De olho no wrestling até os Jogos Olímpicos – edição de fevereiro

Alguns dos melhores wrestlers do mundo estiveram em ação nos campeonatos asiático e pan-americano, além do forte Alexander Medved. Cinco brasileiros conquistaram vagas olímpicas.

Seguimos com a cobertura dos campeonatos mais importantes do wrestling internacional no ano mais importante do esporte, que é o ano olímpico, quando não se tem disputa de Campeonato Mundial. Lembramos que o objetivo da coluna é revelar os wrestlers para os leitores ficarem de olho, com chances de representar seu país e/ou medalhar nas Olimpíadas.

Sem mais delongas, vamos ver o que fevereiro (e o começo de março) trouxe de melhor para oferecer aos amantes do esporte.

Alexander Medved Prizes

Nos dias 18 e 19 de fevereiro aconteceu o campeonato mais forte do ano até agora em número de wrestlers campeões mundiais e olímpicos, o torneio Alexander Medved Prizes, realizado anualmente em Minsk, capital da Belarus. O evento foi criado em homenagem ao tricampeão olímpico pela extinta União Soviética, Alexander Medved, considerado por muitos o maior wrestler da história do estilo livre.

O maior destaque do torneio veio novamente na categoria até 97 quilos, o russo Khadzhimurat Gatsalov, lenda viva do esporte, pentacampeão mundial e uma vez campeão olímpico. Ele teve um torneio nada fácil. Depois de derrotar seus dois primeiros adversários por 12-1 e 6-1, encontrou na quarta e na semifinal dois campeões mundiais, que inclusive fizeram a final do Mundial de 2015. O primeiro deles foi Kyle Snyder, o jovem fenômeno americano que venceu o Mundial no ano passado, que acabou perdendo por 5-2, após ser contra-atacado com uma projeção de 4 pontos (veja no vídeo abaixo dos melhores momentos de Gatsalov no torneio). Esta foi a segunda vez que eles se enfrentaram e a segunda vez que Gatsalov sai vencedor do confronto. Na semifinal, o russo bateu de frente com o compatriota Abdusalam Gadisov, ex-campeão mundial, e o superou por 3-1, acertando um bonito double leg no daguestanês (também pode ser visto nos highlights abaixo). Na final, o russo teve pela frente o bielorrusso Ivan Yankovsky, campeão do Alexander Medved Prizes em 2013, e, sem muitas dificuldades, com duas quedas, sendo uma de 4 pontos, o derrotou por 6-0.

Vídeo da final:

Vídeo com os melhores momentos de Gatsalov no torneio:

Na categoria até 65 quilos, uma das categorias mais fortes do torneio, o russo Soslan Ramonov, campeão mundial em 2014, antes de chegar à final, venceu seus adversários por encostamento, superioridade técnica (11-0) e 7-2, sendo que este último resultado foi contra o tricampeão do evento, o bielorusso Azamat Nurikov. A final, uma das mais aguardadas do campeonato, colocou frente a frente os campeões mundiais da categoria em 2014 e em 2015, Ramonov e o italiano Frank Chamizo. Numa luta muito movimentada, com vários scrambles, cheio de challenges (desafio da pontuação dada pelos árbitros) e polêmica devido a uma possível pisada de Romanov fora da área de luta nos momentos finais, que não pôde ser confirmada devido ao ângulo não favorável da câmera, o russo bateu o italiano por 8-7. Naturalmente, Ramonov é um nome forte para as Olimpíadas do Rio de Janeiro se for confirmado que será o representante da delegação russa.

Vídeo da final:

Outro campeão mundial de 2014 pegou primeiro lugar no Alexander Medved Prizes, o russo Khetag (ou Khetig) Tsabolov, na categoria até 74 quilos. Seus três primeiros oponentes não viram o final da luta, com dois derrotados por superioridade técnica (10-0 e 13-2) e outro devido a lesão. Na semifinal, Tsabolov enfrentou o tricampeão asiático, Rashid Kurbanov, do Uzbequistão, e o venceu por 7-2. Na disputa final, o russo pegou o iraniano campeão mundial júnior e medalhista de prata no Mundial de 2015 (adultos), Hassan Yazdani. Usando um dos movimentos mais bonitos do torneio, Tsabolov utilizou um whizzer ao defender uma investida do iraniano, que estava empurrando-o com um underhook. Em seguida, rolou e conseguiu o encostamento ainda no primeiro período da luta.

