Demian Maia tira invencibilidade de Ryan LaFlare com aula de jiu-jítsu no UFC Fight Night 62

Jiu-jítsu rende vitória em cinco das seis lutas do card principal do UFC Fight Night 62. Demian Maia não chegou a finalizar, mas Erick Silva, Leo Santos, Gilbert Durinho e Godofredo Pepey fizeram seus oponentes desistirem.

No histórico palco onde os lutadores de jiu-jítsu se apresentam há mais de 50 anos, o principal representante da modalidade no MMA atual deu um verdadeiro seminário. Na luta principal do UFC Fight Night 62, evento que atraiu 7.707 pessoas ao Maracanãzinho, Demian Maia fez de quase tudo na luta agarrada para dar a Ryan LaFlare sua primeira derrota como profissional.

Demian adotou uma estratégia curiosa e ao mesmo tempo eficiente ao atuar nas duas extremidades da distância. Depois de receber dois ou três bons socos no começo da luta, o meio-médio paulista passou a se movimentar na mais do que longa distância, o que fez LaFlare errar muitos golpes e se desgastar. Além disso, sempre que LaFlare deixava brecha – e foram muitas vezes -, Demian entrava em queda para levar o combate para a mais curta distância possível. Foram cinco quedas no total, uma por round.

Quando o duelo chegou ao chão, os fãs viram um belo seminário de jiu-jítsu dos dois lados. Como se fosse fácil, Demian fluía pelas posições do jeito que queria, abusando de passar guarda, de montar e de se posicionar para encaixar finalizações de toda sorte. LaFlare foi bravo na defesa, lutou como foi possível e evitou a submissão. Porém, como defesa não conta mais ponto, Demian abriu 40-36 com autoridade e quase pôs fim ao combate com um katagatame profundo no quarto assalto.

No quinto, finalmente LaFlare fez o que deveria ter feito desde o começo. O americano aumentou o volume de golpes em pé, negou seis tentativas de quedas e não aceitou quando Maia, desgastado, se jogava no solo querendo que o oponente mergulhasse em sua guarda. LaFlare não caiu na armadilha e o árbitro John McCarthy ainda deduziu corretamente um ponto do brasileiro por evitar a luta. Ryan venceu o round e foi beneficiado pela falta de Maia, marcando assim 10-8 no assalto. Não adiantou de nada, já que o placar final ficou em 48-46 a favor de Demian, resultado visto pelos três juízes laterais e pelo MMA Brasil.

Erick Silva finaliza com facilidade e mostra o fim de linha para Josh Koscheck

Tudo na vida tem um fim. A carreira de Josh Koscheck, pelo menos no UFC, parece ter alcançado esta marca. O ex-desafiante dos meios-médios perdeu pela quinta vez consecutiva. O algoz agora foi Erick Silva, que conseguiu duas vitórias consecutivas pela primeira vez no UFC.

O mesmo Kos apático, incapaz de absorver bem um golpe e preocupado com o relógio desde o começo foi visto no Maracanãzinho. Erick negou as lentas tentativas de queda do oponente, lançou mata-cobras e um deles mandou Koscheck a knockdown. Vendo que o caminho era aquele, o capixaba continuou cercando o lento americano e disparou outro forte golpe. Silva então mergulhou tentando um triângulo de mão, fez a transição para a guilhotina e finalizou a 39 segundos do fim do primeiro assalto.

Esta foi a última luta do atual contrato de Josh Koscheck com o UFC. Com cinco derrotas consecutivas, aos 37 anos e mostrando cada vez menos ânimo e capacidade física dentro do octógono, dificilmente ele terá seu acordo renovado.

Leo Santos finaliza Tony Martin e segue invicto no octógono

Mais uma vez o jiu-jítsu entrou em ação para fazer um brasileiro vencedor no Maracanãzinho. O faixa-preta Leo Santos mostrou muita habilidade para pegar Tony Martin no mata-leão no segundo round.

O primeiro round foi monótono e deixou o brasileiro atrás no placar exatamente na área em que ele triunfaria mais tarde. Martin lançou boas direitas e perseguiu Leo até grudá-lo na grade, mas não conseguiu nenhuma situação aguda e teve duas tentativas de queda negadas.

O americano insistiu em tentar derrubar no segundo assalto. Quando parecia que conseguiria o feito, levou uma contraqueda do brasileiro, que caiu por cima. Leo passou a guarda, pegou as costas, fechou o triângulo nas pernas, posicionou o mata-leão e apertou o estrangulamento. Não houve alternativa a Martin senão batucar na marca de 2:29.

Amanda Nunes consegue primeiro nocaute via chute baixo numa luta feminina no UFC

A diferença física entre Amanda Nunes e Shayna Baszler foi fartamente propalada antes do combate. Com as duas no octógono, o combate acabou de modo duro para a americana protegida de Ronda Rousey.

