Por Alexandre Matos | 13/11/2016 06:42

O maior vendedor de pay-per-views de todos os tempos. O homem que encerrou um dos mais longevos reinados da história em 13 segundos. O único a conquistar dois cinturões simultaneamente na história do UFC. Conor McGregor entrou enorme no Madison Square Garden e saiu imortal do UFC 205.

Em momento algum o combate esteve fora do controle do irlandês. Com a precisão característica do seu direto de esquerda, que entra rápido e preciso como um tiro de sniper e pesado como uma bola de ferro dos gladiadores romanos, McGregor mandou o então campeão dos leves Eddie Alvarez à lona duas vezes no primeiro assalto, uma delas logo no começo da luta. O americano se assustou e não conseguiu oferecer resistência.

Usando a postura de falsa distância dos caratecas, Conor atraía Alvarez para o ataque. Eddie errava o alvo e recebia uma pedrada de volta. Acuado, Alvarez não conseguiu encurtar e derrubar, ficando assim à mercê de um matador. Outro knockdown no primeiro minuto do segundo assalto. A esta altura, os movimentos de McGregor já induziam Alvarez ao erro de posicionamento. O fim era questão de tempo. Aos 3:04, mais uma esquerda do irlandês fez o americano desabar desmontado. O árbitro “Big” John McCarthy achou que já era suficiente e decretou o fim da surra humilhante.

Exatamente 11 meses após destronar José Aldo do topo do peso pena, Conor McGregor adiciona o cinturão dos leves à sua coleção e transforma o UFC em Cage Warriors, cumprindo a profecia que ele fez quando desembarcou na maior organização do mundo trazendo os mesmos dois cinturões do evento irlandês. Como o UFC 205 colocou 20.427 torcedores no Madison Square Garden, McGregor esmagou outro recorde, o de renda do UFC, com os US$17,7 milhões coletados nas bilheterias novaiorquinas.

Tyron Woodley escapa com o cinturão depois de empate dramático contra Stephen Thompson

Com direito a lambança no anúncio do resultado, Tyron Woodley confirmou seu reinado como campeão do peso meio-médio após empatar com Stephen Thompson.

O começo da luta nem deu a impressão do que viria pela frente. A primeira metade do assalto inicial foi de muitos estudos, com os atletas evitando contato. Thompson manteve Woodley perto da grade e lançou alguns chutes. Um deles foi bloqueado pelo campeão, que caiu por cima e não mais perdeu a posição, descendo cotoveladas e socos no desafiante, que voltou para o córner com o nariz sangrando, provavelmente quebrado.

Nos dois assaltos seguintes, Thompson manteve Woodley em posição defensiva com um maior volume de socos e chutes, fazendo muito bom uso de sua vantagem no alcance usando os golpes alongados. Com o desafiante na frente por 29-28, a luta ficou dramática no quarto round.

A explosiva direita de Woodley explodiu no rosto de Thompson, que foi de encontro à grade e conseguiu sobreviver sabe-se lá como aos fortes ataques do campeão. Tyron então travou uma guilhotina em pé para fazer com que o sangramento de Thompson gerasse um incômodo que o fizesse bater. O desafiante aguentou e Woodley trouxe a guilhotina para o chão. Stephen fez menção de desistir, mas resistiu, escapou o pescoço e ainda teve forças para aplicar um ground and pound no final. Porém, não foi o suficiente para evitar o 10-8, que colocou Woodley novamente na dianteira por 38-37.

Thompson se mostrou menos cansado no quinto assalto e recobrou a tática do segundo e terceiro rounds, mas não teve forças para conseguir o nocaute. A luta então acabou decidida pelos juízes. Foi quando Bruce Buffer deixou todo mundo confuso ao anunciar que dois juízes marcaram empate em 47-47, mesmo placar visto pelo MMA Brasil, enquanto o terceiro anotou 48-47 para Woodley. Buffer anunciou uma incorreta vitória por decisão dividida para o campeão, mas logo voltou para informar que o resultado correto foi empate majoritário. O resultado manteve o cinturão com Woodley, mas não adicionou uma derrota ao cartel de Thompson.

Joanna Jedrzejczyk passa por susto, mas bate Karolina Kowalkiewicz

Tudo levava a crer que Joanna Jedrzejczyk navegaria em águas calmas para mais uma defesa do cinturão do peso palha, mas Karolina Kowalkiewicz ressurgiu e complicou a vitória da campeã.

Nos três primeiros assaltos, tudo o que a desafiante fazia era respondido com autoridade pela dona do título. Jedrzejczyk era melhor na troca de golpes na longa distância e fez Kowalkiewicz penar no thai clinch. A campeã parecia sempre estar um passo na frente da adversária, que, por sua vez, não se entregava, mas também não dava a impressão de ter uma solução para tirar Joanna do controle.

Tudo mudou no quarto assalto quando Karolina acertou uma poderosa direita que fez as pernas de Joanna virarem gelatina. Com a torcida inflamada pela mudança de rumo, Kowalkiewicz partiu para decidir a luta, mas Jedrzejczyk mais uma vez mostrou que tem coração de campeã para não só resistir ao ataque, mas ainda ter forças para voltar ao domínio no quinto round e garantir o triplo 49-46, o mesmo resultado marcado pelo MMA Brasil.

O final da luta mostrou Kowalkiewicz com um enorme galo por cima do olho direito. Porém, quando a câmera apontou para Jedrzejczyk, deu para perceber que a campeã ostentava a mesma lesão, mostrando que o combate havia sido duro também para ela.

