Por Idonaldo Filho | 28/10/2019 08:04

O projeto De Olho no Futuro retorna após alguns meses de análise e busca por talentos, agora como foco na divisão dos meios-pesados.

A coluna tem como objetivo encontrar lutadores promissores e pouco conhecidos, geralmente com experiência mínima no esporte, antes mesmo de chegarem nas grandes organizações.

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De uma lista inicial de 64 lutadores, apenas seis foram escolhidos para os textos. Vários foram descartados, seja por terem assinado com o UFC ou Bellator, seja por apresentarem desempenho abaixo da média ou mesmo por terem recebido mais destaque e saindo do padrão que a coluna busca destacar.

A primeira parte dos meios-pesados conta com dois lutadores russos – um como menção honrosa – e um americano.

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Muslim Magomedov (6-0) – Rússia – 24 anos

Direto de Makhachkala, a capital do Daguestão, temos um grande prospecto em Muslim Magomedov. Ele tem passagem pela Eagles MMA e treinou com atletas como Ramazan Emeev, Saparbeg Safarov e Gadzhimurad Antigulov, além de inúmeros outros russos de alto nível.

Magomedov fez parte do elenco campeão mundial de MMA amador, em 2017, torneio realizado na cidade de Astana, junto a lutadores como Anatoly Malykhin, presente em nossa primeira edição. Muslim também conquistou o campeonato europeu de MMA, em 2018, após lesão de seu adversário antes do combate. Treinado no sambô de combate, Magomedov tem uma única derrota em sua carreira como amador, contra o ótimo Magomed Ankalaev, em 2015, quando tinha 20 anos recém completados e não foi páreo para o atual lutador do UFC.

O jogo de Muslim Magomedov se baseia muito na intensa movimentação. Ele circula durante toda a luta e demonstra um bom condicionamento.

O russo não é conhecido por sua trocação, que é pouco ou nada utilizada durante os rounds – ele quase não ataca e muitas vezes se desequilibra durante os golpes. A maior parte dos socos que executa apresenta o objetivo de manter a distância ou se aproximar do adversário para leva-lo até a grade. Não há um poder de definição gigante nos punhos, mas isso pouco importa, se considerarmos seus atributos físicos e técnicos em outra vertente do jogo.

O grande ponto forte de Magomedov está na luta agarrada. Ele aplica as quedas eficientemente, muitas vezes usando um timing de qualidade para executar o movimento durante uma ação do adversário. Muitas vezes seus ataques às pernas do oponente não são dos melhores, mas ele possui uma pegada forte e capacidade de encadear tentativas. Por cima, Muslim faz as transições muito bem e isso pode ser considerado o principal valor em seu jogo, obtendo a montada com facilidade, mas ainda com espaço para evoluir no controle posicional e na definição.

Invicto como profissional, Magomedov já acumula um cartel respeitável, com seus oponentes somados tendo um cartel de 43-18-1. Suas últimas duas lutas foram bons testes, nos quais derrotou o veterano Chris Camozzi e também o russo Ilya Shcheglov. Com apenas 24 anos, experiência contra adversários de bom nível para o cenário regional e em uma categoria até que bem acessível no ACA  – o campeão Dovletdzhan Yagshimuradov não está entre os melhores donos de título no evento -, dá para considerar que, com algumas adaptações, Muslim esteja em um bom caminho para assegurar o cinturão no futuro. Além disso, vale ser dito que ele é um tanto pequeno para a divisão e talvez consiga baixar para os médios.

Grant Neal (1-0) – Estados Unidos – 24 anos

Dono de extenso histórico em competições atléticas, Grant Neal tem apenas uma luta como profissional, mas já chamou a atenção do Bellator. Neal está com luta marcada na organização, mas, como a lista já estava feita antes do anúncio e ele não estreou ainda, será destacado aqui. Durante o ensino médio, Neal obteve bons resultados no wrestling, conquistando campeonatos no Colorado e se destacando. Durante a faculdade na Universidade de Colorado, partiu para o futebol americano com o sonho de ir para a NFL. No entanto, uma acusação de estupro acabou o impedindo de continuar no esporte e na faculdade. Dessa forma, migrou para o MMA com a ajuda de Nate Marquardt e foi inocentado anos depois.

Muito atlético, Neal é um meio-pesado ágil e bastante explosivo. A sua trocação ainda é pouco desenvolvida e não tem muito volume de golpes. O poder nos punhos é imenso e impressiona. Isto o levou a aplicar violentos knockdowns durante a carreira ao mostrar velocidade nas mãos. Outra arma no seu ainda raso arsenal em pé são esporádicos chutes na perna. A defesa de golpes foi pouco testada até agora, mas certamente ainda está em estágio de desenvolvimento.

Como é bastante forte, Grant se dá bem no grappling, muito por conta da precisão nas quedas. Neal sabe muito bem quando derrubar, normalmente usando movimentos reativos, sempre explosivo e certeiro. Ainda tem muito o que melhorar no controle posicional, mas, brucutu como é, já estrangulou alguns adversários na base da grosseria. O condicionamento aparentemente é bom, lutando por três rounds de forma tranquila – mas sem muita atividade -, sem falar que, para essa divisão, Neal realmente é um atleta bem acima da média.

Invicto em seis duelos como amador, Neal garantiu os títulos do SCL e do Tuff-N-Uff nos meios-pesados. Caso tenha assinado com o Bellator de fato a longo prazo, pode ter caminho facilitado no começo da carreira pela organização. De qualquer forma, os atributos físicos, atléticos e o fato de ainda ser jovem são fatores para acreditar que Neal terá sucesso. Ainda é um lutador verde e até que pequeno para a categoria, mas que empolga pelo grande potencial que tem para o futuro.

Próxima luta: Jimmy Lugo, no Bellator 233, no dia 08/11

Menção Honrosa: Shamil Akhmedov (6-0) – Rússia – 29 anos

Mais um do Daguestão e que treina na AKA da Tailândia, Shamil Akhmedov além de lutador de MMA é wrestler, conquistando a medalha de bronze no Mundial de 2014 na categoria até 97kg. Mesmo sendo russo, Shamil representa a Turquia no esporte, atuando com o nome Shamil Erdogan. Após o campeonato, Akhmedov falhou em exame antidoping, foi suspenso por dois anos e perdeu a medalha. Como está conciliando a carreira no MMA com o wrestling estilo livre, Akhmedov não luta desde 2017, mas chegou a ter uma luta contra Oli Thompson marcada no ano passado. Lutador do Fight Nights Global, Shamil controla bem a distância, usa bem jabs e chutes baixos, sem falar no wrestling de alto nível e sempre com quedas precisas e um controle posicional forte. A oposição que enfrentou é de bom nível para a pouca experiência. Fica a expectativa de um retorno, já que o lutador vai fazer dois anos sem lutar.