Dia de luta, dia de glória: Robson Conceição leva o boxe brasileiro ao Olimpo com ouro inédito no Rio-2016

Mais maduro como o boxe brasileiro, Robson Conceição enfileira atuações soberbas, vence o melhor do mundo e se torna o primeiro pugilista brasileiro a conquistar a medalha de ouro olímpica.

Nunca imaginei que viveria para ver este dia chegar. O boxe, modalidade que um dia era quase marginalizada no Brasil, que vivia de brilhos esporádicos de esforços pessoais, agora tem um campeão olímpico. Nesta terça-feira, o baiano Robson Conceição conquistou a medalha de ouro na categoria peso ligeiro dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e fez o Pavilhão 6 do Riocentro explodir numa festa inesquecível.

A história de Robson se parece muito com a próprio retrospecto do nosso país na modalidade em Jogos Olímpicos. Por muito tempo, o boxe brasileiro era motivo de chacota. Tirando a surpreendente medalha de bronze de Servílio de Oliveira, em 1968, nossos boxeadores normalmente se classificavam para uma edição olímpica, quando conseguiam, para perder na estreia. Conceição disputou os Jogos de Pequim, em 2008, e de Londres, em 2012. Não venceu uma luta sequer, caindo diante de Li Yang e de Josh Taylor, ambos lutadores da casa, respectivamente.

A modalidade no Brasil amadureceu e assustou as grandes potências em 2012. A equipe nacional desembarcou na capital inglesa com três chances de medalha e voltou com as três peças metálicas na bagagem. Os irmãos Esquiva Falcão e Yamaguchi Falcão conquistaram prata e bronze. Everton Silva falhou em sua tentativa, mas Adriana Araujo garantiu outro bronze.

Robson também amadureceu no último ciclo olímpico. Em 2013, ficou com a medalha de prata no Campeonato Mundial da AIBA, derrotado na decisão pelo cubano Lázaro Álvarez. Dois anos depois, parou em Albert Selimov e viu novamente o cubano conquistar o ouro – seu tricampeonato mundial. Porém, o baiano mostrou qualidades, lutou de igual para igual com os melhores e chegou à edição carioca dos Jogos Olímpicos como um dos postulantes a uma medalha numa das mais fortes categorias do boxe, tão forte que era a única que tinha dois profissionais na disputa.

Menos deslumbrado do que nas duas tentativas olímpicas anteriores, Robson negou um convite para se profissionalizar no ano passado. Sua meta era não só vencer a primeira luta numa Olimpíada, mas levar uma medalha para Salvador. A campanha começou com uma vitória sobre Anvar Yunusov, do Tadjiquistão, que não voltou para o segundo assalto. Nas quartas de final, ele mostrou muita calma para conter o uzbeque Hurshid Tojibaev com excelente controle de distância, contragolpes precisos e esquivas em dia para dar suporte à guarda baixa, que atraía o oponente para uma armadilha.

O uzbeque Hurshid Tojibaev foi o passo que garantiu pelo menos a medalha de bronze a Robson Conceicao (Foto: Peter Cziborra/Reuters)

O uzbeque Hurshid Tojibaev foi o passo que garantiu pelo menos a medalha de bronze a Robson Conceicao (Foto: Peter Cziborra/Reuters)

A ótima atuação deu moral ao baiano, que teria pela frente o maior rival possível: Lázaro Álvarez, que havia eliminado o profissional Carmine Tommasone. A medalha de bronze já estava garantida – não há disputa de terceiro lugar no boxe olímpico -, mas Robson queria mais. Vencer o número um do mundo e favorito destacado ao ouro era questão de mostrar que a decisão de seguir no amadorismo foi correta. Com uma atuação ainda melhor, Conceição bateu o monstro com autoridade, sem deixar margem para dúvida na pontuação. O cara que nunca havia vencido uma luta em Olimpíada acabou de empatar com Esquiva como o melhor retrospecto brasileiro nos Jogos. Mas quem vence Lázaro não pode se contentar com medalha de prata.

Então chegou o dia que eu achei que não viveria para ver. A torcida fez com que o Riocentro parecesse um ginásio brasileiro recebendo uma edição do UFC. Gritos de “Vai morrer!” tinham a intenção de amedrontar o jovem francês Sofiane Oumiha, estreante em Olimpíadas, mas que chegou à decisão com a moral de ter batido o profissional tailandês Amnat Ruenroeng, ex-campeão mundial do peso mosca. Mais uma vez atuando de modo dominante, Robson variou os golpes entre cabeça e linha de cintura, confundindo a defesa do europeu, além de mostrar movimentação e esquivas soberbas.

Com 20-18 no placar anotado pelos juízes oficiais, Robson estava a três minutos da glória. Conforme os segundos avançavam, meus olhos foram se enchendo de água. Oumiha foi se desesperando com a movimentação e os contragolpes de Conceição. O francês mostrou coração, tentou ser agressivo, chegou a estar vencendo o terceiro round, mas teve dificuldade de encontrar o alvo. Ao final dos nove minutos, minha marcação apontava 30-27 para o brasileiro e não havia um único pelo no meu corpo que não estivesse de pé, assim como os milhares de torcedores que lotaram as arquibancadas do Riocentro. O boxe brasileiro finalmente tinha um campeão olímpico.