Joelhada voadora de Yoel Romero abre um rombo na cabeça de Chris Weidman

Numa luta com dois rounds distintos, o terceiro durou pouco e foi decidido pelo lutador com a maior capacidade de destruição. Melhor para Yoel Romero, que chegou à oitava vitória consecutiva no peso médio do UFC e fez Chris Weidman amargar mais uma derrota depois de perder o cinturão exatamente um ano atrás.

Yoel Romero voa para nocautear Chris Weidman no UFC 205 (Foto: Adam Hunger/USA TODAY Sports)

Yoel Romero voa para nocautear Chris Weidman no UFC 205 (Foto: Adam Hunger/USA TODAY Sports)

Weidman mostrou ser o melhor lutador de MMA no primeiro assalto. Lançando golpes em alto volume, especialmente socos na cabeça e chutes no corpo, o ex-campeão botou o cubano para baixo em três ocasiões, mas em nenhuma delas conseguiu o controle no solo. Porém, foi o suficiente para deixar Romero em posição defensiva.

Romero mostrou ser o melhor wrestler no segundo assalto. A dificuldade que Weidman teve de controlar a luta no chão não foi a mesma que o cubano encontrou quando conseguiu derrubar e cair por cima. O americano tentou se manter ativo na guarda para não ser castigado, mas viu Romero pegar suas costas e empatar a luta.

Romero mostrou que tem maior capacidade de dar fim a um combate no terceiro assalto. O cubano ouviu do córner no último intervalo que precisaria de uma interrupção para não confiar nos juízes da cidade do adversário. Pois, aos 24 segundos, quando Weidman se lançou num single leg sem finta, Romero voou numa joelhada voadora que acertou em cheio a testa do ex-campeão. Weidman desabou, levou mais um soco e viu o árbitro Mario Yamasaki interromper a luta diante de um chuveiro de sangue que jorrava da cabeça de Chris. O público no Garden silenciou com a queda de seu conterrâneo.

Com oito vitórias em igual número de lutas no UFC e tendo batido Weidman e Ronaldo Jacaré, não restou nada a Romero a não ser desafiar Michael Bisping, que estava presente ao ginásio. O atual campeão respondeu o desafio mostrando o dedo do meio e depois mexendo no celular. Talvez estivesse enviando mensagem implorando o retorno de Nick Diaz…

Raquel Pennington vence e manda Miesha Tate para a aposentadoria

Até pouco tempo atrás com o mesmo número de vitórias e derrotas no cartel profissional, Raquel Pennington agora se vê com quatro triunfos seguidos. A vítima da vez foi Miesha Tate.

A ex-campeã demorou muito a impor a luta agarrada que a favoreceria. Levando desvantagem no boxe, Miesha ainda viu Raquel tentar uma guilhotina no primeiro assalto e precisou usar a grade para diminuir a pressão do estrangulamento.

Vendo que estava difícil de levar a luta para o chão, Tate teve a péssima ideia de puxar para a guarda e precisou lidar com os fortes golpes que Pennington lançava de cima para baixo. Tate arriscou um armlock, tentou um triângulo, mas Raquel se defendeu bem e acabou o duelo descendo a lenha.

Depois que Bruce Buffer anunciou a decisão unânime a favor de Pennington com dois 30-27 e um 29-28, Miesha Tate disse no microfone de Joe Rogan que estava encerrando sua carreira. Mais tarde, quando Dana White tentou convencê-la a ir ao hospital, Miesha respondeu: “Vá se foder, eu não trabalho mais para você”.

Preliminares do UFC 205

A porção inicial do UFC 205 também reservou grandes momentos aos fãs que lotaram o Madison Square Garden e os milhões que assistiram pela TV. Na luta mais importante do card preliminar, Frankie Edgar voltou a mostrar que é indestrutível contra Jeremy Stephens. O boxe rápido do ex-campeão dos leves ditava as normas até que um chutaço de Stephens quase mandou Edgar para a vala. Mostrando mais uma vez que seu coração é bem maior que o corpo, Edgar resistiu e ainda voltou ao controle das ações para garantir a vitória na decisão dos juízes.

Antes, Khabib Nurmagomedov era um homem numa missão: ser mais incisivo que Tony Ferguson foi na semana passada para tentar garantir o posto de desafiante do peso leve. E o russo conseguiu em letras maiúsculas ao tratorizar Michael Johnson, exatamente o último – e até hoje único – homem a vencer Ferguson.

Depois de um começo melhor na troca de golpes em pé, Johnson se juntou à estatística dos indivíduos que não conseguem dar conta do wrestling de Nurmagomedov. Quando conseguiu grudar no americano, o russo levou a luta para o solo em quase todas as oportunidades. No chão, misturou transições com um espancamento no ground and pound que terminou com uma kimura no terceiro assalto. Àquela altura, já dava pena do americano.

Dos três brasileiros que atuaram em Nova York, apenas um saiu vencedor. Vicente Luque precisou de apenas 79 segundos para nocautear Belal Muhammad, enquanto Thiago Pitbull foi derrotado por Jim Miller na decisão dos juízes e Rafael Sapo pagou pela movimentação errada e foi de encontro à brutal mão direita de Tim Boetsch, que o nocauteou na marca de 3:22 de luta.

O UFC 205 começou com Liz Carmouche fazendo história novamente. Depois de ter sido a primeira mulher a pisar no octógono para lutar, ela foi a primeira pessoa a vencer no UFC no Madison Square Garden. A ex-desafiante do peso galo superou Katlyn Chookagian por decisão dividida, que foi também a primeira barbeiragem da Comissão Atlética de Nova York no MMA, já que a luta não foi difícil de marcar a favor de Carmouche.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.