Demian Maia como inspiração para a encruzilhada de um legado

Ao invés de insistir num caminho que não está dando certo, mesmo em outra academia, que tal Ronda Rousey voltar às origens e procurar maximizar suas potencialidades?

Desde o último dia do ano passado, não falta gente dizendo que Ronda Rousey não conhece nada de striking, que Edmond Tarverdyan é um péssimo técnico, que Travis Browne bate em mulher, que a mãe da ex-campeã não é uma influência saudável, que a Glendale Fighting Club é uma péssima equipe e por aí vai.

Haters da estrela encontraram a oportunidade ideal para aflorar seus sentimentos e outros, que tentavam ver o copo meio cheio, se renderam ao segundo nocaute consecutivo sofrido pela mais dominante lutadora da história do UFC.

Não vou entrar no mérito do que Browne faz em sua vida particular (o problema dele é de polícia). Também não farei juízo de valor de AnnMaria de Mars, que sequer conheço além do pouco que se fala dela fora do âmbito esportivo. Muito menos entrarei no mérito de avaliação psicológica de Rousey, pois, além de não ter gabarito para tal, respeito muito esse tipo de sofrimento.

Já na parte técnica, meteremos o bedelho.

Ronda mereceu as críticas. O aspecto ofensivo, o qual ela já havia mostrado talento antes, não deu as caras na T-Mobile Arena, em Las Vegas. No defensivo, no qual ela mostrou dificuldade até em vitórias dominantes, parece ter ficado ainda pior, provavelmente traumatizado pelo sapeca-iaiá que a californiana levou de Holly Holm, no UFC 193. Deu a impressão que, assim que o primeiro soco de Amanda Nunes aterrissou no rosto de Rousey, os pesadelos daquela tarde australiana de 15 de novembro de 2015 voltaram à tona.

Tarverdyan merece as críticas. Em 2016, seus pupilos tiveram um ano negativo, com mais derrotas do que vitórias. Mais do que isso, além das falhas de Ronda, foi possível ver nos últimos tempos uma degradação em gente como Jake Ellenberger e o próprio Browne, que frequentavam a parte alta dos rankings e viraram motivo de chacota depois de seguidas atuações ruins.

No entanto, um dos mais renomados treinadores do mundo saiu em defesa do líder da GFC. Firas Zahabi, técnico principal da Tristar Gym de Georges St. Pierre, disse que as falhas apresentadas por Rousey na parte do striking não necessariamente eram culpa de Tarverdyan. Zahabi usou alguns bons exemplos – Ben Askren é muito limitado tecnicamente nesta área, embora treine com o ex-campeão de kickboxing Duke Roufus -, mas lançou outros ruins também. Por exemplo, ao dizer que Tarverdyan já provou ter bom conhecimento técnico de boxe.

Ser um bom atleta, em qualquer modalidade, está longe de representar que a pessoa será um bom técnico. Similarmente, um excelente técnico não precisa ter sido atleta de elite. Além de o próprio Zahabi ser um exemplo, temos outros casos mais extremos, como por exemplo Freddie Roach, pugilista mediano e certamente Hall da Fama como técnico, ou Ray Arcel, que fez uns 20 campeões mundiais de boxe sem nunca ter lutado profissionalmente. Não há essa relação e é mais fácil achar grandes técnicos que não foram atletas de elite do que o contrário. São formações, conhecimentos e habilidades distintas.

Não só os resultados, mas as atuações dos pupilos em seu ponto forte dão sérios indícios de que Tarverdyan é mesmo um treinador muito ruim, pelo menos no MMA. Mantendo o foco em Ronda, até hoje não vimos Edmond colocar nela um pingo de noção defensiva, o que nos leva a crer que isso talvez não aconteça nunca. Mesmo quando brilhantemente capitalizou em uma deficiência de postura de Sara McMann ou quando foi como um trem para cima de Bethe Correia, Ronda foi alvejada mais do que deveria. Já era um alerta, que uma craque da nobre arte como Holm brincou de explorar.

Como toda essa problemática, a “solucionática” que os fãs apresentaram foi que Ronda deveria mudar de academia. Bem, isso me parece um tanto claro. Mas para onde? Os brasileiros, cheios do tradicional pachequismo, se encheram de orgulho para gritar o nome do fantástico Rafael Cordeiro, como se todos os trabalhos do treinador fossem casos de sucesso como Rafael dos Anjos e Fabricio Werdum. O que esse pessoal defende: que Ronda precisa se tornar uma striker de elite para recuperar a carreira.

Cordeiro pode repetir os casos de sucesso de Werdum e Dos Anjos com Rousey? (Foto: Andre Durão)

Cordeiro pode repetir os casos de sucesso de Werdum e Dos Anjos com Rousey? (Foto: Andre Durão)

Não, ela não precisa disso. E aqui voltamos para o ponto em que Firas Zahabi foi preciso em sua análise. Ronda é uma grappler excelente o suficiente para poder investir em outra abordagem. Lembram de quando Demian Maia tentou virar striker? Pode-se dizer que não deu muito certo e o paulista caminhou para se tornar um lutador cada vez menos relevante. Isso até o dia que encontrei Eduardo Alonso, empresário de Maia, num bar em Belo Horizonte, no fim de semana do UFC 147. Ele me falou: “Vamos voltar às origens”. Sábias palavras.

Demian e sua equipe foram inteligentes e humildes para perceber o erro de estratégia e refazer o caminho. Perto de completar 35 anos, talvez não desse tempo, mas eles acharam que valia a tentativa. Corte de peso, mudança do médio para o meio-médio e a volta do mais eficiente jiu-jítsu adaptado ao MMA moderno. E, a partir dali, com um ingrediente a mais, uma evolução no wrestling, fazendo com que a arte suave deixasse de ser um fim fortuito para algo que, queiram os adversários ou não, vai acontecer.

O resultado está aí. Com seis vitórias consecutivas, iniciando pelo UFC 148, dias depois do meu encontro com Alonso, e as finalizações dominantes sobre Matt Brown e Carlos Condit, Demian só não é o próximo desafiante porque Stephen Thompson fez ainda mais. Porém, provavelmente o brasileiro será o próximo, o que lhe garantirá a segunda disputa de cinturão da carreira, totalmente por méritos esportivos. Isso sim é um tremendo caso de sucesso para inspirar um retorno de Ronda Rousey.

Não adianta insistir, Ronda não vai passar de uma hora para outra a chutar como Edson Barboza, combinar socos como Junior Cigano ou se movimentar como Frankie Edgar. Ela não precisa disso. O que Ronda precisa é de uma estratégia que a faça encurtar a distância minimizando os riscos e de algum treinador que maximize suas enormes facilidades de derrubar e esticar braços. Firas Zahabi, aliás, é uma excelente pedida, assim como Greg Jackson, Matt Hume, Eric Del Fierro, André Pederneiras (se não parar)…

Como Bruno Fares bem lembrou em seu excelente texto, que serviu de base para este, Ronda vai fazer 30 anos em fevereiro. Ela pode parar de lutar agora, afinal, está milionária. Mas, pela idade, ainda tem lenha para queimar. E tem talento para voltar ao trono. Cabe a quem torce por um retorno que dona DeMars conte todos os dias antes da filha dormir a história do sujeito que recuou um passo para avançar dois. Que ela conte o conto do homem que percebeu que estava no caminho errado para voltar ao certo ainda em tempo – e com o tempo bem mais curto que o dela. Que dona DeMars conte para a filha as Crônicas de Maia.