Por Alexandre Matos | 22/03/2015 04:01

No histórico palco onde os lutadores de jiu-jítsu se apresentam há mais de 50 anos, o principal representante da modalidade no MMA atual deu um verdadeiro seminário. Na luta principal do UFC Fight Night 62, evento que atraiu 7.707 pessoas ao Maracanãzinho, Demian Maia fez de quase tudo na luta agarrada para dar a Ryan LaFlare sua primeira derrota como profissional.

Demian adotou uma estratégia curiosa e ao mesmo tempo eficiente ao atuar nas duas extremidades da distância. Depois de receber dois ou três bons socos no começo da luta, o meio-médio paulista passou a se movimentar na mais do que longa distância, o que fez LaFlare errar muitos golpes e se desgastar. Além disso, sempre que LaFlare deixava brecha – e foram muitas vezes -, Demian entrava em queda para levar o combate para a mais curta distância possível. Foram cinco quedas no total, uma por round.

Quando o duelo chegou ao chão, os fãs viram um belo seminário de jiu-jítsu dos dois lados. Como se fosse fácil, Demian fluía pelas posições do jeito que queria, abusando de passar guarda, de montar e de se posicionar para encaixar finalizações de toda sorte. LaFlare foi bravo na defesa, lutou como foi possível e evitou a submissão. Porém, como defesa não conta mais ponto, Demian abriu 40-36 com autoridade e quase pôs fim ao combate com um katagatame profundo no quarto assalto.

No quinto, finalmente LaFlare fez o que deveria ter feito desde o começo. O americano aumentou o volume de golpes em pé, negou seis tentativas de quedas e não aceitou quando Maia, desgastado, se jogava no solo querendo que o oponente mergulhasse em sua guarda. LaFlare não caiu na armadilha e o árbitro John McCarthy ainda deduziu corretamente um ponto do brasileiro por evitar a luta. Ryan venceu o round e foi beneficiado pela falta de Maia, marcando assim 10-8 no assalto. Não adiantou de nada, já que o placar final ficou em 48-46 a favor de Demian, resultado visto pelos três juízes laterais e pelo MMA Brasil.

Erick Silva finaliza com facilidade e mostra o fim de linha para Josh Koscheck

Tudo na vida tem um fim. A carreira de Josh Koscheck, pelo menos no UFC, parece ter alcançado esta marca. O ex-desafiante dos meios-médios perdeu pela quinta vez consecutiva. O algoz agora foi Erick Silva, que conseguiu duas vitórias consecutivas pela primeira vez no UFC.

O mesmo Kos apático, incapaz de absorver bem um golpe e preocupado com o relógio desde o começo foi visto no Maracanãzinho. Erick negou as lentas tentativas de queda do oponente, lançou mata-cobras e um deles mandou Koscheck a knockdown. Vendo que o caminho era aquele, o capixaba continuou cercando o lento americano e disparou outro forte golpe. Silva então mergulhou tentando um triângulo de mão, fez a transição para a guilhotina e finalizou a 39 segundos do fim do primeiro assalto.

Esta foi a última luta do atual contrato de Josh Koscheck com o UFC. Com cinco derrotas consecutivas, aos 37 anos e mostrando cada vez menos ânimo e capacidade física dentro do octógono, dificilmente ele terá seu acordo renovado.

Leo Santos finaliza Tony Martin e segue invicto no octógono

Mais uma vez o jiu-jítsu entrou em ação para fazer um brasileiro vencedor no Maracanãzinho. O faixa-preta Leo Santos mostrou muita habilidade para pegar Tony Martin no mata-leão no segundo round.

O primeiro round foi monótono e deixou o brasileiro atrás no placar exatamente na área em que ele triunfaria mais tarde. Martin lançou boas direitas e perseguiu Leo até grudá-lo na grade, mas não conseguiu nenhuma situação aguda e teve duas tentativas de queda negadas.

O americano insistiu em tentar derrubar no segundo assalto. Quando parecia que conseguiria o feito, levou uma contraqueda do brasileiro, que caiu por cima. Leo passou a guarda, pegou as costas, fechou o triângulo nas pernas, posicionou o mata-leão e apertou o estrangulamento. Não houve alternativa a Martin senão batucar na marca de 2:29.