A baiana Nunes tomou uma postura agressiva e mandou fogo com potentes socos de esquerda, um chute frontal na linha da cintura e alguns chutes baixos. Baszler acusou na fisionomia que se assustou com a potência da brasileira. Foi aí que Amanda largou um chute que pegou exatamente no joelho da adversária, que usava joelheira. Talvez indicando um problema pregresso, Shayna acusou o golpe e caiu chorando. O árbitro Mario Yamasaki intercedeu a 1:56 para que a brasileira não precisasse mais bater.

Esta foi a primeira vez numa luta feminina do UFC que um nocaute técnico aconteceu via chute baixo. No masculino, sete lutadores conseguiram o feito: Marco Ruas (UFC 7), Pedro Rizzo (UFC 27), Keith Jardine (TUF 2 Finale), Antoni Hardonk (UFC 65), Pat Barry (UFC 92), Brandon Vera (UFC 96) e Edson Barboza (UFC 123 e UFC 162).

Gilbert Durinho toma pressão de Alex Cowboy, mas vira no final

Quando Josh Thomson deu lugar ao estreante Alex Cowboy, a maioria imaginou uma vitória fácil para Gilbert Durinho. O triunfo até chegou, mas custou muito caro ao parceiro de treinos de Vitor Belfort.

Cowboy entrou relaxado, sem nada a perder e sem sentir a pressão de pisar no octógono mais famoso do mundo. No começo da luta, chegou a ser derrubado, mas se levantou sem deixar Durinho colocar o jiu-jítsu estelar em ação. Solto, Alex se movimentou muito bem e disparou vários golpes em Durinho, ainda que poucos em combinações. O lutador da Blackzilians tentou encarar o kickboxer na troca de golpes, mas foi pouco a pouco tendo o olho esquerdo fechado de tanta carimbada.

O cenário acima durou dois rounds inteiros e fez muitos perguntarem: “E se fosse Josh Thomson?” Não era. No terceiro, com senso de urgência ligado, Durinho conseguiu rapidamente uma queda, montou facilmente e tentou uma omoplata. Cowboy se defendeu bem, mostrando técnica e força física, mas o jogo de chão do oponente tem muitas cartas na manga. Gilbert seguiu pressionando, tentou um triângulo, foi para uma chave de braço por baixo e finalmente saiu de lado em posição de esticar o braço do oponente. Durinho encaixou o armlock e Cowboy foi obrigado a desistir.

Ao final do combate, Cowboy circulava feliz como se tivesse vencido – afinal, estreou com ótima atuação. Já Durinho, com um olho fechado, vai voltar preocupado para a Flórida, estudar seus erros e tentar tomar um caminho mais adequados, sem atalhos perigosos, rumo à elite.

Godofredo Pepey anota a terceira vitória seguida por interrupção no primeiro round

Já é possível dizer que o Godofredo Pepey unidimensional e previsível não existe mais e está de volta o finalizador do começo da carreira. Com a terceira interrupção bonificada seguida, o cearense bateu o perigoso Andre Fili e mostrou que está pronto para passos mais largos na divisão dos penas.

Pepey mais uma vez começou a luta de modo agressivo, intimidando Fili. O integrante do Team Alpha Male tentou quebrar o ritmo levando a luta para a grade e acabou pagando caro. Para sair da situação incômoda, Pepey deu um triângulo voador e trouxe o combate para o solo. Enquanto tentava posicionar as pernas para apertar o estrangulamento, Godofredo aplicava cotoveladas na cabeça de Fili, que tentava sair dali. Quando finalmente o faixa-preta acertou a postura e fechou o triângulo, o americano teve que se render quando o cronômetro mostrava 3:14 de luta.

Pepey levou para casa um dos quatro bônus de desempenho, embolsando US$50 mil dólares adicionais. Os outros premiados foram Gilbert Durinho, Kevin Souza e Freddy Serrano.

  • João

    Bom dia.
    Confesso que este desporto, para mim, aumenta de interesse quando os brasileiros arrasam! ;)

    • Você está no seu direito total. Eu acho que me divirto mais aprendendo a curtir o esporte, independentemente na nacionalidade de quem estiver lutando.

      • João

        Sem dúvida, mas há sempre aquele sentimento patriótico e de pertença cultural que nos enche de glória e orgulho quando os nossos são melhores. :)

        • Airton S

          Er.. eu sempre gosto de dizer que uma coisa é GOSTAR de ser brasileiro, nenhum pró aí, eu mesmo gosto muito, mas TER ORGULHO já nos leva a um terreno muito perigoso, hehe. Enfim, só quis dar meus dois centavos ao papo, sem querer levá-lo pra filosofia política…

        • É que a gente enxerga patriotismo de um modo diferente.

        • Juan

          Vermos o sucesso de algo/alguém próximo à nossa realidade é sempre muito legal e natural, todos temos isso.
          Por exemplo, se você brasileiro, vai morar nos EUA, treina com colegas americanos e seus colegas americanos vão enfrentar brasileiros, você não desejaria sucesso aos seus colegas?
          Patriotismo, para mim, só serve para controlar e limitar a população.

  • Airton S

    As Horsewomen parecem aquelas bandas de garagem que não gravaram nem uma demo ainda, mas já se preocuparam em lançar camisetas, bottons, canecas, adesivos, poster… tsc, tsc.

