Por Edição MMA Brasil | 07/04/2019 23:24

Por Idonaldo Filho e João Gabriel Gelli

O MMA Brasil inicia agora mais um trabalho característico do site. O projeto De Olho no Futuro nasceu da paixão por analisar lutadores surgindo nos cenários regionais com o intuito de tentar descobrir as próximas estrelas antes de elas chegarem ao UFC ou Bellator.

Ao longo dos últimos meses, ficamos dedicados a montar uma grande lista de lutadores com bons cartéis, em todas as categorias, para que pudéssemos ter uma base sólida antes de começar os estudos. Depois de amplas discussões, chegamos ao formato de trazer lutadores pouco conhecidos, que ainda estão mais para o começo de suas carreiras no MMA ou ainda estão crus ou jovens e que não tiveram grandes trajetórias nas principais organizações nos circuitos menores.

O projeto se inicia nos pesos pesados. Infelizmente, como se trata de um trabalho muito intenso em termos de pesquisa e debates, não é possível adotar um cronograma muito rígido. Para esta primeira divisão, foram estudados mais de 50 lutadores, entre os quais alguns que até já assinaram com grandes ligas e outros que foram filtrados por um motivo ou outro. Depois de amplas discussões, chegamos a cinco nomes que consideramos potenciais integrantes da elite no futuro. Assim, nessa primeira edição do De Olho no Futuro, apresentaremos dois jovens lutadores, que poderiam até ser considerados para o Radar MMA Brasil, além de uma máquina de destruição russa.

Alton Meeks (3-0)  – Estados Unidos – 25 anos

Com um amplo histórico atlético, Alton Meeks tem tudo para, em breve, chegar no radar das grandes organizações que buscam pesados de qualidade no cenário americano – algo cada dia mais raro. Com passagem no futebol americano durante o tempo de universitário em Iowa State, Meeks decidiu partir para o wrestling logo depois, e não decepcionou. Ele chegou a entrar no ranking olímpico na luta greco-romana e buscava uma vaga nas Olimpíadas de Tóquio em 2020. No entanto, passou a focar na carreira no MMA após um convite do ex-UFC Alex Nicholson e, em menos de dois anos, acumulou três vitórias como amador, se profissionalizou e venceu a trinca de combates oficiais nos quais participou. Seu último compromisso foi em março, quando nocauteou Baraq Hunter em apenas 25 segundos no Combat Fight Pro Duval.

Até o momento em sua curta carreira, ele só enfrentou adversários de nível muito baixo e que não ofereceram absolutamente nenhuma resistência. Contra eles, Meeks mostrou explosão e facilidade para derrubar com single legs o mais rápido possível. Como também é muito forte, consegue levantar os adversários sem problemas e aplicar quedas de grande amplitude. Por cima, exibe bom controle posicional, executando as transições da forma que lhe é mais conveniente, sempre com o intuito de definir logo o duelo. Assim, Meeks sabe utilizar sua arma principal, que é o ground and pound constante e muito poderoso, e fez isso para obter todas as suas vitórias como profissional por enquanto.

Mesmo com a experiência de já ter participado de treinos com Rashad Evans e Volkan Oezdemir, no passado na Combat Club, pouco se sabe sobre seu jogo de striking. Isto se dá pelo fato dele sempre buscar incessantemente a queda, quase sem emular uma trocação para enganar, principalmente por confiar em seu ponto forte e ser muito dominante nele. Dessa forma, este é um aspecto ainda misterioso, mas que, sem dúvidas, pode ser melhorado.

Não é muito comum no MMA regional dos Estados Unidos esse tipo de material humano na categoria dos pesados, já que a divisão se resume a veteranos unidimensionais e de qualidade técnica muito baixa. Por isso, dificilmente algum lutador sobreviveria ao jogo de pressão constante e, até o momento, totalmente efetivo de Meeks. Com atleticismo muito acima da média da categoria, apenas 25 anos de idade, grande porte físico – inclusive com confrontos realizados na categoria dos superpesados – e notória qualidade e credenciais no wrestling, o potencial para Meeks é gigante. Assim, caso seja bem assessorado e consiga traçar sua trajetória de evolução, pode chegar muito longe e possui potencial para alcançar a elite.

Sergey Spivak (9-0)  – Ucrânia – 24 anos

Nome mais jovem dessa lista, Sergey Spivak é praticamente um bebê para a categoria dos pesados. Com apenas 24 anos e já uma boa dose de experiência, ele tem os escalpos de nomes como Travis Fulton, Ivo Cuk, Dimitiy Mikutsa e Tony Lopez em seu cartel. O que mais se destaca ao assistir seus combates é o ótimo instinto assassino. Quando Spivak vê uma brecha, já vai para cima com agressividade em busca da interrupção, seja em pé ou no chão.

