por Mikhail Kolobegov na luta principal do ACB 82 (Foto: Beto Lemos/MMA Brasil)

Além desses aspectos gerenciais da estratégia de expansão do ACB, também é relevante analisar porque esta é uma das principais organizações de MMA do mundo atualmente. O primeiro passo é observar o nível dos atletas. Entre nomes que podem ser citados como talentos em ascensão no esporte na Rússia estão Zabit MagomedsharipovMagomed BibulatovGadzhimurad Antigulov, Petr Yan, Magomed Magomedov, Askar Askarov, Eduard Vartanyan, Abdul-Aziz Abdulvakhabov, Anatoly Tokov, Mukhamed Berkamov e Denis Goltsov. Todos estes em algum momento fizeram parte do plantel do ACB, com a maioria tendo sido campeã. Atualmente, os quatro primeiros da lista são contratados do UFC, os três primeiros fizeram parte do projeto Top 10 do Futuro e o quarto não entrou no Radar MMA Brasil por uma questão de cronograma.

Como um país de tamanho continental e de enorme tradição no mundo das lutas, a Rússia pode tirar qualidade da quantidade e a grande oferta de eventos de MMA de bom nível ajuda no processo de trazer os melhores à tona. No entanto, o investimento do ACB atrai muitos lutadores de todo o mundo, como é o caso de uma série de brasileiros de destaque no cenário nacional que foram tentar a sorte na organização, como Valdines Silva e José Maria Sem Chance. Pagamentos acima da média oferecida longe das principais promoções, casamentos contra oponentes capacitados, que ajudam o atleta a avançar na carreira e um histórico de alçar lutadores para o UFC são alguns dos fatores de atração que o ACB disponibiliza.

Vários lutadores que saíram do UFC estão rumando para o ACB, alguns desses por vontade própria, em detrimento de renovar com a principal organização do mundo. Temos os exemplos de Albert Tumenov, Takeya Mizugaki, Leandro Buscapé, Thiago Silva, Christos Giagos, Daniel Sarafian, Zach Makovsky, Dylan Andrews, Efrain Escudero, atiçados pela oportunidade de competir em alto nível, com uma boa bolsa e abrir novas portas para suas carreiras. Com um slogan de “menos show, mais luta”, que pode ser percebido na ausência de números musicais grandiosos, tão comuns nos eventos da região, e nos combates normalmente muito movimentados e disputados, o ACB tem uma linha de promoção bastante clara.

“Menos show, mais luta”, o slogan do ACB

Para completar a oferta que o ACB se propõe a trazer, ainda foram incluídos em seu repertório o kickboxing e o jiu-jítsu. Assim, surgiram o ACB KB e o ACB JJ, com o segundo já tendo se tornado uma das principais competições de luta agarrada do mundo, constantemente reunindo integrantes da elite do esporte. Com todas as suas lutas transmitidas pela própria página do Facebook, pelo site da Fite TV e armazenadas no YouTube, o ACB está disponível para qualquer um ao redor do mundo assistir seu acervo sem maiores dificuldades. Recentemente, a organização assinou um contrato com o canal Combate para a transmissão de todos os cards das três linhas de programação da organização. Se você ainda não conhece o ACB, prepare-se para ouvir falar muito dessas três letras que prometem chegar à elite do MMA.