Robson Conceição vibra ao escutar que o campeão olímpico era o lutador do córner vermelho (Foto: Reuters)

Robson Conceição vibra ao escutar que o campeão olímpico era o lutador do córner vermelho (Foto: Reuters)

O menino pobre de Salvador, que passou a treinar boxe para melhorar seus desempenhos em brigas de rua na capital baiana, agora faz parte do seleto rol de atletas que atingiram o Olimpo. O boxe do Brasil vai sair dos Jogos de 2016 com menos medalhas do que quatro anos antes, mas maior ainda. A conquista de Robson catapultou o país para a 15ª colocação no quadro geral de medalhas, aproximando da arrojada meta definida pelo COB de terminar entre os dez primeiros.

A delegação brasileira tem até o momento três medalhas de ouro garantidas. Duas delas vieram das modalidades de luta, uma com Robson e outra com a judoca Rafaela Silva. O país pode conquistar mais algumas peças douradas, mas, dia após dia, os brasileiros vão curtindo os Jogos Olímpicos, se apaixonando por novas modalidades e deixando de ser uma nação sem cultura esportiva, que vive apenas do futebol. O Brasil também é o país da luta já há algum tempo e, agora, cada vez mais. E ainda aguardamos por Aline Silva, no wrestling, por Iris Tang Sing, no taekwondo.

Como os leitores mais assíduos do MMA Brasil já sabem, eu sou um fã inveterado dos Jogos Olímpicos. A cada quatro anos, novas oportunidades de se emocionar com as maravilhosas histórias produzidas nas Olimpíadas. Até hoje, porém, essas emoções estavam com um buraco, que foi tapado nesta terça-feira, 16 de agosto de 2016. O boxe, modalidade que me trouxe ao MMA, não é mais motivo de chacota. Eu vivi para ver um brasileiro no alto do pódio olímpico dentro de um ringue, cantando o hino nacional vendo a bandeira subir. Junto dele, milhares de vozes reforçando o coro.

Obrigado, Robson Conceição. Obrigado, torcedores que me representaram no Riocentro. Eu vi uma medalha de ouro olímpica no boxe. Nunca vou esquecer esta noite.

  • Gabriel Fareli

    Alias, que noite !!
    A noite que o RioCentro virou Maracanã, a torcida foi bem demais, empurrou o Robson legal, e o Baiano mostrou que não estava ali à toa. Atuação fantástica, golpes preciso, esquivas sensacionais e de vez em quando uma guarda baixa que mais um round de luta e me faria infartar…rs

    Amo Olimpíadas e as histórias de superação e vitória que ela nos traz a cada edição, e a história do Robson, a história dessa noite, dessa luta, eu nunca mais vou esquecer !

  • Saulo Henrique

    Deus te abençoe, camarada.

  • Paulo Zanchet

    Cara, não pude ver a luta ao vivo, mas fiquei muito feliz pela conquista inédita na modalidade. Muito legal o texto, Alexandre, certamente o mais bem escrito, tomara que o mesmo chegue até o lutador. Sofiane bem que tentou, mas quem Oumilha é o brasileiro. Ei, Alexandre, lembrei de uma coisa: não era vc que não torcia pra ser imparcial nas análises? Senti uma emoção aí… hahaha Abraços

    • Hahaha a questão de ser imparcial é de não enganar os leitores, o que eu acho que fiz direito na prévia. Repare que posso torcer por alguém e, ainda assim, ser imparcial. Uma coisa não deve interferir na outra.

      Além disso, também acho que fui imparcial neste texto, ainda que tenha sido carregado da emoção que senti nos últimos dias e especialmente na final. Não inventei nada, não aumentei nada, não fiz Robson parecer algo que não era.

      E tem outra questão, a de que Olimpíada é uma competição entre nações, o que MMA não é. O Robson representou o Brasil, ganhou uma medalha pra subir o país no quadro de medalhas. Os lutadores de MMA lutam por eles, ali não é uma questão de competição entre países. É bem diferente.

  • Diego Tintin

    Que texto maravilhoso!! Puta que pariu!

  • James sousa

    Robson foi gigante emocionado até agora

  • Marcos E

    É uma honra acompanhar este site.

    • É uma honra ter leitores como vocês e comentários como este.

  • Thiago Kuhl

    O senhor está inspirado para um caralho nessas olimpíadas!

  • Lero

    que maneiro, eu estava torcendo muito para ver o Yuberjen Mártínez trazer a primeira medalha de ouro no boxe para a Colômbia. E até acreditei nele depois de ganhar do Cubano na semifinal. Mas foi só prata dessa vez. De qualquer jeito foi muito bom.

    • Muito bom mesmo, teria sido sensacional ver um ouro brasileiro e um colombiano no boxe.