Vídeo da final:

Alguns detalhes do lindo movimento utilizado por Tsabolov em Yazdani:

Na categoria até 86 quilos, o jovem azerbaijano de 20 anos, Nurmagomed Gadzhiyev, que se sagrou campeão mundial júnior no ano passado, na Bahia, levou o seu primeiro ouro entre os adultos num dos torneios mais difíceis do mundo. Após vencer suas duas primeiras lutas, ele enfrentou o campeão mundial militar de 2014, o alemão William Harth, e o superou por 6-2. Na semifinal, Gadzhiyev ficou cara a cara com um casca grossa, o georgiano Dato Marsagishvili, campeão mundial júnior, bicampeão europeu e medalhista de bronze mundial e olímpico, anotando 4-4 no placar – o azerbaijano venceu no critério de vantagem. Na disputa pelo ouro, Gadzhiyev passou pelo americano Richard Perry. Depois de dois step-outs e um lindo double leg que lhe rendeu 4 pontos, o azerbaijano derrotou Perry por 6-0.

Vídeo da final:

Na divisão dos mais pesados, até 125 quilos, o gigante georgiano Geno Petriashvili, campeão mundial júnior e medalhista de bronze nos mundiais de 2013 e 2015 (adultos), depois de vencer seus dois primeiros oponentes por 10-3 e 6-0, pegou na semifinal o iraniano Komeil Ghasemi, campeão asiático, medalhista de prata no Mundial de 2014 e bronze olímpico. Petriashvili derrotou o iraniano por 9-4. A final viu como seus protagonistas dois campeões mundiais juniores: de um lado, Petriashvili, que conquistou tal título em 2013; do outro, o azerbaijano Said Gamidov, que acabou de conquistar o Mundial Júnior em 2015, no Brasil. O georgiano não deu a menor chance para Gamidov e com uma exposição das costas, um turn e três quedas, venceu o azerbaijano por 10-0, superioridade técnica.

Vídeo da final:

Campeonato Asiático de Wrestling

Do dia 17 a 21 de fevereiro, aconteceu o Campeonato Asiático de Wrestling, em Bangkok, na Tailândia. O grande nome da competição estava na categoria até 97 quilos, o monstro iraniano Reza Yazdani, conhecido como “O Leopardo de Juybar”. O bicampeão mundial conquistou seu 5º título asiático (contando o campeonato e os Jogos Asiáticos). Na qualificação e nas quartas de final, Yazdani passou por cima de seus rivais por superioridade técnica (10-0) e encostamento, respectivamente. Na semifinal, enfrentou o mongol Khuderbulga Dorjkhand, também campeão asiático, e este foi o único adversário do iraniano que conseguiu ver o final dos 6 minutos de luta, ao ser derrotado por 7-0. Na final, Yazdani teve pela frente Magomed Musaev, do Quirguistão, mais um campeão asiático. O primeiro ponto do iraniano veio com um shot clock. Em seguida, Yazdani conseguiu a queda e o encostamento ainda no primeiro período, tamanha a brutalidade para virar o adversário, que deu os tapinhas no tapete para o iraniano parar.

Vídeo da final (o vídeo de todas as outras lutas do Campeonato Asiático também estão no canal da United World Wrestling, no YouTube):

Eu arriscaria dizer que, quando está 100%, sem as lesões que tanto o atrapalham, Reza Yazdani é um dos meus wrestlers preferidos. Ele é forte como um tanque e apresenta muita técnica. Como é muito baixo para a divisão (1,72m), quando ataca dificilmente seus oponentes param em pé e muitas vezes eles acabam voando antes de atingirem o solo. A divisão até 97 quilos está assustadora com tantos wrestlers capazes de levar o tão sonhado ouro olímpico, como Boltukaev, Gadisov, Gatsalov, Gazyumov, Varner, Snyder e o próprio Yazdani.

Na categoria até 125kg, outro grande wrestler que pode surpreender nas Olimpíadas conquistou seu quarto título asiático. O gigante iraniano Parviz Hadi mostrou mais uma vez ser a melhor opção para seu país nesta divisão de peso. Em sua primeira luta, Hadi derrotou o oponente por 10-0, repetindo o resultado no segundo combate. No terceiro confronto, teve pela frente o sul coreano Koungjin Nam, superado por 12-6. O iraniano enfrentou na disputa pela medalha de ouro Daulet Shabanbay, do Cazaquistão. Com um ponto no shot clock e uma queda partindo de sua especialidade, o snap down, venceu a luta por 3-1.

Vídeo da final:

Campeonato Pan-americano e Pré-Olímpico Pan-americano

No último torneio do mês, que ocorreu no dia 27 de fevereiro, na cidade de Frisco, Texas, a atração do Campeonato Pan-Americano foi a maior estrela do wrestling atual, o americano Jordan Burroughs, tricampeão mundial e campeão olímpico na categoria até 74kg. Ele venceu seus quatro adversários por superioridade técnica (10-0, 10-0, 13-2 e 12-2), se tornando assim tetracampeão pan-americano.

