Diego Sanchez tomou o Troféu Leonard Garcia de Leonard Garcia

Por Alexandre Matos | 09/06/2014 14:21

Atual campeão dos penas do Legacy Fighting Championship, o americano Leonard Garcia ficou conhecido em seus tempos de funcionário da ZUFFA (UFC e WEC) por vencer combates em decisões altamente controversas. Começando na derrota para Mike Brown, no WEC 39, em março de 2009, até a derrota para Cody McKenzie, no UFC 159, em abril de 2013, “Bad Boy” Garcia anotou o retrospecto de 3-8-1, com cinco reveses seguidos, o que causou sua demissão. Porém, se suas lutas tivessem tido julgamentos mais justos, ele teria amargado um doloroso 0-12 no período (ok, poderia também ser 1-11, já que o próprio Garcia pode se queixar da derrota para Max Holloway).

Às vezes parece que nem o próprio Leonard Garcia acredita que ganhou certas lutas (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Às vezes parece que nem o próprio Leonard Garcia acredita que ganhou certas lutas (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Jameel Massouh, George Roop, o Zumbi Coreano Chan Sung Jung e Nam Phan foram vitimados por julgamentos incongruentes contra Leonard Garcia. Tirando o combate contra Massouh, os demais foram todos relativamente simples de julgar. Ainda houve a derrota para Mark Hominick, também clara, onde um juiz chamado Joe Garcia (!!!) anotou 29-28 para Leonard num notório 30-27 a favor de Mark.

A sequência de acontecimentos lamentáveis fez com que eu criasse o Troféu Leonard Garcia para agraciar o vencedor sempre que uma luta tivesse seu resultado “roubado”, como diz a sabedoria popular. Nunca publiquei nada a respeito desta brincadeira, pois o lutador não tem culpa de haver juízes incompetentes. Ainda assim, mantive a zoeira entre amigos. Com Garcia fora do UFC, o Troféu precisava ser bem representado no principal palco do MMA mundial – até mesmo porque o Bad Boy só venceu por nocaute ou finalização desde que trocou a organização de Las Vegas pela do Texas.

Diego Sanchez tomou o Troféu Leonard Garcia de Leonard Garcia. Desde que foi massacrado por BJ Penn na disputa do cinturão dos leves no UFC 107, em dezembro de 2009, Sanchez anotou 4-5 em seu retrospecto recente. Porém, se não estivesse “concorrendo” ao famigerado troféu, seu histórico deveria agora apontar 1-8. Apenas a vitória sobre Paulo Thiago, em outubro de 2010, foi justa neste intervalo. Porém, é sempre bom reforçar que o senhor Luis Cobian marcou 30-26 num claro 29-28. A última vítima de “Nightmare” Sanchez foi Ross Pearson, que teve sua vitória no último sábado removida na marra por dois juízes muito mal preparados, na melhor das hipóteses.

Analisando as lutas e os estilos de Garcia e Sanchez, é possível traçar paralelos preocupantes. Ambos são tecnicamente desfavorecidos no aspecto troca de golpes, principalmente quando confrontados com strikers habilidosos como Hominick, Pearson ou Martin Kampmann, outro vitimado pelos juízes contra Diego, por exemplo. Nestes casos, ficou ainda mais latente a deficiência dos descendentes de mexicanos. Para compensar, tanto Sanchez quanto Garcia tentam transformar suas lutas em “briga de bar”, avançando vigorosamente para cima de seus oponentes, lançando socos a milhão no vento, nivelando por baixo o aspecto técnico das disputas e tendendo a transformá-las em loteria.

Leonard Garcia prepara o clássico safanão, muito visto em estádios de futebol e bailes funk, contra o Zumbi Coreano (Foto: Josh Hedges/WEC Productions)

Leonard Garcia prepara o clássico safanão, muito visto em estádios de futebol e bailes funk, contra o Zumbi Coreano (Foto: Josh Hedges/WEC Productions)

Não foi difícil julgar a luta entre Sanchez e Pearson. Nem a desculpa esfarrapada de que “é mais fácil julgar do sofá de casa do que lá na hora” cabe. Eu já fui juiz lateral, já julguei lutas da área de imprensa e afirmo que não há essa dificuldade toda. Nos eventos do UFC, caso um combate passe um tempo no solo, longe da posição onde se encontra o juiz, telões espalhados pelo ginásio, mostrando o mesmo conteúdo que vai para a televisão, ajudam a acompanhar uma ação que se desenrola mais distante.