Na trocação, o ucraniano já possui um jogo razoável, com a capacidade de atacar em combinações de socos e chutes, além de também conseguir utilizar boas joelhadas no clinch. Ele tem alguma potência nos golpes e sobe o volume quando enxerga uma oportunidade. No entanto, seu fluxo poderia ser mais constante, e ainda é preciso ser feito um trabalho técnico para ele fazer um uso melhor de suas boas dimensões para a divisão.

Seu wrestling ofensivo foi funcional até aqui ao proporcionar quedas sem maiores dificuldades. Entretanto, a concorrência não serve como o maior dos parâmetros e Spivak parece precisar de um pouco mais de explosão nas entradas. Além disso, quando consegue levar a luta para o solo, é uma máquina de destruição no ground and pound. Faz os movimentos necessários para chegar nas melhores posições possíveis e consegue controlar bem os adversários, para soltar uma dieta infernal de socos e cotoveladas. Para melhorar, está sempre atento para um espaço em que possa encaixar uma finalização, com uma boa variedade delas no histórico.

Um nativo no MMA, Spivak já chega ao esporte sem vícios de modalidades anteriores e com um nível atlético e condicionamento físico acima da média da categoria. Como ainda é um lutador jovem, pode ter algumas dores de crescimento, mas é um talento empolgante, que exibe traços completos e com bastante capacidade de definição. O tempo de sobra para seguir evoluindo e o fato de ser um profissional há menos de cinco anos tornam o ucraniano um prospecto de alto nível legítimo, sobretudo para a divisão. Assim, parece pronto para enfrentar concorrência de mais alto nível e tem espaço para melhorar a ponto de se tornar um dos melhores.

Anatoly Malykhin (4-0) – Rússia – 31 anos

Em menos de dois anos como profissional, Anatoly Malykhin já está deixando um rastro de destruição. Antes mesmo de migrar em definitivo para o MMA, superou um excelente teste ao dominar Salimgerey Rasulov em um campeonato amador quando Rasulov tinha acabado de perder o cinturão dos pesados do ACB. Em seus últimos compromissos, Malykhin seguiu distribuindo surras ao atropelar os veteranos Baga Agaev e Jake Heun. Com um estilo sufocante e já com vitórias relevantes, ele se qualifica como o principal nome dessa lista e que precisa ser mais conhecido.

Seu wrestling é de alta qualidade, capaz de encadear tentativas com um ritmo frenético, de pressão ininterrupta em busca de quedas. Malykhin ainda precisa desenvolver um cuidado maior ao avançar para derrubar, uma vez que calcula mal a distância de entrada em algumas situações. No entanto, quando consegue grudar, é um carrapato que arrasta os oponentes para o solo com domínio físico amplo.

O ground and pound tem um fluxo constante e ele faz um bom trabalho ao pesar as posições e quebrar os adversários aos poucos. Não tem um histórico de ser demolidor nos golpes com a luta no chão, mas é capaz de conquistar interrupções na situação ao acumular danos e vencer a batalha de atrito. Além disso, usa a enorme força física e o grande controle que exerce para anotar finalizações como mata-leões e kimuras.

Por outro lado, pouco se viu da sua habilidade na luta em pé. Em quase nenhum momento ele está posicionado na distância e, no minúsculo espaço amostral, ataca com overhands feios e lançados como golpes únicos, sem combinação. Seu único propósito é encurtar e trazer os adversários para seu estilo de combate. Isto tem sido bem-sucedido até aqui e não parece que muitos lutadores no cenário regional terão o arsenal técnico nem a habilidade atlética para impedi-lo. Entretanto, caso encontre um oponente capaz de frear seu ímpeto com alguma frequência, poderá ter problemas ao mostrar uma trocação ainda crua e que não parece ser eficiente.

Com 31 anos, Malykhin ainda é um peso pesado com um amplo caminho para percorrer. Sua carreira profissional ainda está no começo e ele é dominante desde o tempo como amador. O histórico de sucesso, com vitórias sobre alguns nomes relevantes do cenário russo, um nível acima da média no que faz de melhor e o fato de que é muito mais atlético e forte do que quase toda a categoria, fazem dele um lutador com potencial muito elevado. É verdade que serão necessárias evoluções na parte em pé e que o jogo ainda é cru e precisa de alguma variação, mas também é fácil perceber como este talento poderá se destacar em uma divisão tão rasa. Dessa forma, não deve ser surpresa se Malykhin acabar como um nome de elite na categoria. Seja como um futuro top 5 no UFC ou como um campeão no Bellator, o futuro é bastante promissor.

Próxima luta: Fábio Maldonado no Fight Nights Global 93 no dia 26/04