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Burroughs é o favorito absoluto a levar o ouro nas Olímpiadas em sua categoria. Seu arquirrival, o russo Denis Tsargush, também tricampeão mundial, não vem num bom momento e é grande a probabilidade de a Federação Russa mandar Aniuar Geduev, tricampeão europeu e bronze no mundial de 2015, que foi o wrestler que mais deu trabalho para o americano ano passado, no seu lugar.

Um curto highlight de Jordan Burroughs feito pela United World Wrestling recentemente:

No dia 5 de março ocorreu o Torneio Pan-Americano de Qualificação para as Olimpíadas. Neste torneio, os países só mandam os seus wrestlers das categorias de peso que ainda não foram qualificadas para as Olimpíadas. Os finalistas do torneio garantem as vagas para seus países nos Jogos no Rio.

Um dos melhores wrestlers do mundo na divisão até 57kg, que inclusive é um dos favoritos a levar o ouro olímpico, qualificou Cuba para as Olimpíadas. Yowlys Bonne Rodríguez, tricampeão pan-americano e medalhista de bronze no Mundial de 2014, é o meu wrestler favorito. O cubano é fantástico no tapete, sempre utilizando quedas de grande amplitude (faz os oponentes voarem) e karelin lifts, movimento raramente utilizado no estilo livre pela dificuldade de acertá-lo com a possibilidade de defesa agarrando as pernas. Bonne é a mistura perfeita de força bruta com técnica.

O cubano fez duas lutas antes de chegar à final, vencendo seus dois oponentes por superioridade técnica e encostamento. Na disputa pelo ouro, mais uma vez encontrou o seu “freguês”, o americano Tony Ramos, número 1 dos Estados Unidos na categoria, campeão da divisão I da NCAA em 2014 e bicampeão do World Team Trials. O cubano, além de conseguir 2 pontos com um step-out e uma advertência, faturou mais 8 com três quedas, uma de 4 pontos, vencendo a final por 10-0. Ramos, como também foi finalista, qualificou a categoria para os Estados Unidos nas Olimpíadas.

Melhor movimento do dia na primeira vitória de Bonne no torneio:

Outro cubano, nome muito forte para as Olimpíadas, levou o ouro na categoria até 86kg. Reineris Salas, pentacampeão pan-americano e duas vezes medalhista de prata em mundiais, confirmou o seu favoritismo. No round de qualificação e nas quartas de final, Salas derrotou seus adversários por encostamento e 10-4, respectivamente. Na semifinal, bateu de frente com outro americano “freguês” dos cubanos, do próprio Salas para ser exato, Jake Herbert, medalhista de prata no Mundial de 2009 e pentacampeão do World/Olympic Team Trials. Numa luta apertada, o cubano superou o americano por 2-1.

Na final, Salas enfrentou o portorriquenho Jaime Espinal e, com um step-out, um ponto no shot clock e duas quedas, venceu por 6-4, levando a medalha de ouro para casa, além de classificar Cuba para as Olimpíadas nessa divisão de peso.

Uma das quedas mais violentas do campeonato pan-americano do dia 27 de fevereiro foi aplicada por Salas (nesse campeonato, o cubano lutou na categoria até 97kg, ficando em segundo lugar ao não lutar na final):

Trocando um pouco o foco para o estilo greco-romano, o armênio naturalizado brasileiro Eduard Soghomonyan vem forte na categoria até 130kg ao conquistar um feito inédito para o wrestling brasileiro. Eduard figurou nesse mês em 9º lugar no ranking mundial da modalidade, melhor posicionamento da história do wrestling do Brasil no estilo greco-romano, após conquistar a medalha de prata em torneios importantes como o Pan-Americano e o Grand Prix de Paris, além de uma medalha de bronze no Torneio Internacional da Ucrânia.

  • Vitor MacGruber

    Gatsalov voltou pra categoria até 97kg ou foi só nesse torneio?

    • Elias Freire

      Ele voltou para a categoria até 97kg mesmo. Esse ano está ficando cada vez mais difícil para o Gadisov ir para o Rio. Boltukaev e Gatsalov estão tendo resultados bem melhores (Boltukaev inclusive teve um resultado muito expressivo hoje, mas vou comentar sobre isso no próximo artigo), o Olympic Trials lá vai ser insano nesse peso.

  • Digodasilva

    Wrestling o/