Ross Pearson, na coletiva de imprensa de sábado:

“Isso simplesmente é uma merda. Estou magoado neste momento, acredito que perdi metade de um pagamento. Os juízes aqui não perdem metade de seus pagamentos. Eu sinto que fui roubado, entendem?”

Uma luta mal julgada não mancha apenas o cartel do atleta. A declaração de Pearson deixa claro o fato de o salário do lutador ter sido subtraído, já que o UFC costuma pagar uma bolsa por comparecimento e igual valor adicional em caso de vitória. Ou seja, ele tem o direito de se sentir roubado, ainda que não tenha sido esta a intenção dos incompetentes que lhe tiraram a vitória clara. Ainda há sempre a esperança de o UFC pagar a ele a bolsa de vitória, procedimento comum em casos de decisões estapafúrdias como a de sábado. Porém, até que isso aconteça – e se acontecer –, Pearson receberá apenas a parcela pelo comparecimento à luta.

Em paralelo, a reportagem do jornal britânico The Telegraph diz que Pearson e o técnico Eric Del Fierro entraram com representação na Comissão Atlética do Novo México pedindo revisão do resultado. É praticamente certo que o pedido será indeferido. Alterações assim costumam acontecer apenas em casos de golpes ilegais (mas nem sempre, visto que a CABMMA sequer aceitou analisar o recurso de Scott Jorgensen, derrotado por Jussier Formiga após sofrer uma cabeçada) ou em casos de comprovada má-fé. Neste último caso, posso afirmar que a NMAC sequer vai investigar.

Ross Pearson foi mais consistente que Diego Sanchez, mas viu a vitória ficar injustamente com o americano (Joe Camporeale/USA TODAY Sports)

Ross Pearson foi mais consistente que Diego Sanchez, mas viu a vitória ficar injustamente com o americano (Joe Camporeale/USA TODAY Sports)

Chris Tellez, juiz que sequer tem histórico cadastrado no MMA Decisions, precisa explicar seus critérios para ter visto 29-28 a favor de Sanchez. Pior ainda fez Jeff Collins, este com inúmeros eventos de experiência, inclusive o UFC 156 encabeçado por José Aldo vs Frank Edgar. O cidadão teve o despautério de marcar 30-27 para o americano numa luta em que toda a mídia especializada pesquisada pelo MMA Decisions enxergou vitória para o britânico, 13 em 14 veículos inclusive anotaram 30-27 para Pearson. Além disso, 93,6% dos fãs que votaram na enquete do site americano marcaram pró-Pearson, sendo 80,7% de 30-27.

Nem mesmo a velha desculpa de “juízes de boxe julgando MMA” explica a barbeiragem, já que Sanchez-Pearson foi disputada praticamente inteira na troca de golpes e a única queda aplicada na luta foi executada por Pearson, no mesmo round em que ele mandou o oponente a knockdown. Ou seja, um sujeito que marca o segundo round para Sanchez devia, no mínimo, ser tolhido de seus direitos como juiz de MMA para passar por um processo severo de reciclagem. Assim como Pearson deixou de ganhar metade de seu salário, Collins deveria ficar um tempo tendo que se sustentar de outras maneiras que não julgando lutas de MMA. Mas, infelizmente, isto não vai acontecer, visto que as comissões atléticas costumam achar que não há problemas nos julgamentos, mesmo tendo acontecido Sanchez-Pearson, Sean StricklandLuke Barnatt e Robbie PeraltaRony Jason, só para ficar nas duas últimas semanas.

Esta história toda ainda traz outro problema paralelo: como a supervalorização de atuações mais baseadas no coração do que na técnica pode ser nociva ao desenvolvimento do esporte. Mas esta discussão fica para outra oportunidade.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.