    • É porque a líder pode. Seria o mesmo de montar uma banda de garagem com a Rihanna, Brittney ou Taylor Swift de vocal.

      • Airton S

        Bom, já vi um show do Lou Reed acompanhado de uma banda horrível. hehehe.

        • Sim, mas entende-se perfeitamente o marketing em volta, isso que eu quero dizer.

  • Airton S

    A virada do Durinho foi o ponto alto do evento, na minha opinião. Uma das mais fodas dos últimos tempos. Que coração de vencedor esse filho da puta tem! Item raro em qualquer esporte. Quando tudo parecia perdido…

    • Sim, mas cabe uma lição imensa. Pra quem quer chegar onde ele pensa (e que pode), não dá pra passar o aperto que passou.

      • Airton S

        Intuição (e sei que ainda é cedo ♪ cedo ♪ cedo ♪): ele deve chegar ao top 10.

  • Daniel Silveira

    Pra mim o maior destaque deste evento foi, sem dúvidas, o Alex cowboy. Quaaaase levou a luta, ao menos saiu do octógono maior do que entrou e se for treinar fora numa boa equipe terá futuro. Uma pena ele não ter ganho o prêmio como luta da noite, pq devido a todas circunstâncias ele merecia.

  • Danilo Lopes

    Esse card deixou claro que quando ainda num nível mediano de competidores, uma habilidade única ainda faz diferença.

  • Danilo

    Vamos por partes:
    Começando por Pepey, o cara realmente ta mostrando a que veio e que tem potencial pra pegar os tops da categoria. Usou seu ponto forte quando viu a chance e finalizou um cara duro.

    Durinho pra mim pecou no gameplan. Todo mundo sabia da enorme vantagem dele no chão e o que ele fez? Deixou o Cowboy, que não tinha nada a perder e tava tranquilão, se soltar e lutar na sua zona de conforto quando deveria ter encurtado e caído nas pernas desde o início.
    Como resultado, passou um aperto que poderia ter sido evitado.
    Quanto ao Cowboy, viu a luta correr em pé e fez o seu, foi muito bem.

    Erick pegou um adversário perfeito pra sair do perde/ganha, um apático e sem saco pra mais nada, Koscheck, que mais uma vez olhou pro cronômetro durante a luta. Eu realmente espero que Koscheck se aposente, assim como Hendo, não tem mais nada a provar e tem uma carreira sólida. Pode ir cuidar da academia e da família tranquilo.

    Amanda fez o que tinha que fazer, desceu o sarrafo e conseguiu um nocaute muito maneiro. A única observação é que ela poderia ter evitado os socos depois que Yamasaki pulou em cima.

    E o Demian foi perfeito no gameplan, usou seu ponto forte desde o início e deu uma aula de JJ. A observação aqui é que ele gastou energia demais tentando finalizar no roudn 4, quando viu que não ia dar podia ter soltado e trabalhado por cima até o fim do round. Assim não ia ficar se jogando no chão no quinto round pq não aguentava mais ficar em pé.

    A última observação é sobre todos que foram perguntados sobre o próximo passo e ficaram com aquele papo de “sou um funcionário do UFC e luto com qualquer um”. Po, quando o cara pergunta é sua hora de se promover, de cutucar alguém, de chamar um top, de mostrar pro chefe que tu sabe onde ta e onde quer chegar. Sei lá os caras devem ficar com receio por achar que vai soar arrogante. Tem nada a ver.

    • Também acho que tem essa parada de parecer arrogante. Acho isso uma babaquice. Enquanto uns fazem isso, Conor McGregor e Bethe Correia vão lutar por cinturões.

    • Marley Fortunato da Silva

      Muito boa a sua observação (último parágrafo). Eu não sei porque os lutadores brasileiros tem esse medo, preconceito ou receio (sei lá o que!) de se promover, de pedir uma luta, de dar uma cutucada em um adversário… O marketing pessoal e que te faz conhecido. Então, já que estão no maior evento de MMA do mundo deveriam se soltar mais, treinar e praticar o wrestling, aprender inglês, para ganhar mais fãs pelo mundo. Já que os Estados Unidos é a “terra da oportunidade”, porque não aproveitar???

  • Rafael Maia

    Gotei muito do Pepey!
    Amanda foi uma leoa mesmo, não queria largar a caça!
    O Cowboy deu show!
    Tudo lindo… menos A trocação do Demian! Muito abaixo do nível esperado pra um top do UFC…

  • Rafa FriAll

    Pepey calando os criticos, mostrando uma evolução bem legal. Com o seu bom jiu jitsu se acabar desenvolvendo bem o wrestler vai dar muito trabalho.

    Durinho mostrou que no chão ele é top, foi bonito de ver ele caçando a finalização, trocando de posições até pegar. Porem também mostrou que não está preparado para pegar os tops.

    Cowboy felizão até com a derrota, muito bacana, saiu grande desse evento.

    Amanda eu já esperava uma vitória. Das lutadoras brasileiras eu considero ela a melhor. Melhor que Bethe e Jessica.

  • Spike

    Demian tem muita classe. Torço pra ele começar a bater tops e um dia ter um TS.