Amanda Nunes consegue primeiro nocaute via chute baixo numa luta feminina no UFC

A diferença física entre Amanda Nunes e Shayna Baszler foi fartamente propalada antes do combate. Com as duas no octógono, o combate acabou de modo duro para a americana protegida de Ronda Rousey.

A baiana Nunes tomou uma postura agressiva e mandou fogo com potentes socos de esquerda, um chute frontal na linha da cintura e alguns chutes baixos. Baszler acusou na fisionomia que se assustou com a potência da brasileira. Foi aí que Amanda largou um chute que pegou exatamente no joelho da adversária, que usava joelheira. Talvez indicando um problema pregresso, Shayna acusou o golpe e caiu chorando. O árbitro Mario Yamasaki intercedeu a 1:56 para que a brasileira não precisasse mais bater.

Esta foi a primeira vez numa luta feminina do UFC que um nocaute técnico aconteceu via chute baixo. No masculino, sete lutadores conseguiram o feito: Marco Ruas (UFC 7), Pedro Rizzo (UFC 27), Keith Jardine (TUF 2 Finale), Antoni Hardonk (UFC 65), Pat Barry (UFC 92), Brandon Vera (UFC 96) e Edson Barboza (UFC 123 e UFC 162).

Gilbert Durinho toma pressão de Alex Cowboy, mas vira no final

Quando Josh Thomson deu lugar ao estreante Alex Cowboy, a maioria imaginou uma vitória fácil para Gilbert Durinho. O triunfo até chegou, mas custou muito caro ao parceiro de treinos de Vitor Belfort.

Cowboy entrou relaxado, sem nada a perder e sem sentir a pressão de pisar no octógono mais famoso do mundo. No começo da luta, chegou a ser derrubado, mas se levantou sem deixar Durinho colocar o jiu-jítsu estelar em ação. Solto, Alex se movimentou muito bem e disparou vários golpes em Durinho, ainda que poucos em combinações. O lutador da Blackzilians tentou encarar o kickboxer na troca de golpes, mas foi pouco a pouco tendo o olho esquerdo fechado de tanta carimbada.

O cenário acima durou dois rounds inteiros e fez muitos perguntarem: “E se fosse Josh Thomson?” Não era. No terceiro, com senso de urgência ligado, Durinho conseguiu rapidamente uma queda, montou facilmente e tentou uma omoplata. Cowboy se defendeu bem, mostrando técnica e força física, mas o jogo de chão do oponente tem muitas cartas na manga. Gilbert seguiu pressionando, tentou um triângulo, foi para uma chave de braço por baixo e finalmente saiu de lado em posição de esticar o braço do oponente. Durinho encaixou o armlock e Cowboy foi obrigado a desistir.

Ao final do combate, Cowboy circulava feliz como se tivesse vencido – afinal, estreou com ótima atuação. Já Durinho, com um olho fechado, vai voltar preocupado para a Flórida, estudar seus erros e tentar tomar um caminho mais adequados, sem atalhos perigosos, rumo à elite.

Godofredo Pepey anota a terceira vitória seguida por interrupção no primeiro round

Já é possível dizer que o Godofredo Pepey unidimensional e previsível não existe mais e está de volta o finalizador do começo da carreira. Com a terceira interrupção bonificada seguida, o cearense bateu o perigoso Andre Fili e mostrou que está pronto para passos mais largos na divisão dos penas.

Pepey mais uma vez começou a luta de modo agressivo, intimidando Fili. O integrante do Team Alpha Male tentou quebrar o ritmo levando a luta para a grade e acabou pagando caro. Para sair da situação incômoda, Pepey deu um triângulo voador e trouxe o combate para o solo. Enquanto tentava posicionar as pernas para apertar o estrangulamento, Godofredo aplicava cotoveladas na cabeça de Fili, que tentava sair dali. Quando finalmente o faixa-preta acertou a postura e fechou o triângulo, o americano teve que se render quando o cronômetro mostrava 3:14 de luta.

Pepey levou para casa um dos quatro bônus de desempenho, embolsando US$50 mil dólares adicionais. Os outros premiados foram Gilbert Durinho, Kevin Souza e Freddy Serrano.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.